Apneia

Identificação clínica, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco

A apneia é uma condição clínica extremamente grave que indica a interrupção da respiração espontânea por um determinado tempo. No ambiente de triagem e emergência, o reconhecimento rápido da apneia pode significar a diferença entre a vida e a morte, exigindo classificação imediata com prioridade máxima.

O Protocolo de Manchester, ao incluir a apneia como discriminador, orienta o enfermeiro a identificar corretamente essa condição por meio da observação ativa, escuta e toque, mesmo em pacientes aparentemente estáveis.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Apneia:
Ausência de respiração ou esforço respiratório durante 10 (dez) segundos, conforme avaliação pelo olhar, audição e tato.

Esse critério deve ser aplicado independentemente da causa, e se baseia na percepção sensorial direta do profissional: observar o tórax, ouvir os sons respiratórios e sentir a movimentação do ar ou do tórax.


🔎 Como identificar apneia na triagem?

A apneia pode ser observada em pacientes de todas as idades, incluindo adultos, crianças, recém-nascidos e lactentes. Para identificá-la corretamente, o profissional deve realizar a chamada avaliação tripla:

  1. Olhar (visão):
    Observar se há movimentos torácicos, abdominais ou de narinas.

  2. Audição (ouvido):
    Ouvir a presença de sons respiratórios (entrada e saída de ar).

  3. Tato (toque):
    Sentir com a mão ou o rosto se há passagem de ar pelas vias aéreas.

Se nenhum movimento, som ou fluxo de ar for detectado por pelo menos 10 segundos, a condição é classificada como apneia — e deve ser tratada como emergência absoluta.


⚠️ Condições clínicas associadas à apneia

A apneia pode ocorrer em diversos contextos clínicos, incluindo:

🧠 Neurológicos:

  • Traumatismo crânio-encefálico grave;

  • AVC extenso com envolvimento do tronco encefálico;

  • Convulsões prolongadas ou estado de mal epiléptico.

🫁 Respiratórios:

  • Obstrução de vias aéreas superiores;

  • Asma grave;

  • Aspiração de corpo estranho (em pediatria);

  • Parada respiratória em neonatos.

💊 Tóxicos ou metabólicos:

  • Intoxicação por opioides, sedativos ou anestésicos;

  • Hipoglicemia severa;

  • Acidose metabólica grave.

🍼 Em neonatologia:

  • Síndrome da apneia da prematuridade;

  • Apneias transitórias após nascimento;

  • Distúrbios do desenvolvimento neurológico.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

A apneia pode ser utilizada em vários fluxogramas, entre eles:

  • Colapso

  • Alteração do nível de consciência

  • Dificuldade respiratória

  • Convulsão atual

  • Traumatismo craniano

  • Recém-nascido ou lactente doente

No caso de pacientes inconscientes ou com respiração ausente, o enfermeiro deve aplicar o discriminador "Apneia" imediatamente e iniciar os procedimentos de suporte básico ou avançado de vida, conforme protocolo institucional.


🎯 Classificação de Risco por Cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Todos os casos de apneia devem ser classificados como vermelhos, pois se trata de um quadro potencialmente fatal, que exige intervenção imediata.

📣 Importante: A apneia nunca deve ser subestimada. Mesmo se o paciente “retornar a respirar espontaneamente”, a presença de episódios apneicos é sinal de instabilidade grave e exige atendimento urgente.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação:
Recém-nascido de 14 dias é trazido à UPA pela mãe após apresentar episódio em que "parou de respirar por uns 15 segundos e ficou roxinho". No momento, está estável, mas sonolento. A mãe está em desespero.

➡️ Fluxograma: “Recém-nascido ou lactente doente”;
➡️ Discriminador: “Apneia” (relato confiável de pausa respiratória);
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato.


Situação 2:
Homem de 65 anos é encontrado desacordado, sem movimentos respiratórios visíveis. O enfermeiro aplica técnica de abertura das vias aéreas, mas não detecta respiração. ECG = 3.

➡️ Fluxograma: “Colapso”;
➡️ Discriminador: “Apneia”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato e início da reanimação cardiopulmonar (RCP).


👩‍⚕️ Conduta do enfermeiro na presença de apneia

  • Realizar imediatamente a abertura das vias aéreas (manobra de frente inclinada ou elevação do queixo);

  • Solicitar ajuda e acionar equipe de emergência médica ou suporte avançado;

  • Iniciar ventilação de resgate ou RCP, se necessário;

  • Aplicar a classificação vermelha no protocolo;

  • Registrar todos os sinais, tempo de duração e resposta às manobras.

Atenção: Episódios apneicos intermitentes também devem ser considerados como sinais de alerta e nunca devem ser classificados com cores inferiores ao vermelho ou laranja.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Apneia” é um dos mais críticos do Protocolo de Manchester, pois está diretamente relacionado a situações de parada respiratória ou falência ventilatória iminente. O reconhecimento precoce da ausência de movimentos respiratórios, mesmo por 10 segundos, deve levar à ação imediata da equipe de saúde.

O profissional de enfermagem que atua na triagem deve estar preparado para identificar, classificar e agir prontamente, garantindo que o paciente receba intervenção salvadora sem atrasos.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 15:55