4.3. Classificação de Risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA)

O Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), vinculado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é uma instituição de referência nacional em ensino, pesquisa e assistência em saúde. Reconhecendo a importância da triagem qualificada nos serviços de urgência e emergência, o hospital desenvolveu um sistema próprio de classificação de risco, voltado para a realidade do SUS, mas com forte base científica, prática clínica segura e aplicabilidade em diversas unidades de saúde do Brasil.

Esse modelo é uma alternativa ao Protocolo de Manchester, oferecendo estratégias objetivas e adaptadas, baseadas em sinais clínicos, queixas principais e critérios estruturados de prioridade. Ele pode ser aplicado tanto em hospitais de grande porte quanto em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), desde que a equipe esteja capacitada.


Características gerais do modelo do HCPA

O modelo de classificação de risco do HCPA tem como princípios:

  • Garantir acesso ordenado e justo ao atendimento, com base na gravidade clínica;

  • Reduzir riscos à vida por meio de triagem eficaz e prioritária;

  • Otimizar os recursos da unidade, priorizando os atendimentos críticos;

  • Promover segurança do paciente, diminuindo atrasos e omissões de cuidado;

  • Apoiar o registro padronizado e auditável do processo de triagem.

O método se baseia em cinco níveis de risco, representados por cores, semelhantes ao modelo do Ministério da Saúde, mas com estratégias mais refinadas para avaliação das queixas principais.


Etapas do processo de classificação

O processo de classificação no HCPA é conduzido por profissionais de enfermagem capacitados, utilizando instrumentos padronizados. As etapas principais incluem:

  1. Recepção do paciente com acolhimento humanizado;

  2. Identificação da queixa principal (por exemplo: dor torácica, febre, vômito, trauma, sangramento, etc.);

  3. Aplicação de um checklist clínico específico para a queixa apresentada, com base em sinais vitais, sintomas associados, escala de dor e histórico clínico;

  4. Atribuição da cor correspondente ao nível de prioridade;

  5. Encaminhamento ao setor adequado ou reavaliação periódica enquanto aguarda atendimento.

Esse sistema valoriza tanto os sinais objetivos quanto aspectos subjetivos do sofrimento, incluindo fatores sociais, emocionais e contextuais.


Níveis de classificação do HCPA

Assim como o modelo do Ministério da Saúde, o HCPA utiliza cinco cores com significados específicos:

🔴 Vermelho – Emergência

  • Risco de morte iminente, necessidade de atendimento imediato.

  • Exemplo: PCR, coma, hemorragia massiva, rebaixamento grave do nível de consciência, politraumatismo com instabilidade.

🟠 Laranja – Muito urgente

  • Risco de agravamento clínico em curto prazo.

  • Exemplo: dor torácica, dispneia com esforço, sangramento ativo moderado, confusão mental aguda.

🟡 Amarelo – Urgente

  • Quadro estável no momento, mas que requer avaliação médica preferencial.

  • Exemplo: febre persistente, vômitos recorrentes, dor abdominal leve a moderada, crise asmática em melhora.

🟢 Verde – Pouco urgente

  • Quadro leve, sem sinais de gravidade, que pode aguardar atendimento.

  • Exemplo: sintomas gripais, cefaleia leve, pequenas lesões traumáticas.

🔵 Azul – Não urgente

  • Demandas que não requerem atendimento em unidade de urgência.

  • Exemplo: solicitação de exames, dúvidas clínicas eletivas, acompanhamento sem intercorrência.


Diferenciais do modelo HCPA

O sistema do HCPA possui diversos diferenciais em relação a outros modelos simplificados:

1. Uso de checklists estruturados por queixa principal

Para cada queixa mais frequente na triagem, como "dor no peito", "falta de ar", "febre", "trauma", "vômito", há um roteiro padronizado com critérios clínicos específicos. Isso reduz a subjetividade da triagem e aumenta a segurança na decisão do enfermeiro.

2. Avaliação multidimensional do paciente

O modelo considera não apenas sinais clínicos, mas também:

  • Fatores de risco (hipertensão, diabetes, tabagismo, gestação, etc.);

  • Condições de base (ex: paciente oncológico, imunodeprimido);

  • Vulnerabilidade social e emocional (situação de violência, abandono, sofrimento psíquico intenso).

3. Capacitação contínua dos profissionais

O HCPA mantém programas de capacitação regulares, com simulações clínicas, atualização de protocolos e avaliação do desempenho da equipe de triagem.

4. Sistema informatizado e auditável

O hospital utiliza sistema eletrônico de triagem, com campos obrigatórios, banco de dados de pacientes classificados e monitoramento de indicadores de qualidade, como tempo de espera por cor, número de reclassificações, desfechos clínicos, etc.


Aplicação em outros serviços de saúde

O modelo do HCPA já foi adotado ou adaptado por dezenas de serviços de saúde públicos e filantrópicos em todo o Brasil, principalmente:

  • Hospitais universitários;

  • UPAs em capitais;

  • Hospitais regionais de média e alta complexidade;

  • Serviços que buscam padronização sem aderir ao Protocolo de Manchester.

Apesar de sua complexidade maior em relação ao modelo simplificado do Ministério da Saúde, ele pode ser adaptado para uso em UPAs bem estruturadas, com equipe treinada e apoio institucional.


Impacto na assistência e segurança do paciente

Estudos realizados pelo próprio HCPA e por instituições parceiras demonstram que a implementação do protocolo resultou em:

  • Redução do tempo de resposta para casos críticos (vermelho e laranja);

  • Diminuição de erros na triagem;

  • Maior previsibilidade do fluxo de atendimento;

  • Menor índice de judicialização por omissão de atendimento;

  • Satisfação dos usuários quanto à clareza e segurança no processo de entrada.


Considerações finais

O modelo de classificação de risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre representa um exemplo de excelência técnica e aplicabilidade prática, sendo referência nacional para serviços que desejam qualificar seu processo de triagem.

Sua adoção exige investimento em capacitação, apoio da gestão e compromisso com a segurança do paciente. Quando bem implementado, o protocolo fortalece a autonomia da enfermagem, melhora os desfechos clínicos e organiza de forma mais racional o acesso à urgência e emergência no SUS.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:10