4.4. Protocolos locais: a importância da adaptação às realidades regionais

No contexto da saúde pública brasileira, um dos maiores desafios enfrentados pelas unidades de urgência e emergência é garantir um atendimento rápido, eficiente, humanizado e baseado em critérios clínicos de prioridade. Para isso, a classificação de risco é uma ferramenta indispensável. No entanto, aplicar um único modelo em todo o país — com suas vastas diferenças regionais — nem sempre é viável ou desejável.

É justamente nesse ponto que ganham destaque os chamados protocolos locais de classificação de risco: sistemas desenvolvidos ou adaptados por secretarias municipais e estaduais de saúde, hospitais e UPAs, que seguem os princípios técnicos universais da triagem, mas são ajustados à realidade operacional, epidemiológica, social e estrutural de cada território.

Neste item, exploramos a importância de criar, adaptar e aplicar protocolos locais, respeitando as especificidades regionais e fortalecendo a organização do acesso com segurança e equidade.


Por que adotar protocolos locais?

1. Diversidade regional do SUS

O Brasil é um país continental, com grandes desigualdades em termos de infraestrutura, recursos humanos, perfil populacional, carga de doenças e acesso à saúde. Enquanto algumas unidades contam com estrutura hospitalar completa, leitos de UTI, laboratório 24h e sistemas informatizados, outras operam em prédios improvisados, com número reduzido de profissionais e pouca capacidade diagnóstica.

Essa diversidade exige flexibilidade e autonomia dos gestores locais para que possam ajustar os protocolos de triagem de acordo com sua realidade, respeitando os princípios do SUS e garantindo segurança para os usuários e para a equipe.

2. Limitações de modelos complexos

Protocolos como o Protocolo de Manchester, embora reconhecidos internacionalmente, possuem barreiras práticas de implantação, como a necessidade de certificação específica, uso de softwares pagos, fluência em terminologia estrangeira e alto grau de complexidade.

Muitos municípios brasileiros, especialmente em regiões periféricas ou rurais, não conseguem operar adequadamente esse tipo de modelo. A alternativa, então, é desenvolver protocolos próprios, de fácil compreensão, com critérios clínicos claros e linguagem acessível aos profissionais da saúde local.

3. Fortalecimento da autonomia profissional e institucional

Ao criar ou adaptar seus próprios protocolos de triagem, os serviços fortalecem a autonomia da enfermagem, estimulam a participação da equipe na construção de processos assistenciais e aumentam a aderência ao modelo adotado. Isso reduz a resistência ao uso e qualifica a tomada de decisão clínica na porta de entrada.


Como desenvolver protocolos locais de forma segura?

Criar ou adaptar um protocolo local exige planejamento, critérios técnicos bem definidos e participação ativa da equipe. A seguir, listamos os principais passos recomendados para esse processo:

1. Levantamento do perfil epidemiológico e de atendimento

Antes de desenvolver um protocolo, é fundamental entender:

  • Quais são as queixas mais frequentes na unidade (ex: dor torácica, febre, dispneia, trauma);

  • Quais são as principais causas de internação e óbito nos últimos anos;

  • Quais os horários de maior fluxo e sobrecarga;

  • Qual a capacidade da unidade em termos de exames, salas de observação e profissionais.

Esse diagnóstico ajuda a construir fluxogramas e critérios baseados na realidade local, evitando modelos genéricos que não funcionam na prática.

2. Definição de categorias de risco por cor

A maioria dos protocolos locais adota o modelo de cores (vermelho, laranja, amarelo, verde e azul), por ser visualmente intuitivo e amplamente aceito. O importante é definir, para cada cor:

  • Critérios clínicos objetivos (sinais vitais, sintomas, estado geral);

  • Tempo ideal de atendimento;

  • Condutas recomendadas (encaminhamento, observação, medicação, exames, etc.);

  • Possíveis desfechos (alta, internação, regulação).

Essas definições devem ser documentadas em fichas de apoio à triagem, disponíveis fisicamente ou no sistema eletrônico da unidade.

3. Inclusão de critérios sociais e contextuais

Um diferencial dos protocolos locais é a possibilidade de incluir critérios ampliados de vulnerabilidade, como:

  • Mulher vítima de violência doméstica;

  • Idoso em situação de abandono;

  • População em situação de rua;

  • Pessoa com deficiência sem cuidador;

  • Paciente com sofrimento psíquico ou ideação suicida.

Esses critérios, muitas vezes ausentes nos modelos internacionais, são essenciais para garantir acolhimento ético e humanizado.

4. Validação técnica e institucional

Antes de implementar o protocolo, ele deve ser:

  • Revisado por profissionais clínicos experientes (médicos, enfermeiros, farmacêuticos);

  • Aprovado pela coordenação técnica da unidade;

  • Formalizado pela gestão municipal ou estadual, com respaldo normativo (portaria, manual, fluxo interno).

A institucionalização dá segurança jurídica e respaldo ético aos profissionais que o utilizam.

5. Treinamento da equipe

O protocolo só será eficaz se a equipe:

  • Compreender o conteúdo e a lógica do modelo;

  • Dominar os critérios de cada cor;

  • Saber aplicar as ferramentas de avaliação clínica;

  • Conhecer os fluxos de encaminhamento e regulação da unidade.

Treinamentos regulares, com simulações de casos clínicos e feedback estruturado, são fundamentais para garantir padronização e segurança.

6. Monitoramento e revisão contínua

Um bom protocolo local deve ser dinâmico, com possibilidade de revisão conforme:

  • Mudanças no perfil epidemiológico;

  • Alterações na estrutura da unidade (ex: expansão de leitos, novos exames disponíveis);

  • Incorporação de tecnologias;

  • Avaliação dos indicadores de atendimento (tempo de espera, número de reclassificações, queixas dos usuários).

O acompanhamento de indicadores de qualidade da triagem permite identificar falhas, corrigir desvios e aprimorar o modelo com base em evidências.


Exemplos de protocolos locais no Brasil

Algumas cidades brasileiras são referência na elaboração de protocolos próprios de triagem, como:

  • Curitiba (PR): inclui critérios sociais e risco emocional, com atenção a situações de violência e sofrimento psíquico.

  • Belo Horizonte (MG): desenvolveu sistema informatizado próprio de triagem (SITRI), com integração ao prontuário eletrônico.

  • Fortaleza (CE): adaptou o protocolo de cores à realidade das UPAs da cidade, com fluxos para cada tipo de queixa clínica.

  • Campinas (SP): implementou manuais ilustrados de triagem para facilitar o uso por equipes em treinamento.

Esses exemplos mostram que é possível atingir alta qualidade na triagem mesmo com modelos simples, desde que haja planejamento, capacitação e envolvimento institucional.


Conclusão

Os protocolos locais de classificação de risco representam uma solução inteligente, acessível e eficaz para os desafios do SUS. Ao respeitar as especificidades regionais, eles garantem:

  • Maior aderência da equipe de saúde ao modelo;

  • Segurança clínica e jurídica na tomada de decisão;

  • Acolhimento mais humanizado e resolutivo;

  • Redução de filas desorganizadas e espera injusta;

  • Melhoria da qualidade do atendimento e da satisfação do usuário.

Na sequência do curso, abordaremos o modelo de Classificação de Risco do HCPA em detalhes, além de apresentar estratégias de avaliação da eficácia dos modelos adotados nas unidades de saúde.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:11