4. Metodologias Brasileiras de Classificação de Risco (sem uso do Protocolo de Manchester)
4. Metodologias Brasileiras de Classificação de Risco (sem uso do Protocolo de Manchester)
A classificação de risco, como processo clínico e organizacional, é indispensável para garantir acesso seguro e equitativo aos serviços de saúde, especialmente nas unidades de urgência e emergência. No Brasil, embora o Protocolo de Manchester tenha sido adotado por alguns serviços hospitalares, a realidade da maior parte da rede pública de saúde exige metodologias mais simples, adaptadas ao contexto local, à estrutura disponível e à cultura organizacional do SUS.
Nesse cenário, diversas instituições públicas, universidades e gestores regionais desenvolveram modelos de classificação de risco próprios, alinhados às diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH) e aos princípios da Rede de Atenção às Urgências (RAU). Esses modelos priorizam objetividade clínica, aplicabilidade prática, linguagem acessível e foco na resolutividade.
Este módulo tem como objetivo apresentar essas metodologias brasileiras, com destaque para sua estrutura, princípios e aplicabilidade, especialmente em UPAs, prontos atendimentos, hospitais regionais e unidades básicas de saúde.
4.1. Modelos nacionais e regionais de classificação de risco
Várias instituições brasileiras desenvolveram protocolos de classificação de risco com reconhecimento técnico e amplo uso no SUS. Esses modelos têm como característica comum a categorização por cores, que define o nível de urgência e o tempo de resposta desejado, respeitando a lógica de priorização clínica. Abaixo, exploramos os principais modelos adotados no país.
1. Classificação de risco proposta pelo Ministério da Saúde (cores do SUS)
O Ministério da Saúde do Brasil recomenda o uso de um modelo simplificado de classificação de risco por cores, amplamente utilizado em UPAs e hospitais públicos. Esse modelo está descrito em documentos técnicos como o Manual Instrutivo da Rede de Urgência e Emergência e é considerado referência nacional para os serviços vinculados ao SUS.
A estrutura é a seguinte:
| Cor | Grau de Urgência | Tempo ideal para atendimento | Exemplos clínicos |
|---|---|---|---|
| Vermelho | Emergência | Imediato | Parada cardiorrespiratória, politrauma, AVC, IAM, convulsão |
| Laranja | Muito urgente | Até 10 minutos | Dispneia grave, dor torácica intensa, sangramento ativo |
| Amarelo | Urgente | Até 60 minutos | Febre persistente, dor abdominal moderada, hipertensão |
| Verde | Pouco urgente | Até 120 minutos | Sintomas leves, cefaleia, dor lombar sem sinais de alarme |
| Azul | Não urgente (eletivo) | Até 240 minutos ou retorno à APS | Queixas crônicas, dúvidas administrativas |
Esse modelo é simples, flexível e eficaz, podendo ser implementado em diferentes contextos e com baixo custo. O profissional responsável pela triagem deve seguir critérios clínicos objetivos, como sinais vitais, nível de consciência, dor, história pregressa e observação do estado geral.
Além disso, a documentação é padronizada e pode ser feita de forma manual ou eletrônica, permitindo rastreabilidade e controle da qualidade do atendimento.
2. Modelo de Classificação de Risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA)
O Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), desenvolveu um protocolo próprio de classificação de risco, amplamente utilizado como modelo de referência nacional. Ele segue a lógica das cores, mas com critérios clínicos bem definidos e instrumentos de triagem com alto grau de detalhamento.
O diferencial do HCPA está em:
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Utilização de checklists clínicos objetivos, por queixa principal (ex: dor no peito, dispneia, sangramento);
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Registro padronizado e informatizado das decisões clínicas;
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Inclusão de critérios sociais e emocionais como agravantes da condição do paciente;
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Atualizações periódicas com base em evidências e revisão de indicadores.
Esse modelo é considerado um intermediário entre a simplicidade do modelo do Ministério da Saúde e a complexidade do Protocolo de Manchester, sendo ideal para hospitais universitários e UPAs com maior capacidade de gestão.
3. Protocolos estaduais e municipais (modelos locais)
Diversas secretarias estaduais e municipais de saúde desenvolveram protocolos próprios de triagem, adaptando os modelos nacionais às condições locais de infraestrutura, perfil epidemiológico da população e capacidade instalada.
Entre os exemplos mais conhecidos:
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Protocolo de Triagem do Estado de São Paulo – aplicado em prontos-socorros e hospitais regionais, com material educativo para capacitação dos profissionais.
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Protocolo da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba – que combina avaliação clínica com critérios psicossociais, incluindo situações de violência, sofrimento psíquico e vulnerabilidade social.
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Sistema informatizado de triagem de Belo Horizonte (SITRI-BH) – com interface digital e integração com prontuário eletrônico, permitindo acompanhamento em tempo real.
Esses modelos são valiosos por respeitarem a realidade operacional da rede local e promoverem maior adesão dos profissionais, uma vez que foram construídos com participação da própria equipe técnica.
4. Metodologias aplicadas em unidades básicas de saúde
Embora a classificação de risco seja mais frequentemente associada a UPAs e hospitais, ela também pode ser aplicada na Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente na gestão da demanda espontânea e na organização do acesso.
Nesse nível, a avaliação de risco considera não apenas os sinais clínicos, mas também:
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Grau de sofrimento subjetivo;
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Condições sociais de risco (ex: população em situação de rua, mulheres vítimas de violência, idosos frágeis);
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Presença de doenças crônicas descompensadas;
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Situações emocionais graves, como crise de ansiedade, tentativa de suicídio ou luto recente.
Unidades que adotam esse modelo organizam o atendimento em três níveis principais:
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Atendimento prioritário no mesmo dia;
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Atendimento intermediário (até 3 dias);
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Acompanhamento programado (eletivo).
Essa lógica melhora a resolutividade da APS, evita sobrecarga das UPAs e fortalece o vínculo com a comunidade.
5. Vantagens dos modelos brasileiros
As metodologias brasileiras de classificação de risco, quando bem aplicadas, oferecem diversas vantagens:
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Adequação à realidade do SUS e suas limitações de recursos;
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Facilidade de capacitação das equipes, inclusive com materiais simplificados;
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Possibilidade de informatização ou uso manual, conforme o nível de estrutura;
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Flexibilidade para incluir critérios sociais e subjetivos, não apenas clínicos;
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Alinhamento com a Política Nacional de Humanização e com a equidade no acesso.
Além disso, esses modelos promovem o fortalecimento da autonomia do enfermeiro, que atua com respaldo legal e técnico para tomar decisões clínicas seguras durante o acolhimento.
No próximo subitem, aprofundaremos o modelo do Ministério da Saúde com mais detalhes, abordando o uso prático da classificação de cores no cotidiano das unidades de urgência e emergência.