16 - Cefaleia
Cefaleia
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco
A cefaleia, ou dor de cabeça, é uma das queixas mais comuns nos serviços de urgência e emergência. Apesar de, na maioria das vezes, tratar-se de um sintoma benigno (como uma enxaqueca ou cefaleia tensional), também pode indicar condições neurológicas graves que requerem intervenção médica imediata, como hemorragia intracraniana, meningite, tumor cerebral ou dissecção arterial.
Por esse motivo, o Protocolo de Manchester considera a cefaleia como um discriminador próprio, exigindo uma avaliação cuidadosa do padrão, intensidade e histórico dessa dor.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Cefaleia:
Qualquer dor localizada na cabeça, não relacionada a uma estrutura anatômica específica.
Dores faciais não estão incluídas neste discriminador.
Ou seja, dores nos seios da face, olhos, mandíbula ou ouvidos devem ser triadas por outros fluxogramas (ex: dor facial, otalgia, dor ocular). Já dores no crânio, têmporas, nuca ou topo da cabeça, mesmo difusas, são classificadas como cefaleia.
🧠 Importância clínica da cefaleia na triagem
A dor de cabeça pode ser primária (sem causa estrutural) ou secundária (decorrente de outra doença). Algumas causas secundárias são potencialmente fatais e incluem:
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Hemorragia subaracnoide (ruptura de aneurisma);
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AVC isquêmico ou hemorrágico;
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Meningite ou encefalite;
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Trombose venosa cerebral;
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Hipertensão intracraniana (tumores, pseudotumor cerebral);
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Cefaleia pós-traumática;
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Arterite temporal (em idosos);
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Glaucoma agudo de ângulo fechado (quando a dor se confunde com cefaleia).
⚠️ Reconhecer os sinais de alerta associados à cefaleia pode ser determinante para o desfecho clínico do paciente.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
O enfermeiro deve investigar e observar:
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Início súbito e intensidade (“a pior dor da vida”);
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Cefaleia nova ou diferente do padrão habitual do paciente;
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Dor progressiva e que não melhora com analgésicos comuns;
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Alteração do nível de consciência, confusão, sonolência;
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Febre, rigidez de nuca ou vômitos em jato;
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Déficits neurológicos associados (visão turva, fala arrastada, hemiparesia);
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Cefaleia após esforço físico, tosse ou relação sexual (sugere aumento da pressão intracraniana);
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Histórico de trauma craniano recente;
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História de câncer ou imunossupressão (risco de metástases ou infecção).
A presença de qualquer um desses fatores pode indicar uma causa secundária grave e justificar prioridade aumentada.
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
Esse discriminador pode ser utilizado nos fluxogramas:
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Dor de cabeça (Cefaleia)
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Alteração do estado mental
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Convulsão atual
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Colapso
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Pós-trauma craniano
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Febre em adultos (se houver suspeita de meningite)
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento Imediato
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Início súbito da dor, em “explosão” (sugestiva de hemorragia subaracnoide);
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Cefaleia com rebaixamento do nível de consciência, convulsão ou déficit neurológico agudo;
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Cefaleia intensa com vômitos em jato e rigidez de nuca (sugestiva de meningite ou hipertensão intracraniana);
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Sinais de choque ou instabilidade hemodinâmica associada à dor.
🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Dor de cabeça intensa e incomum para o paciente;
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Início súbito, sem déficit neurológico evidente, mas com vômitos, febre ou rigidez de nuca leve;
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Dor com alteração visual ou suspeita de arterite temporal em idosos.
🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Cefaleia moderada, sem sinais de alarme, mas persistente e refratária à medicação habitual;
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Episódios recorrentes, com dor semelhante ao padrão habitual, mas que se intensificou ou mudou de frequência;
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Dor de cabeça acompanhada de ansiedade ou tensão emocional, mas sem sinais clínicos relevantes.
🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
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Cefaleia leve, semelhante a episódios anteriores, que responde bem à analgesia habitual;
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Ausência total de sinais de alerta;
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Paciente tranquilo, com exame neurológico normal.
📋 Exemplo clínico aplicado
Situação 1:
Homem de 50 anos relata dor súbita e explosiva na cabeça iniciada há 1 hora, enquanto tomava banho. Refere que “nunca sentiu uma dor assim”. Está pálido e com náuseas.
➡️ Fluxograma: “Dor de cabeça”;
➡️ Discriminador: “Cefaleia”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de hemorragia subaracnoide).
Situação 2:
Mulher de 28 anos chega à UPA com dor de cabeça intensa, semelhante a crises anteriores de enxaqueca. Está estável, sem sinais neurológicos ou febre, mas relata que a dor está mais forte hoje.
➡️ Fluxograma: “Dor de cabeça”;
➡️ Discriminador: “Cefaleia”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Realizar anamnese breve, identificando: início, intensidade, localização, tipo de dor, duração e sinais associados;
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Observar se o paciente apresenta fotofobia, fonofobia, náuseas, vômitos, febre, confusão ou déficits neurológicos;
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Verificar sinais vitais e nível de consciência;
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Investigar se há histórico de cefaleias anteriores ou se a dor atual é diferente das habituais;
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Acionar a equipe médica imediatamente se houver qualquer sinal de alerta neurológico.
✅ O que aprendemos
O discriminador “Cefaleia” é de grande importância dentro do Protocolo de Manchester, pois abrange uma ampla gama de condições — desde enxaquecas benignas até emergências neurológicas graves. Cabe ao enfermeiro na triagem diferenciar os quadros simples daqueles que requerem avaliação médica urgente, utilizando critérios objetivos e sensíveis.
Saber aplicar esse discriminador com clareza é fundamental para a segurança do paciente e para a fluidez da triagem, reduzindo atrasos no diagnóstico de condições tempo-dependentes.