Acuidade Visual Reduzida no Protocolo de Manchester: Aplicação Clínica e Classificação de Risco

A acuidade visual reduzida é um discriminador clínico importante no processo de triagem e classificação de risco em serviços de urgência e emergência, especialmente quando se utiliza o Protocolo de Manchester. Embora seja uma queixa aparentemente simples, ela pode ser indicativa de condições neurológicas, oftalmológicas ou sistêmicas graves, exigindo atenção cuidadosa do enfermeiro classificadora.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Acuidade visual reduzida: qualquer redução na acuidade visual corrigida.

Em termos práticos, considera-se “acuidade visual reduzida” quando o paciente apresenta dificuldade visual mesmo com o uso de óculos ou lentes corretivas, ou relata perda súbita ou progressiva da visão, seja total ou parcial, em um ou ambos os olhos.


👁️ Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a escuta ativa e o acolhimento do paciente, o enfermeiro pode identificar a queixa espontânea de visão embaçada, visão duplicada, escurecimento visual, perda parcial do campo visual ou cegueira súbita.

É importante avaliar:

  • Se a perda é recente ou crônica;

  • Se há dor ocular associada;

  • Se o sintoma é unilateral ou bilateral;

  • Se há outros sintomas neurológicos concomitantes (como cefaleia, tontura, parestesias, confusão).

A redução da acuidade visual deve ser sempre comparada com o estado habitual do paciente, levando em conta o uso de correção óptica.


⚠️ Possíveis causas clínicas associadas

A acuidade visual reduzida pode estar relacionada a diversas condições, que variam em gravidade:

⛑️ Situações de risco elevado (necessitam atenção imediata ou urgente):

  • Neuropatia óptica isquêmica (perda visual súbita unilateral);

  • Descolamento de retina;

  • AVC com envolvimento do córtex visual;

  • Hemorragia vítrea;

  • Glaucoma agudo;

  • Oclusão da artéria central da retina;

  • Arterite temporal (especialmente em idosos com dor no couro cabeludo e cefaleia);

  • Trauma ocular penetrante.

🟢 Situações de menor risco:

  • Conjuntivite;

  • Miopia ou hipermetropia descompensada;

  • Catarata (perda visual crônica e progressiva);

  • Quebra ou perda dos óculos.


🩺 Como aplicar no Protocolo de Manchester

Ao identificar “acuidade visual reduzida” como queixa principal ou como discriminador em outro fluxo (ex: distúrbios neurológicos, trauma ocular), o enfermeiro deve buscar os fluxogramas específicos mais adequados e seguir as orientações do protocolo.

Exemplos de fluxogramas relacionados:

  • Problema de visão;

  • Trauma nos olhos;

  • Distúrbios neurológicos (quando há perda visual súbita associada a sinais neurológicos).

O discriminador “acuidade visual reduzida” pode indicar diferentes níveis de prioridade, dependendo do contexto clínico e de outros sinais associados.


🎯 Classificação de risco por cores (exemplos práticos)

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Perda visual súbita bilateral com confusão ou outros sinais neurológicos (possível AVC);

  • Trauma ocular grave com comprometimento visual.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Perda visual súbita unilateral sem dor (possível oclusão arterial);

  • Dor ocular intensa com perda visual progressiva (glaucoma agudo).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Perda visual parcial sem dor, instalada há menos de 24h;

  • Dificuldade visual súbita sem sinais de gravidade associados.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Diminuição da visão relacionada à perda dos óculos;

  • Visão embaçada progressiva sem outros sintomas.

🔵 Azul – Atendimento em até 240 minutos

  • Queixa de dificuldade visual crônica sem piora recente;

  • Solicitação de receita ou avaliação de rotina sem urgência.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1: Um idoso de 72 anos chega à UPA referindo que perdeu a visão do olho direito subitamente há 2 horas. Não sente dor, mas relata que está tudo “preto” no olho afetado. Tem histórico de hipertensão.

➡️ O enfermeiro aplica o fluxo “Problema de visão” e seleciona o discriminador “acuidade visual reduzida (súbita e total)”.
➡️ Classificação: laranja – Atendimento em até 10 minutos (sugere possível oclusão de artéria central da retina).


Situação 2: Mulher de 30 anos chega dizendo que a lente de contato caiu e, sem ela, não enxerga bem de longe. Não há dor, nem sinais adicionais.

➡️ O enfermeiro reconhece a queixa como acuidade visual reduzida de causa conhecida e não urgente.
➡️ Classificação: verde ou azul, a depender da avaliação local.


🧠 Orientações para o profissional de enfermagem

  • Sempre questionar o tempo de instalação da perda visual (súbita ou progressiva);

  • Avaliar se há histórico de trauma, doenças crônicas, uso de medicações ou sintomas neurológicos associados;

  • Lembrar que perda visual súbita e indolor pode ser emergência vascular oftalmológica;

  • Considerar acuidade visual reduzida como sinal de possível comprometimento neurológico, especialmente se bilateral.


O discriminador “acuidade visual reduzida” exige atenção detalhada por parte do enfermeiro que realiza a classificação de risco. Embora a queixa possa parecer simples em alguns casos, ela também pode ser sinal de doenças graves e tempo-dependentes, como AVC ou oclusões arteriais oculares.

Por isso, é fundamental que o profissional saiba reconhecer a gravidade por trás da queixa, aplique o fluxograma correto do Protocolo de Manchester e classifique com segurança e responsabilidade, garantindo atendimento prioritário quando necessário.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 15:43