5.2. Avaliação Neurológica: Escala de Coma de Glasgow e Escala AVPU

A avaliação neurológica no momento da triagem é fundamental para identificar rapidamente alterações do nível de consciência, desorientação mental, sinais de trauma cranioencefálico ou quadros neurológicos agudos, como acidente vascular cerebral (AVC), crises convulsivas e intoxicações.

Duas ferramentas práticas e amplamente utilizadas nesse contexto são:

  • Escala de Coma de Glasgow (ECG): mais detalhada e padronizada;

  • Escala AVPU: mais simples, rápida e útil em triagens de fluxo intenso.

Ambas são eficazes quando corretamente aplicadas e contribuem diretamente para classificar a gravidade do quadro clínico e estabelecer a prioridade de atendimento.


Importância da avaliação do nível de consciência na triagem

O nível de consciência é considerado um parâmetro vital complementar, pois alterações nesse aspecto geralmente indicam comprometimento cerebral, hipóxia, perfusão inadequada, infecções graves ou intoxicações.

Na triagem, alterações neurológicas devem imediatamente acionar alerta clínico. Um paciente que apresenta confusão mental, desorientação, fala desconexa, sonolência excessiva, estupor ou coma requer atendimento prioritário, independentemente de outros sinais vitais normais.


Escala de Coma de Glasgow (ECG)

A Escala de Coma de Glasgow, criada em 1974 por Teasdale e Jennett, é o método mais utilizado no mundo para avaliar o nível de consciência. Sua principal vantagem é a objetividade e padronização da avaliação, permitindo que qualquer profissional treinado obtenha resultados comparáveis.

Componentes da ECG:

A escala avalia três respostas principais:

  1. Abertura Ocular (A) – de 1 a 4 pontos

  2. Resposta Verbal (V) – de 1 a 5 pontos

  3. Resposta Motora (M) – de 1 a 6 pontos

A pontuação total vai de 3 (coma profundo) a 15 (consciência plena).

RespostaPontuação
Abertura Ocular
Espontânea4
Ao comando verbal3
À dor2
Nenhuma1
Resposta Verbal
Orientado5
Confuso4
Palavras inapropriadas3
Sons incompreensíveis2
Nenhuma resposta verbal1
Resposta Motora
Obedece a comandos6
Localiza estímulo doloroso5
Retirada à dor4
Flexão anormal (decorticação)3
Extensão anormal (descerebração)2
Nenhuma resposta motora1

Interpretação da pontuação total:

  • 13–15 pontos: leve rebaixamento ou normalidade

  • 9–12 pontos: rebaixamento moderado

  • 3–8 pontos: coma, necessidade de suporte avançado

Durante a triagem, pacientes com Glasgow ≤ 13 devem ser imediatamente priorizados, uma vez que podem apresentar deterioração rápida do estado neurológico e necessitar de suporte ventilatório ou intervenção médica urgente.


Escala AVPU

A Escala AVPU é uma alternativa mais simples e rápida, especialmente útil em triagens de alto fluxo, contextos pré-hospitalares e unidades com poucos recursos.

Significado da sigla AVPU:

  • A – Alert (Alerta): o paciente está desperto, orientado, responde normalmente.

  • V – Verbal (Verbalmente responsivo): o paciente responde apenas a estímulos verbais.

  • P – Pain (Responsivo à dor): responde apenas a estímulos dolorosos (esternal, pressão ungueal).

  • U – Unresponsive (Sem resposta): não responde a nenhum estímulo.

Interpretação:

  • A: estado neurológico normal

  • V, P ou U: indica rebaixamento do nível de consciência → risco elevado → prioridade imediata

A AVPU é especialmente útil para identificar alterações neurológicas de forma ágil, mas não substitui a ECG em avaliações clínicas mais aprofundadas.


Comparativo: ECG x AVPU

CritérioEscala de Coma de GlasgowEscala AVPU
ComplexidadeAlta (3 critérios, soma de pontos)Baixa (4 categorias)
Tempo de aplicação2 a 3 minutos30 segundos
Usada emHospitais, UPAs, UTIsTriagem rápida, APH
Permite monitoramento evolutivoSimNão
Precisão diagnósticaAltaRazoável
Ideal para pacientes com TCESimNão

A ECG permite um acompanhamento evolutivo mais preciso, enquanto a AVPU é ideal para identificação rápida de risco na porta de entrada.


Quando usar cada escala?

  • Na triagem inicial: usar AVPU para agilizar o fluxo. Se alteração for detectada, aplicar ECG completa.

  • Em pacientes com histórico de trauma craniano, intoxicação ou rebaixamento de consciência conhecido: aplicar ECG diretamente.

  • Na atenção pré-hospitalar e atendimento de massa (como catástrofes): AVPU por sua agilidade.


Considerações práticas na aplicação

  • Sempre registrar a escala utilizada e sua pontuação no prontuário ou ficha de triagem.

  • Reavaliar frequentemente pacientes com alterações neurológicas.

  • Associar os achados da escala com outros sinais, como pupilas, fala, mobilidade e convulsões.

  • Em caso de alteração súbita, comunicar imediatamente à equipe médica.


Casos clínicos exemplos

  1. Paciente desorientado, responde com palavras desconexas, abre os olhos ao comando e retira a mão à dor → ECG: Ocular = 3, Verbal = 3, Motora = 4 → Total: 10 → Risco laranja ou vermelho, avaliação médica urgente.

  2. Paciente encontrado em casa, sonolento, responde apenas a estímulo doloroso → AVPU = P → Alerta de gravidade, priorizar imediatamente.


Conclusão

A avaliação neurológica é um componente fundamental da triagem e da classificação de risco. A Escala de Coma de Glasgow oferece uma análise estruturada e precisa, sendo ideal para hospitais e unidades com capacidade de monitoramento contínuo. Já a Escala AVPU é uma ferramenta ágil e prática, ideal para triagens rápidas e cenários com grande volume de pacientes.

Ambas devem ser utilizadas com critérios clínicos bem definidos, domínio técnico da equipe de enfermagem e sensibilidade para identificar riscos ocultos, contribuindo para a segurança do cuidado e a eficácia do atendimento.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:13