Alteração do Nível de Consciência no Protocolo de Manchester: Reconhecimento, Classificação e Abordagem Clínica

Entre todos os sinais clínicos avaliados durante a triagem de urgência, a alteração do nível de consciência (ALC) é um dos mais importantes e sensíveis, pois pode estar relacionada a situações críticas e com risco iminente de morte. Esse discriminador exige atenção imediata do profissional de enfermagem, e sua correta aplicação no Protocolo de Manchester garante agilidade no atendimento de casos graves.


🧠 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Alteração do Nível de Consciência:
Paciente que não está totalmente atento, reage apenas à voz ou à dor, ou não reage. Também inclui qualquer alteração na Escala de Coma de Glasgow (ECG).

Esse discriminador se aplica sempre que o paciente não apresenta estado de alerta pleno, ou quando há qualquer deterioração perceptível da consciência, mesmo que transitória.


🔎 Como identificar esse discriminador na prática?

Durante a triagem, o profissional deve estar atento aos seguintes níveis de resposta do paciente:

  1. Alerta – paciente acordado, atento, responde coerentemente;

  2. Responsivo à voz – responde apenas quando chamado com voz alta;

  3. Responsivo à dor – reage apenas a estímulos dolorosos;

  4. Sem resposta – não reage a nenhum estímulo.

Além disso, é essencial aplicar a Escala de Coma de Glasgow (ECG), que avalia:

  • Abertura ocular (0 a 4)

  • Resposta verbal (0 a 5)

  • Resposta motora (0 a 6)

O escore total vai de 3 (coma profundo) a 15 (normalidade). Qualquer alteração em relação à pontuação habitual do paciente (ou um valor abaixo de 15) deve ser considerada relevante.


⚠️ Possíveis causas clínicas de alteração da consciência

As causas são amplas e variadas, mas entre as mais comuns e graves estão:

🧬 Neurológicas

  • Acidente vascular cerebral (AVC)

  • Traumatismo crânio-encefálico (TCE)

  • Convulsões (fase pós-ictal ou em curso)

  • Tumores cerebrais

  • Meningite ou encefalite

🩺 Metabólicas e sistêmicas

  • Hipoglicemia

  • Hiperglicemia (cetoacidose diabética ou estado hiperosmolar)

  • Insuficiência hepática ou renal

  • Hiponatremia ou hipernatremia

  • Sepse

💊 Tóxicas

  • Intoxicações por medicamentos ou drogas

  • Abstinência alcoólica

  • Envenenamentos (acidentais ou intencionais)

🫁 Respiratórias e cardiocirculatórias

  • Hipóxia

  • Hipercapnia

  • Choque

  • Parada cardiorrespiratória iminente


🛠️ Aplicação no Protocolo de Manchester

O discriminador “Alteração do nível de consciência” pode ser utilizado em diversos fluxogramas, como:

  • Alteração do estado mental

  • Colapso

  • Traumatismo craniano

  • Convulsões

  • Problema comportamental

  • Hipoglicemia/hiperglicemia

  • Intoxicação ou envenenamento

O enfermeiro deve avaliar o comportamento do paciente, observar seu nível de resposta e, se necessário, aplicar estímulo verbal e doloroso. A não resposta ou resposta limitada já é suficiente para aplicar o discriminador.


🎯 Classificação de Risco por Cores

🔴 Vermelho – Atendimento Imediato

  • Paciente sem resposta a estímulos verbais e dolorosos;

  • ECG ≤ 8;

  • Presença de outros sinais vitais alterados (bradicardia, bradipneia, cianose);

  • Suspeita de parada cardiorrespiratória.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Resposta apenas à dor ou à voz;

  • ECG entre 9 e 13;

  • Presença de confusão mental súbita ou desorientação aguda.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • ECG 14;

  • Sonolência leve, com respostas adequadas ao ser chamado, mas com queixa de confusão;

  • Paciente consciente, mas com relato de perda de consciência recente (sem sinais atuais).


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1: Homem de 67 anos chega trazido pela família. Está com fala lenta, sonolento e responde apenas quando chamado com insistência. ECG 10.

➡️ Fluxo aplicado: “Alteração do estado mental”;
➡️ Discriminador: “Alteração do nível de consciência”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


Situação 2: Paciente encontrado inconsciente na rua, não responde à voz nem à dor. ECG = 5. Parâmetros vitais instáveis.

➡️ Fluxo: “Colapso” ou “Intoxicação”;
➡️ Discriminador: “Alteração do nível de consciência”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato.


💡 Dicas para o enfermeiro classificadora

  • Realize estímulos verbais e dolorosos de forma padronizada (ex.: pressão no leito ungueal com uma caneta);

  • Registre a pontuação da ECG sempre que houver alteração de consciência;

  • Considere o histórico do paciente, inclusive doenças prévias e uso de medicamentos;

  • Em caso de dúvida, opte sempre pela classificação mais elevada, priorizando a segurança do paciente.


✅ O que aprendemos

A alteração do nível de consciência é um dos discriminadores mais críticos e que exige ação rápida e assertiva por parte do enfermeiro responsável pela triagem. A falha em identificar essa alteração pode resultar em retardo no atendimento de pacientes com risco iminente de morte.

O Protocolo de Manchester fornece ferramentas claras para o reconhecimento e priorização desses casos, mas cabe ao profissional manter-se vigilante, criterioso e ético em sua tomada de decisão clínica.

Dominar esse discriminador é essencial para garantir um atendimento seguro, humanizado e eficaz em qualquer unidade de urgência.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 15:46