7.2. Acolhimento de Populações Vulneráveis: Pessoas em Situação de Rua, Vítimas de Violência e Imigrantes

O Sistema Único de Saúde (SUS) reconhece que o princípio da equidade é essencial para garantir um cuidado justo e resolutivo. Isso significa tratar de forma diferente os que são desigualmente atingidos pelas condições sociais e de saúde, oferecendo um atendimento mais acolhedor e sensível às suas realidades.

No contexto do acolhimento e da classificação de risco, o enfermeiro encontra, frequentemente, pacientes que pertencem a grupos vulnerabilizados — como pessoas em situação de rua, vítimas de violência (física, sexual ou psicológica) e imigrantes em condição precária. Esses pacientes, muitas vezes, apresentam dificuldades de comunicação, desconfiança em relação aos serviços de saúde, traumas prévios, sofrimento emocional profundo e múltiplas barreiras de acesso.

É papel do profissional da saúde, especialmente do enfermeiro na porta de entrada, reconhecer essas vulnerabilidades e acolher com escuta qualificada, sem preconceito ou julgamento.


A. Pessoas em Situação de Rua

1. Características da população

  • Vivência contínua de exclusão, fome, violência urbana e negligência institucional;

  • Dificuldade em manter documentos pessoais e históricos médicos;

  • Possível uso abusivo de substâncias psicoativas;

  • Condições crônicas de saúde não tratadas (doenças infectocontagiosas, feridas, transtornos mentais).

2. Estratégias de acolhimento

  • Não exigir documentos como critério para atendimento — o SUS é universal e gratuito, mesmo para quem não tem RG ou CPF;

  • Evitar atitudes preconceituosas, como indiferença, ironia ou repulsa;

  • Considerar que a queixa clínica pode estar associada a sofrimento psíquico, violência urbana ou uso de substâncias;

  • Acolher com empatia, oferecendo um espaço de escuta e respeito.

3. Classificação de risco e seguimento

  • Avaliar com atenção sinais vitais e condição geral, pois há tendência à banalização dos sintomas por parte da equipe;

  • Priorizar encaminhamentos para equipes de Consultório na Rua ou apoio social quando disponíveis;

  • Garantir que haja registro adequado e não omitir atendimento em hipótese alguma.


B. Vítimas de Violência (doméstica, sexual, institucional)

1. Indícios e sinais clínicos

  • Relatos evasivos ou contraditórios sobre a origem de lesões;

  • Marcas físicas em locais não usuais (pescoço, face, genitais);

  • Comportamento retraído, medo de acompanhantes, choro frequente;

  • Queixas recorrentes de dor ou ansiedade sem justificativa clínica evidente.

2. Acolhimento humanizado

  • Garantir privacidade e escuta qualificada na triagem;

  • Evitar revitimização: nunca exigir que a pessoa narre os detalhes do ocorrido diante de outras pessoas;

  • Utilizar uma postura empática e acolhedora, permitindo que o paciente se sinta seguro para relatar;

  • Sempre suspeitar de violência quando houver sinais não compatíveis com a narrativa apresentada.

3. Condutas necessárias

  • Aplicar protocolos de classificação de risco com atenção especial à dimensão emocional e psicossocial;

  • Em casos de violência sexual, acionar o protocolo específico da unidade (profilaxias, notificação, coleta de exames, apoio psicológico);

  • Notificar compulsoriamente os casos suspeitos de violência interpessoal, conforme determina a legislação sanitária brasileira;

  • Encaminhar para rede de proteção social (CREAS, Delegacia da Mulher, psicologia, serviço social).


C. Imigrantes e Refugiados

1. Desafios enfrentados

  • Barreiras linguísticas e culturais que dificultam a comunicação;

  • Desconhecimento do funcionamento do SUS;

  • Condições precárias de moradia e trabalho;

  • Vulnerabilidade legal, econômica e social.

2. Abordagem ética e humanizada

  • Utilizar linguagem simples e, se possível, auxílio de tradutores comunitários ou materiais bilíngues;

  • Evitar pressupostos culturais ou estigmas ligados à nacionalidade, cor ou religião;

  • Acolher com sensibilidade, mesmo diante de situações confusas ou mal explicadas;

  • Valorizar a queixa do paciente, mesmo quando a comunicação for limitada.

3. Encaminhamentos possíveis

  • Contatar o setor de apoio a imigrantes, se disponível na unidade ou município;

  • Registrar os dados clínicos com clareza e comunicar à equipe multidisciplinar;

  • Garantir que o atendimento seja concluído de forma digna e sem discriminação.


D. Papel do enfermeiro na proteção e respeito aos direitos humanos

O enfermeiro, ao realizar acolhimento e classificação de risco, atua como agente de defesa dos direitos humanos, especialmente quando lida com públicos em situação de fragilidade social. Isso exige não apenas técnica, mas um posicionamento ético firme contra práticas discriminatórias, omissas ou violentas.

A humanização não é opcional — ela está alicerçada nas políticas públicas de saúde (como a PNH) e é parte indissociável da responsabilidade profissional.


Conclusão

Acolher populações vulneráveis com dignidade, empatia e compromisso ético é uma das expressões mais autênticas da humanização no SUS. O profissional de enfermagem que atua na triagem deve estar preparado para reconhecer vulnerabilidades, agir com responsabilidade e ser ponte entre o sofrimento e o cuidado resolutivo.


Última atualização: quinta-feira, 29 mai. 2025, 09:21