Broncoespasmo

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e classificação de risco respiratório

O broncoespasmo é uma condição clínica caracterizada pela contração dos músculos lisos dos brônquios, resultando em estreitamento das vias aéreas, o que leva à dificuldade na passagem do ar e ao surgimento de sintomas como falta de ar, chiado (sibilos), tosse e respiração ofegante.

É uma manifestação comum em pacientes com asma, DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica) e reações alérgicas graves. No contexto da triagem, o reconhecimento precoce do broncoespasmo é essencial para evitar a progressão para insuficiência respiratória aguda ou parada respiratória.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Broncoespasmo:
Pode ter sibilância audível.
Deve-se lembrar que a dificuldade respiratória grave é silenciosa — o ar não consegue movimentar-se.

Ou seja, a presença de sibilos (chiado no peito) é um sinal de broncoespasmo ativo, mas a ausência de ruídos em um paciente em franca dificuldade respiratória é ainda mais grave, pois indica que não há passagem de ar suficiente para gerar o som, o que é um sinal de obstrução crítica das vias aéreas.


🔍 Como identificar o broncoespasmo na triagem?

Durante a avaliação, o enfermeiro deve observar:

  • Presença de sibilância audível (chiado ao inspirar ou expirar), mesmo sem estetoscópio;

  • Queixa de falta de ar progressiva ou aguda;

  • Tosse seca persistente;

  • Uso de musculatura acessória (pescoço, intercostais, retrações abdominais);

  • Fala entrecortada ou incapacidade de falar frases completas;

  • Ansiedade, inquietação ou postura em tripé (paciente inclinado para frente para facilitar a respiração);

  • Saturação de O₂ diminuída (< 94%);

  • História de asma, DPOC, bronquite crônica ou exposição a alérgenos/irritantes.

⚠️ Atenção especial deve ser dada ao "peito silencioso", que é uma emergência: indica que o fluxo aéreo está tão reduzido que nem mesmo os sibilos são gerados.


🧠 Causas comuns de broncoespasmo

  • Asma brônquica (principal causa em adultos jovens e crianças);

  • Exacerbação de DPOC (em idosos e tabagistas);

  • Reações alérgicas ou anafilaxia;

  • Exposição a agentes irritantes (poeiras, fumaças, produtos químicos);

  • Infecções respiratórias virais ou bacterianas;

  • Pós-intubação/extubação em pacientes críticos.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Broncoespasmo” pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Dificuldade respiratória

  • Dor torácica (em alguns casos de asma com dor muscular associada)

  • História de alergia/reação anafilática

  • Paciente encontrado com dispneia súbita ou crise asmática

O enfermeiro deve usar esse discriminador quando o quadro respiratório for causado por obstrução brônquica evidente, com ou sem sibilância.


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento Imediato

  • Silêncio torácico (ausência de sibilos em paciente dispneico);

  • Incapacidade de falar;

  • Cianose, rebaixamento de consciência ou exaustão extrema;

  • Saturação < 90%;

  • Frequência respiratória ≤10 ou ≥29 mpm;

  • ECG < 15.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Sibilos audíveis, com fala entrecortada;

  • Uso de musculatura acessória evidente;

  • Saturação entre 90 e 94%;

  • História de crise asmática sem resposta à medicação habitual (associar com outro discriminador).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Presença de sibilância leve, paciente estável, com leve desconforto respiratório;

  • Saturação > 94%;

  • Fala normal, sem uso de musculatura acessória, sintomas leves.

Importante: A progressão de um quadro leve para grave pode ser muito rápida, especialmente em crianças e asmáticos graves. A triagem deve considerar o histórico e o padrão da crise atual.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Paciente de 35 anos, asmático, chega com falta de ar intensa, fala entrecortada e sibilos audíveis mesmo à distância. Saturação: 91%. Usou bombinha sem melhora.

➡️ Fluxograma: “Dificuldade respiratória”;
➡️ Discriminador: “Broncoespasmo” + “Asma sem melhoria com tratamento habitual”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


Situação 2:
Idoso com DPOC, chega com respiração muito lenta, sem chiado, não consegue falar, cianose labial e torácica. Ausência de sons respiratórios audíveis, mesmo com ausculta.

➡️ Fluxograma: “Dificuldade respiratória”;
➡️ Discriminador: “Broncoespasmo” + “Avaliação da respiração”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar frequência e esforço respiratório;

  • Observar e, se possível, auscultar a presença ou ausência de sibilos;

  • Verificar saturação de O₂ com oxímetro de dedo;

  • Identificar se o paciente usou medicação de resgate (broncodilatador) e se houve resposta;

  • Aplicar oxigênio suplementar com máscara ou cânula, conforme protocolo institucional;

  • Acionar a equipe médica imediatamente para pacientes classificados como vermelho ou laranja;

  • Manter o paciente em posição confortável, geralmente sentado inclinado para frente (posição tripé).


✅ O que aprendemos

O discriminador “Broncoespasmo” é essencial no reconhecimento de obstruções respiratórias agudas, principalmente em crises de asma, DPOC e reações alérgicas. Sua correta identificação garante que o paciente receba atendimento imediato ou urgente, evitando complicações graves como hipóxia, fadiga respiratória e parada cardiorrespiratória.

O enfermeiro deve estar atento ao sinal do “peito silencioso”, pois a ausência de sibilos não é sinal de melhora, mas sim de uma crise respiratória grave e avançada.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:25