5.4. Sinais de Sofrimento Agudo: Convulsões, Vômitos, Sangramentos, Dispneia

Durante o processo de acolhimento e classificação de risco, o profissional da triagem deve estar atento a sinais visíveis de sofrimento agudo, pois muitas vezes essas manifestações indicam condições clínicas potencialmente graves, que exigem ação rápida e prioritária.

Esses sinais podem ser o primeiro indício de deterioração clínica, ocorrendo mesmo antes de alterações evidentes nos sinais vitais. O reconhecimento imediato desses quadros faz parte de uma abordagem centrada na segurança do paciente, no princípio da precaução clínica e no respeito à vida.

Abaixo, exploraremos os quatro principais sinais de sofrimento agudo: convulsões, vômitos, sangramentos e dispneia, abordando suas causas, implicações e condutas esperadas no momento da triagem.


1. Convulsões

As convulsões são manifestações neurológicas abruptas que indicam atividade elétrica cerebral anormal. Na triagem, a presença de convulsão ativa ou relato recente de crise convulsiva exige atenção imediata.

Características:

  • Pode ser tônico-clônica generalizada, focal, ou ausência;

  • Pode ocorrer com ou sem perda de consciência;

  • Frequentemente acompanhada de queda, confusão pós-ictal, mordedura de língua ou incontinência.

Causas comuns:

  • Epilepsia conhecida;

  • Hipoglicemia;

  • Febre alta (convulsão febril em crianças);

  • Hipóxia;

  • Trauma cranioencefálico;

  • Intoxicações ou abstinência de álcool;

  • Tumores ou infecções do sistema nervoso central.

Conduta na triagem:

  • Paciente em crise ativa: classificação vermelha (risco iminente).

  • Paciente pós-convulsão (confuso ou sonolento): classificação laranja, com observação imediata.

  • Histórico de epilepsia controlada, sem alterações recentes: pode ser classificado como verde, com orientação adequada.


2. Vômitos (Êmese)

O vômito é um sintoma inespecífico, mas sua intensidade, frequência e características podem revelar quadros clínicos graves.

Avaliação crítica na triagem:

  • Vômitos repetidos (> 3 episódios em poucas horas) → risco de desidratação e distúrbios eletrolíticos.

  • Vômitos com sangue (hematêmese) → suspeita de hemorragia digestiva alta → gravidade elevada.

  • Vômitos em jato (sobretudo em crianças) → pode indicar hipertensão intracraniana.

  • Associação com dor abdominal intensa, febre ou distensão → sugestivo de abdômen agudo obstrutivo ou inflamatório.

Classificação:

  • Vômitos com sangue, sinais de desidratação ou alteração de consciênciaclassificação laranja ou vermelha.

  • Vômitos leves e isolados, sem repercussão clínicaverde ou azul, dependendo da avaliação completa.


3. Sangramentos (Hemorragias)

A presença de sangramento ativo visível deve sempre ser interpretada como sinal de alerta clínico, e pode representar risco vital dependendo da origem, intensidade e repercussão hemodinâmica.

Exemplos e condutas:

  • Epistaxe (sangramento nasal):

    • Leve, autolimitado: observar e orientar → verde.

    • Intensa, recorrente, com dificuldade de controle: avaliar PA e coagulopatias → laranja.

  • Sangramento gastrointestinal (vômito com sangue ou fezes escurecidas/muito vermelhas):

    • Associado a palidez, taquicardia ou hipotensão → vermelha.

    • Com PA e FC normais, sem sintomas sistêmicos → amarelo ou laranja.

  • Sangramento vaginal:

    • Em gestantes (sobretudo no 1º ou 3º trimestre): prioridade imediata → laranja ou vermelha.

    • Pós-parto, com fluxo elevado → urgência obstétrica.

  • Ferimentos com sangramento externo ativo:

    • Hemorragia pulsátil (arterial): vermelha.

    • Sangramento venoso controlável: avaliar gravidade e classificar como laranja ou amarelo.

A intensidade e o volume do sangramento, associados aos sinais vitais e nível de consciência, ajudam na decisão da prioridade.


4. Dispneia (Dificuldade Respiratória)

A dispneia é um dos sinais mais críticos de sofrimento agudo, indicando comprometimento do sistema respiratório ou cardiovascular.

Avaliação na triagem:

  • Observar se o paciente consegue falar frases completas, sua posição (orthopneia), uso de musculatura acessória, cianose, sudorese e ansiedade.

  • Medir a frequência respiratória e a saturação de oxigênio (SpO₂).

  • A dispneia pode estar relacionada a:

    • Asma;

    • DPOC exacerbado;

    • Edema agudo de pulmão;

    • Pneumonia grave;

    • Embolia pulmonar;

    • Insuficiência cardíaca;

    • Ansiedade/pânico (após exclusão clínica).

Classificação:

  • Dispneia com SpO₂ < 90%, cianose, ou uso de musculatura acessóriavermelha.

  • Dispneia moderada, SpO₂ entre 90–94%, sem outros sinais graveslaranja.

  • Dispneia leve em paciente estávelamarelo.

A abordagem deve ser rápida, com fornecimento de O₂ e chamada imediata para avaliação médica nos casos graves.


Conclusão

Os sinais de sofrimento agudo representam manifestações clínicas objetivas que indicam deterioração funcional e risco elevado à vida. Convulsões, vômitos repetidos ou com sangue, sangramentos ativos e dispneia devem ser considerados critérios prioritários de avaliação na triagem, e não podem ser minimizados.

O reconhecimento precoce desses sinais pelo profissional de enfermagem contribui diretamente para a redução da morbimortalidade, o uso racional dos recursos assistenciais e a garantia do direito do paciente a um cuidado seguro, eficiente e humanizado.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:15