1.5. Apresentação do Protocolo de Manchester: conceito, estrutura e motivos da não utilização neste curso

A classificação de risco é um instrumento essencial nos serviços de urgência e emergência, e ao longo dos anos, diferentes protocolos foram desenvolvidos para orientar esse processo de forma segura, padronizada e baseada em critérios clínicos. Entre os mais conhecidos e utilizados mundialmente, destaca-se o Protocolo de Manchester, criado no Reino Unido e adotado por diversos países — incluindo o Brasil, em algumas redes hospitalares.

No entanto, apesar de sua ampla difusão, este curso opta por não utilizar o Protocolo de Manchester como base prática de ensino, priorizando abordagens adaptadas à realidade brasileira, com foco nos protocolos nacionais e locais, e nas diretrizes estabelecidas pelo Ministério da Saúde. Esta decisão não desconsidera o valor técnico do modelo, mas visa garantir coerência com as necessidades e especificidades dos serviços públicos de saúde no Brasil, especialmente nas UPAs e nas unidades municipais.

Neste item, vamos apresentar de forma objetiva o que é o Protocolo de Manchester, sua estrutura geral e os motivos que justificam sua não adoção prática no escopo deste curso.


O que é o Protocolo de Manchester?

O Protocolo de Manchester é um sistema estruturado de classificação de risco clínico, desenvolvido na cidade de Manchester, no Reino Unido, em 1994. Seu objetivo é padronizar a triagem de pacientes nos serviços de urgência, classificando-os em categorias de prioridade com base na gravidade clínica e no tempo máximo aceitável de espera para o atendimento médico.

Esse modelo foi criado para responder a uma demanda crescente por agilidade e segurança nos serviços de emergência europeus, buscando evitar que pacientes graves fossem negligenciados enquanto aguardavam atendimento.

Com o tempo, o protocolo foi adotado por países como Portugal, Espanha, Holanda, Austrália e, posteriormente, chegou ao Brasil. Sua estrutura foi amplamente traduzida e incorporada por hospitais, especialmente da rede privada ou de ensino, como um sistema de triagem baseado em algoritmos clínicos.


Estrutura e funcionamento do Protocolo de Manchester

O Protocolo de Manchester é baseado em fluxogramas clínicos que guiam o enfermeiro classificador a partir da queixa principal do paciente. Ao todo, o sistema possui mais de 50 fluxogramas, organizados por sintomas ou síndromes (como dor torácica, sangramento, dispneia, trauma, entre outros).

A estrutura do protocolo inclui:

  • Seleção da queixa principal: o profissional deve escolher, entre os fluxogramas disponíveis, aquele que melhor corresponde ao motivo da procura.

  • Critérios discriminadores: uma lista de sinais e sintomas associados a cada queixa, classificados por níveis de urgência.

  • Atribuição da cor: com base nos critérios identificados, o paciente é classificado em uma das cinco categorias de risco, cada uma com um tempo máximo de espera sugerido:

CorPrioridadeTempo máximo de espera
VermelhoEmergênciaAtendimento imediato (0 min)
LaranjaMuito urgenteAté 10 minutos
AmareloUrgenteAté 60 minutos
VerdePouco urgenteAté 120 minutos
AzulNão urgenteAté 240 minutos

O protocolo exige do profissional formação específica e certificada, além de treinamento contínuo para assegurar a correta aplicação dos fluxogramas e a interpretação adequada dos critérios clínicos.


Principais características do modelo

  • Objetividade clínica: o protocolo reduz a subjetividade na triagem ao adotar algoritmos claros e fluxos decisórios.

  • Padronização do processo: permite uniformidade nos atendimentos, especialmente em instituições de grande porte.

  • Base científica: foi construído com base em evidências e é constantemente atualizado.

  • Necessidade de treinamento rigoroso: exige certificação específica para que os profissionais possam aplicá-lo de forma correta e segura.


Por que este curso não adota o Protocolo de Manchester?

Embora o Protocolo de Manchester seja amplamente reconhecido internacionalmente, existem razões técnicas, pedagógicas e contextuais para que este curso opte por não utilizá-lo como base prática de ensino:

1. Inadequação à realidade de muitos serviços públicos brasileiros
A estrutura do protocolo, seus fluxogramas e critérios exigem uma infraestrutura física, tecnológica e humana que não está disponível em grande parte das UPAs, UBSs e pronto atendimentos municipais. Isso pode gerar mais obstáculos do que soluções práticas no cotidiano.

2. Dependência de treinamento específico e licenciamento
Para aplicar o Protocolo de Manchester com segurança, é necessário que os profissionais recebam capacitação certificada, muitas vezes vinculada a contratos com empresas ou instituições estrangeiras. Isso limita o acesso de profissionais da rede pública, especialmente de regiões periféricas ou distantes dos grandes centros.

3. Complexidade de aplicação em serviços com alta rotatividade e escassez de recursos
A necessidade de escolher corretamente entre dezenas de fluxogramas pode ser inviável em unidades com grande fluxo de pacientes, poucos profissionais e tempo reduzido para triagem. Isso pode comprometer a acurácia da classificação e gerar sobrecarga na equipe.

4. Valorização de protocolos nacionais e institucionais
O Ministério da Saúde do Brasil já propõe modelos de classificação de risco simplificados e adaptados à realidade local, que são mais acessíveis, efetivos e alinhados às políticas públicas nacionais, como os utilizados nas UPAs 24h, protocolos do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), entre outros.

5. Alinhamento com a Política Nacional de Humanização (PNH)
Este curso prioriza o acolhimento com escuta qualificada e abordagem humanizada, enquanto o modelo de Manchester, apesar de eficiente, pode ser percebido como mais mecanizado e padronizado, o que pode enfraquecer o vínculo e a escuta subjetiva, especialmente quando mal aplicado.


O que o aluno deve saber sobre o Protocolo de Manchester?

Mesmo que este curso não utilize o Protocolo de Manchester na prática, é importante que o aluno tenha conhecimento teórico sobre sua existência e estrutura, pois:

  • Ele pode ser cobrado em concursos públicos e provas de residência;

  • Pode ser adotado em instituições privadas, especialmente hospitais de grande porte;

  • Serve como base de comparação para entender a evolução de outros modelos de classificação de risco.

O objetivo aqui é formar profissionais conscientes, críticos e capazes de adaptar sua prática à realidade do serviço em que atuam, respeitando as diretrizes do SUS e os princípios da humanização.



Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:00