3.4. Integração com hospitais de referência e SAMU: papel da classificação no encaminhamento

O bom funcionamento das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) depende não apenas da estrutura física e dos recursos humanos internos, mas também de sua capacidade de articulação com outros serviços da Rede de Atenção à Saúde, especialmente com os hospitais de referência e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192).

Essa integração entre os níveis de atenção é um dos princípios fundamentais do SUS e garante que o paciente receba atenção contínua, coordenada e adequada à sua necessidade, seja ela resolvida na própria UPA, encaminhada para a atenção básica ou direcionada para um hospital de maior complexidade.

Dentro desse fluxo articulado, a classificação de risco desempenha papel estratégico, pois ela orienta quais pacientes devem ser atendidos imediatamente, quais podem aguardar e, principalmente, quais devem ser transferidos com urgência para serviços de referência. A triagem bem feita é, portanto, um elo vital entre o atendimento inicial e o desfecho clínico do paciente.


1. A Rede de Atenção às Urgências e o papel da UPA como ponto de estabilização

A Rede de Atenção às Urgências (RAU) do SUS é composta por diferentes pontos de atenção que se complementam, como:

  • Atenção Básica (postos e unidades de saúde);

  • UPAs 24h e pronto atendimentos municipais;

  • Hospitais gerais, especializados e de referência regional;

  • SAMU 192 (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência);

  • Serviços de apoio diagnóstico e terapêutico;

  • Regulação de leitos e centrais de encaminhamento.

Nesse cenário, a UPA funciona como ponto intermediário, recebendo o paciente agudo e oferecendo atendimento imediato, com estabilização clínica, exames e observação. Quando há necessidade de intervenção cirúrgica, internação em UTI ou suporte especializado, a unidade deve acionar a rede de regulação e o SAMU para o encaminhamento seguro.


2. O papel do SAMU 192 na integração com a UPA

O SAMU 192 é um serviço essencial no suporte à classificação de risco e na integração da assistência pré-hospitalar móvel com os demais pontos de atenção da rede. Ele atua em duas frentes principais:

a) Transporte de pacientes para a UPA:
O SAMU é responsável por atender pacientes em domicílio, via pública ou locais de acidente, avaliando a gravidade e decidindo o melhor local para encaminhamento. Em muitos casos, o destino é a UPA, especialmente quando o hospital está sobrecarregado ou quando o caso é estabilizável.

b) Transporte de pacientes da UPA para hospitais de referência:
Após a classificação de risco e atendimento inicial, se for identificada a necessidade de internação hospitalar, cirurgia ou exames de alta complexidade, a UPA aciona o SAMU para transporte seguro do paciente até o hospital indicado pela central de regulação.

Esse processo exige boa comunicação entre as equipes, clareza na documentação clínica e atualização dos protocolos regionais.


3. Critérios clínicos para encaminhamento hospitalar

A classificação de risco realizada na UPA permite identificar quais pacientes devem ser regulados com urgência, com base em critérios clínicos. Alguns exemplos incluem:

  • Síndromes coronarianas agudas (como infarto agudo do miocárdio): requerem unidade com hemodinâmica ou UTI.

  • Acidente vascular cerebral com janela terapêutica para trombólise: encaminhamento imediato para hospital com neurologia e tomografia.

  • Politraumatismo com instabilidade hemodinâmica: transferência para hospital com trauma, cirurgia e suporte intensivo.

  • Sepse grave ou choque séptico: hospital com UTI e equipe multidisciplinar.

  • Complicações obstétricas (pré-eclâmpsia grave, descolamento de placenta): maternidades de referência.

  • Crise psiquiátrica com risco de auto ou heteroagressão: unidades especializadas em saúde mental com leitos de internação.

A ficha de classificação de risco, o prontuário e os exames realizados na UPA devem ser enviados com o paciente, garantindo a continuidade do cuidado e segurança da informação.


4. A Central de Regulação: papel e funcionamento

A Central de Regulação de Urgência e Emergência (CRUE) é o setor responsável por coordenar a alocação de vagas hospitalares, de acordo com a gravidade e a necessidade de cada paciente. Ela atua em conjunto com o SAMU, as UPAs, os hospitais e as secretarias de saúde.

O profissional da UPA, geralmente o enfermeiro ou médico, entra em contato com a central e:

  1. Informa o caso clínico, a classificação de risco e os dados do paciente;

  2. Solicita vaga compatível com a necessidade do paciente (UTI, cirurgia, neurologia, etc.);

  3. Aguarda liberação da vaga e definição do hospital de destino;

  4. Acompanha o paciente até a saída, com suporte da equipe de transporte do SAMU.

A central de regulação pode negar vagas se não houver critérios clínicos compatíveis, exigindo documentação detalhada para análise. Daí a importância de uma triagem bem feita e criteriosamente registrada.


5. Riscos da ausência de integração e de classificação inadequada

Quando não há articulação entre UPA, hospital e SAMU, ou quando a classificação de risco é falha, os seguintes problemas podem ocorrer:

  • Pacientes graves permanecem tempo excessivo na UPA, sem acesso ao hospital;

  • Encaminhamentos desnecessários sobrecarregam os hospitais, que poderiam ser evitados com resolutividade local;

  • Falta de retorno do hospital à UPA (ausência de contra-referência), quebrando a continuidade do cuidado;

  • Eventos adversos e óbitos evitáveis, por demora ou erros no transporte;

  • Judicialização da assistência e responsabilização ética dos profissionais.

Portanto, é essencial que a equipe da UPA conheça o fluxo de encaminhamento e os critérios clínicos de regulação, e que mantenha uma relação ativa com os serviços de referência e o SAMU.


6. Boas práticas para garantir a integração eficiente

Para qualificar a integração entre UPA, hospitais e SAMU, recomenda-se:

  • Manter protocolos regionais atualizados e de fácil acesso na unidade;

  • Capacitar os profissionais da triagem e da sala de emergência sobre os critérios de regulação;

  • Estabelecer canais diretos de comunicação com a central de regulação (telefone, sistema online, WhatsApp institucional);

  • Documentar adequadamente a classificação de risco, evolução clínica e justificativas de encaminhamento;

  • Acompanhar indicadores de tempo de resposta da regulação e buscar pactuações com os hospitais da rede;

  • Garantir o acolhimento humanizado também no momento da transferência, com apoio ao paciente e familiares.


Em síntese, a classificação de risco é o ponto de partida para decisões clínicas e logísticas que envolvem o encaminhamento de pacientes graves da UPA para hospitais de referência. Quando bem realizada e documentada, ela fortalece a articulação da rede, protege o paciente e valoriza a atuação ética e técnica da equipe de enfermagem e dos demais profissionais.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:06