4.2. Classificação de Risco do Ministério da Saúde (cores)

A classificação de risco por cores, recomendada pelo Ministério da Saúde do Brasil, é um modelo amplamente utilizado nos serviços públicos de urgência e emergência, especialmente em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), hospitais regionais e pronto atendimentos municipais. Seu principal objetivo é ordenar o atendimento conforme a gravidade clínica do paciente, garantindo prioridade aos casos mais graves e evitando riscos à vida.

Essa metodologia foi inspirada em sistemas internacionais de triagem, mas adaptada à realidade brasileira, com linguagem simplificada, critérios objetivos e aplicabilidade prática mesmo em unidades com estrutura limitada.

O sistema divide os pacientes em cinco categorias, representadas por cores, que indicam o nível de urgência, a gravidade clínica e o tempo ideal de atendimento.

A seguir, explicamos cada uma dessas categorias.


• Vermelho – Atendimento imediato

A cor vermelha indica emergência absoluta, ou seja, risco iminente de morte ou situação de saúde que exige intervenção imediata da equipe médica.

Características clínicas:

  • Instabilidade hemodinâmica (pressão arterial muito baixa, pulso fraco ou ausente);

  • Rebaixamento importante do nível de consciência;

  • Parada cardiorrespiratória (PCR);

  • Convulsões ativas ou pós-ictal grave;

  • Dispneia intensa com sinais de insuficiência respiratória;

  • Sangramentos abundantes e incontroláveis;

  • Infarto agudo do miocárdio com dor torácica típica e sinais de gravidade;

  • AVC com déficits neurológicos súbitos e janela terapêutica ativa;

  • Trauma grave com lesões múltiplas, fraturas expostas, ferimentos penetrantes no tórax ou abdome.

Conduta:

  • O paciente não deve aguardar em fila. Deve ser conduzido imediatamente à sala de emergência, com suporte avançado de vida, equipe multiprofissional e monitoramento contínuo.

Importância:

  • Essa classificação salva vidas, pois reduz o tempo entre o início dos sintomas e o início do tratamento. A cada minuto perdido, especialmente em casos como IAM e AVC, aumentam as chances de complicações ou óbito.


• Laranja – Muito urgente

A cor laranja representa situações de muita urgência, com risco de agravamento clínico rápido, embora ainda haja sinais vitais presentes e relativa estabilidade momentânea.

Características clínicas:

  • Dor torácica persistente sem sinais de PCR, mas com fatores de risco cardiovasculares;

  • Dispneia moderada com esforço respiratório;

  • Febre alta em crianças pequenas (especialmente < 3 meses);

  • Estado confusional agudo (delirium);

  • Traumas com sangramentos moderados ou suspeita de fratura instável;

  • Vômitos e diarreias intensos com sinais de desidratação;

  • Hipoglicemia com alteração neurológica;

  • Hipertensão severa com sintomas (ex: cefaleia intensa, visão turva);

  • Convulsão recente com recuperação incompleta.

Conduta:

  • O atendimento deve ocorrer em até 10 minutos após a classificação. O paciente deve ser monitorado enquanto aguarda, com avaliação periódica e suporte clínico, se necessário.

Importância:

  • A agilidade no atendimento desses casos evita agravamentos e reduz o risco de evolução para um quadro de emergência (vermelho).


• Amarelo – Urgente

A cor amarela indica situações de urgência clínica, que necessitam de atendimento, mas sem risco iminente à vida naquele momento. São casos que exigem atenção médica preferencial, mas que podem aguardar por um curto período.

Características clínicas:

  • Dor abdominal de intensidade moderada;

  • Cefaleia intensa, porém sem sinais neurológicos associados;

  • Febre persistente em adulto sem sinais de sepse;

  • Dispneia leve com bom padrão ventilatório;

  • Infecção urinária com dor, mas sem comprometimento sistêmico;

  • Crises de asma leves já em recuperação;

  • Quedas com suspeita de fratura em membros;

  • Pequenas queimaduras ou lacerações sem sangramento ativo.

Conduta:

  • Atendimento em até 60 minutos. O paciente deve permanecer sob observação e reavaliação periódica, e o profissional deve estar atento a possíveis sinais de deterioração clínica.

Importância:

  • A priorização dessa categoria evita o agravamento de quadros inicialmente estáveis, garantindo atendimento resolutivo.


• Verde – Pouco urgente

A cor verde refere-se a situações pouco urgentes, com baixo risco de agravamento e que não requerem atendimento médico imediato. Geralmente, são queixas crônicas, desconfortos leves ou condições autolimitadas.

Características clínicas:

  • Dor de garganta, resfriado comum;

  • Dor lombar sem sinais de alerta (sem perda de força ou sensibilidade);

  • Queixas de ansiedade, choro, insônia, sem risco iminente;

  • Pequenas contusões ou escoriações superficiais;

  • Dor de dente sem sinais de abscesso;

  • Vômito isolado, sem sinais de desidratação.

Conduta:

  • Atendimento pode ocorrer em até 120 minutos. Em alguns casos, o paciente pode ser orientado a retornar à Atenção Básica, especialmente se a UPA estiver sobrecarregada com casos mais graves.

Importância:

  • Essa classificação evita que o paciente espere desnecessariamente e preserva os recursos da unidade para casos mais complexos. Também abre oportunidade para educação em saúde e orientação adequada.


• Azul – Casos não urgentes

A cor azul é reservada para situações eletivas ou administrativas, que não deveriam ser resolvidas em uma UPA ou serviço de urgência, mas sim na Atenção Primária à Saúde (APS).

Características clínicas:

  • Solicitação de receitas médicas ou exames de rotina;

  • Reavaliação de exames já realizados;

  • Acompanhamento de doenças crônicas sem descompensação;

  • Queixas sem manifestação clínica no momento (ex: "estou bem, mas quero consultar");

  • Dúvidas sobre uso de medicamentos ou renovação de atestados.

Conduta:

  • Atendimento pode ser agendado, orientado ou referenciado para unidade básica de saúde. O profissional deve explicar ao paciente que aquele não é o local adequado para sua demanda, mas fazê-lo com empatia e respeito.

Importância:

  • Reduz a superlotação e o uso indevido da UPA, permitindo que os recursos estejam disponíveis para quem realmente necessita de atenção urgente.


Conclusão

O modelo de classificação por cores do Ministério da Saúde é uma estratégia simples, eficaz e adaptada ao SUS. Ele garante que os pacientes mais graves tenham prioridade no atendimento, promovendo segurança, eficiência e equidade no cuidado.

Para que essa metodologia funcione corretamente, é essencial que:

  • A triagem seja realizada por profissional capacitado, preferencialmente o enfermeiro;

  • Haja revisão contínua dos critérios clínicos e capacitação da equipe;

  • O paciente seja monitorado enquanto aguarda, com possibilidade de reclassificação;

  • Haja registro adequado e transparência na comunicação com o usuário.

Na sequência do curso, abordaremos o modelo de Classificação de Risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), reconhecido como referência nacional na prática da triagem clínica estruturada.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:09