06 - Angústia Devida à Dor
Angústia Devida à Dor
Reconhecimento, aplicação no Protocolo de Manchester e classificação de risco pediátrico
A dor é um dos sintomas mais frequentes nas unidades de urgência e emergência. Em crianças, no entanto, a avaliação da dor é especialmente desafiadora, pois muitas vezes elas não conseguem expressar verbalmente a intensidade do sofrimento. Por isso, o Protocolo de Manchester estabelece critérios específicos que consideram comportamentos observáveis, como o choro inconsolável e a angústia evidente.
O discriminador “Angústia Devida à Dor” reconhece que, em determinados casos, a dor pode causar sofrimento intenso, mesmo que o paciente não consiga descrever a sensação com clareza — especialmente em lactentes e crianças pequenas.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Angústia devido à dor:
Critério aplicado quando uma criança sente-se angustiada e inconsolável como resultado da dor.
Ou seja, é um discriminador específico para o público pediátrico, e deve ser utilizado quando a dor está gerando sofrimento visível, não sendo possível confortar a criança mesmo com apoio emocional, colo ou brincadeiras.
🧒 Comportamentos que indicam angústia devido à dor
O enfermeiro deve estar atento a sinais comportamentais da criança, como:
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Choro agudo, prolongado e inconsolável, sem pausas significativas;
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Expressão facial de dor (sobrancelhas franzidas, olhos semicerrados, lábios tensos);
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Agitação motora intensa (se debatendo, encolhendo o corpo);
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Irritabilidade extrema, com resistência ao toque ou à manipulação;
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Recusa alimentar, quando associada à dor evidente;
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Apego extremo aos pais, mas sem se acalmar mesmo com a presença deles.
Esses sinais são mais evidentes em crianças pequenas (0 a 5 anos), especialmente quando a linguagem ainda está em desenvolvimento.
🔍 Como diferenciar da dor moderada ou severa?
A angústia causada pela dor se distingue da dor moderada ou severa pela forma como a criança expressa o sofrimento emocional, não apenas pela intensidade da dor. Em outras palavras:
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Na dor moderada ou severa, o foco é a avaliação clínica da dor (por escala de Faces, EVA, FLACC);
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Já na “angústia devido à dor”, o foco está no impacto emocional e comportamental visível, sendo um critério observacional.
📌 Importante: A angústia pode ocorrer mesmo em quadros de dor leve ou moderada, desde que a criança esteja em grande sofrimento psicológico e seja incapaz de se acalmar com estratégias simples.
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “angústia devido à dor” pode ser aplicado em fluxos relacionados a pediatria, como:
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Choro
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Febre em crianças
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Dor abdominal
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Traumatismo
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Problemas de ouvido ou garganta
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Dor nos membros
O profissional de enfermagem deve registrar o comportamento da criança e aplicar o discriminador sempre que identificar um quadro de dor com sofrimento emocional intenso, independentemente da queixa principal.
🎯 Classificação de risco por cores
🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Criança em estado de angústia intensa e inconsolável, com sinais de sofrimento grave, como agitação extrema, rigidez corporal, recusa ao contato físico e resposta intensa à dor ao toque.
🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Criança angustiada, com choro persistente, que não se acalma facilmente, mas sem sinais de instabilidade clínica.
🔎 Importante: Se o sofrimento é intenso, constante e descontrolado, deve-se optar pela classificação laranja, mesmo que os sinais vitais estejam normais.
📋 Exemplo clínico aplicado
Situação:
Criança de 2 anos é levada à UPA com queixa de dor no ouvido. Está chorando há quase 1 hora, mesmo no colo da mãe, e não se acalma. Não aceita ser examinada e apresenta sinais de desconforto evidente, com mãos no ouvido e rigidez corporal.
➡️ Fluxograma: “Dor no ouvido ou garganta”;
➡️ Discriminador: “Angústia devido à dor”;
➡️ Classificação: amarelo – Atendimento em até 60 minutos.
Situação 2:
Lactente de 10 meses chega com queda de nível da cama. Está chorando ininterruptamente, com rigidez, arqueamento do dorso e não se acalma nem no colo. Sinais vitais normais, mas extremamente agitado.
➡️ Fluxograma: “Traumatismo em criança”;
➡️ Discriminador: “Angústia devido à dor”;
➡️ Classificação: laranja – Atendimento em até 10 minutos.
👩⚕️ Conduta do enfermeiro classificadora
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Avalie a qualidade e intensidade do choro da criança;
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Converse com os pais ou responsáveis sobre o comportamento habitual da criança;
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Observe se a criança responde ao consolo;
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Documente todos os sinais observados: tempo de choro, reação à presença dos pais, posição adotada, rigidez ou arqueamento corporal, entre outros;
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Nunca subestime a dor infantil — o choro pode ser a única forma de comunicação da criança.
✅ O que aprendemos
O discriminador “Angústia Devida à Dor” reforça a importância de uma triagem humanizada, sensível e observacional no atendimento pediátrico. Reconhecer que a dor pode causar sofrimento emocional intenso e incapacitante em crianças, mesmo sem alterações visíveis nos sinais vitais, é fundamental para garantir um atendimento adequado e ágil.
O enfermeiro classificadora, ao aplicar este discriminador corretamente, prioriza o alívio da dor, reduz o sofrimento infantil e cumpre seu papel ético e técnico na promoção do cuidado integral à criança.