5.3. Nível de Dor: Escalas Subjetivas e Objetivas

A dor é um dos sintomas mais frequentes relatados pelos pacientes durante o acolhimento em serviços de saúde. Sua correta avaliação na triagem é determinante para a priorização do atendimento, pois a dor intensa ou associada a sinais clínicos relevantes pode indicar emergência médica, sofrimento agudo ou risco de complicações.

No entanto, a dor é uma experiência subjetiva, influenciada por fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e culturais. Por isso, a equipe de enfermagem deve estar apta a utilizar instrumentos validados que auxiliem na mensuração da intensidade da dor, mesmo sem exames complementares.


A importância da dor na classificação de risco

No contexto do acolhimento com classificação de risco, a dor:

  • É um critério clínico reconhecido para atribuição de prioridade (quando intensa ou com padrão sugestivo de condição grave);

  • Requer escuta qualificada e empatia, pois nem sempre o paciente é compreendido;

  • Pode ser subestimada quando não acompanhada de sinais vitais alterados, o que representa risco à segurança do cuidado;

  • É fator de sofrimento humano que deve ser avaliado e aliviado de forma ética e imediata, sempre que possível.


Avaliação da dor: instrumentos disponíveis

Para garantir maior objetividade na triagem, são utilizadas escalas de avaliação da dor, que podem ser classificadas em:

  • Subjetivas: baseadas no relato do paciente;

  • Objetivas ou observacionais: baseadas na observação do comportamento e respostas fisiológicas, úteis em pessoas que não conseguem se comunicar verbalmente.

A escolha da escala depende do nível de consciência, idade, cognição e condição do paciente.


Escalas Subjetivas

1. Escala Numérica da Dor (END)

É uma das mais utilizadas em triagens de adultos e pacientes conscientes.

  • Consiste em uma escala de 0 a 10, onde:

    • 0 = ausência de dor;

    • 10 = pior dor imaginável.

  • O paciente é convidado a indicar o número que melhor representa sua dor.

Interpretação:

  • 0 a 3 → dor leve

  • 4 a 6 → dor moderada

  • 7 a 10 → dor intensa

Pacientes que relatam dor acima de 7 devem ter prioridade elevada, especialmente se associada a outros sinais clínicos, como dispneia, sudorese ou taquicardia.

2. Escala Visual Analógica (EVA)

É uma linha reta de 10 cm com os extremos indicados como “sem dor” e “pior dor possível”. O paciente marca um ponto na linha e o valor é aferido em milímetros.

  • Útil em contextos onde se busca mensuração mais precisa, como estudos clínicos.

  • Menos prática em ambientes de triagem de alta rotatividade.

3. Escala Verbal Simples (EVS)

O paciente escolhe uma das seguintes opções:

  • Sem dor

  • Dor leve

  • Dor moderada

  • Dor intensa

  • Dor insuportável

Essa escala é de rápida aplicação, ideal em situações com limitação de tempo ou pacientes idosos.

4. Escala de Faces (Wong-Baker)

Muito utilizada em pediatria, pessoas com déficit cognitivo ou barreiras linguísticas.

  • Mostra faces com expressões que vão de feliz (sem dor) até chorando (dor intensa).

  • O paciente escolhe a face que melhor representa o que está sentindo.

Vantagens:

  • Fácil compreensão;

  • Promove comunicação não verbal.


Escalas Objetivas (comportamentais)

Em casos em que o paciente não consegue se comunicar verbalmente, seja por rebaixamento do nível de consciência, idade ou outras limitações, deve-se aplicar escalas observacionais:

1. FLACC (Face, Legs, Activity, Cry, Consolability)

Indicada para crianças de 2 meses a 7 anos ou pacientes não verbais.

  • Avalia cinco itens: expressão facial, movimentação das pernas, atividade, choro e consolação.

  • Cada item recebe pontuação de 0 a 2.

  • Resultado final varia de 0 a 10 (semelhante à escala numérica).

Interpretação:

  • 0: sem dor

  • 1-3: dor leve

  • 4-6: dor moderada

  • 7-10: dor intensa

2. BPS (Behavioral Pain Scale)

Utilizada em pacientes intubados ou sedados, especialmente em UTIs.

  • Avalia:

    • Expressão facial

    • Movimento dos membros superiores

    • Tolerância à ventilação mecânica

  • Cada item varia de 1 a 4 pontos → total de 3 a 12.

3. CPOT (Critical Care Pain Observation Tool)

Outra escala para pacientes críticos, avalia:

  • Expressão facial

  • Tensão muscular

  • Movimento corporal

  • Conformidade com o respirador


Dor como critério de urgência na triagem

A dor, isoladamente, não define prioridade de atendimento, mas quando intensa, persistente ou associada a sinais clínicos relevantes, deve ser valorizada com atenção. Exemplos:

  • Dor torácica aguda com irradiação para o braço esquerdo → suspeita de infarto → classificação vermelha ou laranja.

  • Dor abdominal intensa em gestante → risco obstétrico → classificação laranja ou vermelha.

  • Dor de cabeça súbita e intensa com náuseas e rigidez de nuca → possível hemorragia subaracnoide → classificação vermelha.

  • Dor leve, sem outros sintomas, em paciente estável → pode ser classificada como verde ou azul.


Boas práticas na avaliação da dor

  • Perguntar sobre localização, intensidade, início, duração, tipo da dor (pontada, queimação, pressão) e fatores que agravam ou aliviam.

  • Acolher o relato do paciente sem julgamentos. A dor é o que a pessoa diz que é.

  • Registrar a escala utilizada e o valor correspondente na ficha de triagem.

  • Reavaliar periodicamente, especialmente se o paciente aguarda atendimento prolongado.


Conclusão

A avaliação da dor é parte essencial da triagem humanizada e segura. O uso de escalas subjetivas e objetivas, de forma adequada ao perfil do paciente, permite ao profissional de enfermagem identificar situações de sofrimento intenso e risco clínico elevado, promovendo intervenções precoces e priorização adequada.

A dor não pode ser desvalorizada ou ignorada na classificação de risco — tratá-la com seriedade é reconhecer o sofrimento como urgência legítima, mesmo quando os demais parâmetros vitais estão normais.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:14