4.5. Limitações dos Protocolos Importados e Valorização da Realidade Brasileira

A classificação de risco é uma ferramenta essencial na organização do atendimento em serviços de saúde, especialmente nas unidades de urgência e emergência. Ao longo dos anos, diversos modelos internacionais foram adaptados e testados em diferentes contextos, com destaque para o Protocolo de Manchester, originado no Reino Unido. Contudo, nem todos esses modelos se mostram viáveis ou eficazes no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS).

Este tópico visa discutir, com criticidade, as principais limitações dos protocolos importados, especialmente aqueles que não foram concebidos com base nas condições estruturais, sociais e culturais do Brasil. Ao mesmo tempo, valoriza-se a construção de soluções locais, nacionais e regionais, capazes de dialogar com a realidade brasileira de forma mais eficaz, segura e humanizada.


Principais protocolos importados utilizados no Brasil

Ao falar de protocolos importados, os mais frequentemente citados são:

  • Protocolo de Manchester (Reino Unido)

  • Sistema ESI – Emergency Severity Index (Estados Unidos)

  • Canadia Triage and Acuity Scale (CTAS) (Canadá)

  • Australasian Triage Scale (ATS) (Austrália e Nova Zelândia)

Todos esses sistemas foram criados em países com sistemas de saúde diferentes, com financiamento distinto, maior informatização, estruturas padronizadas e maior cobertura de atenção básica. Embora sejam bem estruturados, nenhum deles foi desenvolvido considerando os desafios brasileiros, como:

  • Superlotação crônica;

  • Déficit de profissionais de saúde;

  • População em situação de pobreza extrema e baixa escolaridade;

  • Baixa resolutividade da Atenção Primária em muitos territórios;

  • Variações drásticas entre regiões do país.


Limitações dos protocolos importados

1. Linguagem técnica e pouco acessível

Protocolos como o de Manchester utilizam terminologia técnica, muitas vezes em idioma estrangeiro, exigindo tradução especializada e treinamento específico para sua correta aplicação. Isso se torna uma barreira em municípios de menor porte ou em unidades com alta rotatividade de profissionais.

Além disso, os algoritmos utilizados exigem interpretação minuciosa e domínio de fluxogramas complexos, o que pode gerar erros de aplicação por profissionais não familiarizados com o sistema.

2. Alto custo de implementação

Muitos protocolos importados, como o Manchester, exigem pagamento de licenças de uso, cursos de capacitação certificados e softwares próprios. Isso gera custos que inviabilizam a implementação em larga escala na rede pública, sobretudo em municípios com orçamento restrito.

Além disso, o investimento em formação precisa ser contínuo, já que a rotatividade de profissionais, principalmente da enfermagem, é elevada em serviços de urgência.

3. Falta de flexibilidade para a realidade local

Protocolos padronizados e importados não consideram o perfil epidemiológico regional, as queixas mais comuns em determinadas comunidades, nem as características culturais da população atendida.

Por exemplo, o protocolo pode não prever priorização de pessoas em situação de rua, vítimas de violência doméstica, ou casos com sofrimento emocional agudo, que são extremamente frequentes em algumas regiões urbanas brasileiras.

A aplicação de um modelo rígido, sem sensibilidade social, pode gerar exclusão e desumanização no acolhimento.

4. Dificuldade de integração com sistemas nacionais

Protocolos importados geralmente não se integram facilmente aos sistemas de informação utilizados pelo SUS, como o e-SUS, CNES, SIVEP-Gripe e SISREG. Isso dificulta a integração de dados, o monitoramento de indicadores e a regulação de leitos.

Já os protocolos brasileiros, como os desenvolvidos por hospitais públicos e secretarias municipais, são mais compatíveis com a lógica do SUS e favorecem a coleta de dados para avaliação de políticas públicas.

5. Limitação na abordagem humanizada

Embora alguns protocolos importados prevejam aspectos subjetivos, a maioria foca excessivamente em sinais clínicos e em critérios biomédicos, negligenciando aspectos emocionais, sociais e culturais da pessoa em sofrimento.

No Brasil, onde a Política Nacional de Humanização (PNH) orienta as práticas de cuidado, é essencial que a classificação de risco seja também uma estratégia de escuta, vínculo e acolhimento ético, o que nem sempre é contemplado nos modelos internacionais.


A valorização de modelos nacionais e regionais

Em contraponto às limitações dos modelos estrangeiros, diversos serviços de saúde brasileiros desenvolveram ou adaptaram seus próprios protocolos de triagem, com base em:

  • Princípios clínicos universais;

  • Realidade epidemiológica local;

  • Diretrizes do Ministério da Saúde;

  • Recursos humanos e físicos disponíveis.

Esses protocolos são geralmente mais:

  • Simples (em linguagem acessível);

  • Custo-efetivos (sem necessidade de licença);

  • Humanizados (consideram sofrimento e vulnerabilidade);

  • Adaptáveis (podem ser revisados conforme a estrutura do serviço);

  • Compatíveis com o SUS, facilitando sua consolidação em políticas locais.

Exemplos de iniciativas bem-sucedidas incluem:

  • Classificação de risco por cores do Ministério da Saúde;

  • Protocolo do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA);

  • Modelos próprios das UPAs de Curitiba, Campinas e Fortaleza;

  • Protocolos municipais com fluxogramas por queixa principal, como febre, dor abdominal, sangramentos, entre outros.

Esses modelos têm se mostrado mais eficazes na organização do fluxo de atendimento, na garantia da equidade e na melhoria dos indicadores de qualidade do cuidado.


A importância da escuta qualificada e da autonomia da equipe

A valorização dos protocolos locais está diretamente ligada à escuta qualificada e à autonomia da enfermagem na triagem.

Os modelos brasileiros mais efetivos reconhecem a importância do julgamento clínico profissional — especialmente do enfermeiro — para adaptar os critérios de risco ao caso concreto, com base em:

  • A experiência clínica do profissional;

  • A capacidade de identificar sinais sutis de gravidade;

  • A habilidade de perceber sofrimento, angústia ou sofrimento psíquico;

  • A sensibilidade para priorizar casos complexos com base em fatores sociais.

Diferente de sistemas robotizados e engessados, os protocolos adaptados ao SUS dão protagonismo à equipe, respeitando seu conhecimento, sua prática cotidiana e sua percepção da realidade dos usuários.


Conclusão

O uso de protocolos importados pode oferecer benefícios em determinados contextos, especialmente quando há estrutura adequada e treinamento contínuo. No entanto, suas limitações no Brasil são evidentes, especialmente no que diz respeito à acessibilidade, custos, linguagem, flexibilidade e humanização.

Nesse cenário, ganha força a defesa da valorização de modelos brasileiros, desenvolvidos a partir da realidade do SUS, com foco na equidade, na autonomia da equipe e no cuidado centrado na pessoa.

Ao final deste módulo, o profissional de saúde deve ser capaz de:

  • Compreender os principais modelos de classificação de risco adotados no país;

  • Identificar as limitações dos protocolos estrangeiros no contexto brasileiro;

  • Reconhecer o valor dos protocolos locais como ferramenta estratégica de gestão e cuidado;

  • Promover uma triagem mais justa, resolutiva e humanizada.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:12