Angústia Marcada

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco

No contexto da triagem em serviços de urgência, os aspectos emocionais e comportamentais do paciente também podem ser indicativos de risco clínico, mesmo na ausência de queixas físicas graves. O Protocolo de Manchester, ao incluir o discriminador “Angústia Marcada”, reconhece que alterações emocionais intensas — com manifestações físicas ou psicológicas evidentes — podem indicar a necessidade de atendimento prioritário.

Esse discriminador é especialmente útil em situações onde a saúde mental do paciente está comprometida, seja por transtornos psiquiátricos, eventos traumáticos recentes ou reações emocionais exacerbadas associadas a dor, medo ou estresse.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Angústia Marcada:
Pessoa que apresenta perturbações físicas ou emocionais acentuadas preenche este critério.

Trata-se de um discriminador amplo e subjetivo, mas que exige do profissional de enfermagem olhar atento e sensibilidade clínica para reconhecer comportamentos fora do padrão, que demonstram sofrimento psíquico significativo.


🧠 Como identificar a angústia marcada na triagem?

Durante o acolhimento e a entrevista de triagem, o enfermeiro deve estar atento a comportamentos que indicam sofrimento psicoemocional evidente, tais como:

  • Choro incontrolável;

  • Desorientação emocional, com fala desconexa, agitação ou desorganização do pensamento;

  • Expressão facial ou corporal de desespero;

  • Postura retraída, tremores ou hiperventilação;

  • Histórico de transtorno psiquiátrico, crise de ansiedade ou pânico;

  • Medo exagerado, sensação de morte iminente, pavor;

  • Incapacidade de se comunicar com clareza por ansiedade extrema;

  • Perturbações comportamentais graves em resposta a um trauma recente (ex: luto, violência, abuso, acidente).

Mesmo que os sinais vitais estejam dentro da normalidade, esses comportamentos podem ser sinais de crise emocional aguda e requerem avaliação com prioridade aumentada.


⚠️ Diferença entre angústia leve e marcada

Nem toda manifestação de ansiedade ou medo deve ser classificada como "angústia marcada". Para aplicar esse discriminador, a angústia deve ser intensa o suficiente para interferir no comportamento, na fala, na postura ou na interação do paciente com a equipe.

🧩 Angústia leve: paciente apreensivo, ansioso, mas cooperativo e organizado.
🧨 Angústia marcada: paciente em estado de sofrimento psíquico agudo, com prejuízo na comunicação, postura, expressão emocional ou estabilidade física.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador pode ser utilizado em diversos fluxogramas clínicos, especialmente nos que envolvem:

  • Problema comportamental;

  • Dor torácica (em crise de ansiedade);

  • Dispneia (associada a hiperventilação por pânico);

  • Situações de trauma psicológico;

  • Tentativas de autoagressão;

  • Histórico psiquiátrico relevante.

A angústia marcada pode ser um reflexo do agravamento de transtornos mentais preexistentes, ou uma resposta a eventos agudos e intensos, como acidentes, más notícias, violência ou crise familiar.


🎯 Classificação de Risco por Cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Situações extremas de desorganização psíquica com risco de suicídio iminente ou colapso mental total (ex: paciente catatônico, completamente descontrolado, alucinado ou agressivo em surto psicótico grave).

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Paciente muito agitado, gritando, chorando de forma intensa, incapaz de responder com coerência, ou apresentando taquicardia, sudorese e tremores por crise de pânico grave.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Angústia emocional visível e significativa, mas paciente ainda cooperativo, com fala coerente e sinais de estabilidade geral. Há sofrimento evidente, mas com menor risco imediato.

⚠️ Importante: A classificação deve considerar a intensidade do sofrimento psíquico e o potencial de descompensação clínica.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Mulher de 28 anos chega à UPA após discutir com o ex-companheiro. Está tremendo, chorando de forma incontrolável, com respiração rápida, dificuldade para falar e pavor evidente. Refere que “vai morrer”.

➡️ Fluxograma: “Problema comportamental” ou “Dispneia”;
➡️ Discriminador: “Angústia marcada”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


Situação 2:
Paciente com histórico de transtorno bipolar procura atendimento alegando estar em crise. Está triste, chora de forma moderada, mas está calmo, orientado, falando com coerência e aceita suporte.

➡️ Fluxograma: “Problema comportamental”;
➡️ Discriminador: “Angústia marcada”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


👩‍⚕️ Conduta do enfermeiro classificadora

  • Observe o comportamento com atenção, sem julgar;

  • Utilize escalas auxiliares se disponíveis (ex: escala de ansiedade, escala de risco suicida);

  • Registre tudo com clareza, pois questões legais e de segurança podem estar envolvidas;

  • Acolha com empatia, escuta ativa e ambiente tranquilo;

  • Na dúvida entre amarelo e laranja, opte pela prioridade mais alta, principalmente se houver instabilidade emocional intensa.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Angústia Marcada” é uma ferramenta essencial no reconhecimento do sofrimento psíquico significativo durante a triagem. Ele reforça o papel do enfermeiro não apenas como um avaliador clínico, mas também como um profissional capaz de reconhecer e priorizar o cuidado emocional do paciente.

Aplicar esse critério com sensibilidade e precisão é fundamental para garantir um atendimento humanizado, seguro e eficiente, especialmente em um cenário de urgência, onde o sofrimento emocional pode ser tão grave quanto o físico.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 15:51