Celulite Escrotal

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco

A celulite escrotal é uma condição inflamatória e infecciosa que acomete a pele e o tecido subcutâneo da bolsa escrotal, frequentemente associada a dor, vermelhidão, calor e inchaço. Embora a celulite em outras regiões do corpo costume evoluir de forma mais lenta, a localização escrotal demanda atenção redobrada, pois pode ser indicativa de infecções graves como a orquiepididimite, abscessos escrotais ou até mesmo a temida gangrena de Fournier, uma infecção necrosante potencialmente fatal.

Por esse motivo, o Protocolo de Manchester considera “Celulite Escrotal” como um discriminador próprio, sinalizando a necessidade de avaliação médica urgente ou imediata, especialmente diante de sinais sistêmicos.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Celulite Escrotal:
Presença de vermelhidão (eritema) e inchaço (edema) ao redor da bolsa escrotal.

Esse discriminador é utilizado para qualquer paciente do sexo masculino que apresente sinais visíveis ou referidos de inflamação escrotal, sem necessidade de diagnóstico fechado no momento da triagem.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante o acolhimento, o paciente pode relatar:

  • Dor escrotal localizada e progressiva;

  • Inchaço ou aumento de volume da bolsa escrotal;

  • Calor e vermelhidão local;

  • Sensibilidade ao toque ou desconforto ao caminhar ou sentar;

  • Eventualmente, febre, calafrios ou mal-estar geral.

A inspeção (quando possível) pode confirmar:

  • Hiperemia escrotal (vermelhidão intensa);

  • Edema com pele esticada, brilhante ou com brilho anormal;

  • Assimetria escrotal ou presença de lesões;

  • Secreção purulenta ou odor fétido (em casos mais avançados).

⚠️ A dificuldade para urinar, presença de febre ou sinais sistêmicos associados elevam o nível de gravidade clínica e devem ser considerados na classificação.


🧠 Principais causas associadas à celulite escrotal

  • Celulite bacteriana local (Streptococcus, Staphylococcus);

  • Orquiepididimite bacteriana;

  • Abscesso escrotal;

  • Flegmão escrotal;

  • Gangrena de Fournier (celulite necrosante perineal);

  • Infecções urinárias complicadas com extensão para região escrotal;

  • Complicações pós-cirúrgicas ou pós-trauma escrotal.

A gangrena de Fournier, apesar de rara, é uma emergência cirúrgica com alta mortalidade se não tratada prontamente.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Celulite Escrotal” deve ser aplicado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor testicular/escrotal

  • Inchaço genital ou perineal

  • Infecção do trato urinário (em casos com irradiação para o escroto)

  • Febre em adultos (associada a dor escrotal)

📌 Esse discriminador não depende de exame físico detalhado ou diagnóstico médico. Basta o relato do paciente com sinais claros de inchaço e vermelhidão para ser aplicado.


🎯 Classificação de risco por cores

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Celulite escrotal com:

    • Dor intensa e progressiva;

    • Febre ou taquicardia;

    • Início súbito ou rápida evolução;

    • Fatores de risco: diabetes, imunossupressão, HIV, alcoolismo, idade avançada.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Vermelhidão e inchaço escrotal sem sinais sistêmicos;

  • Paciente estável, com dor moderada e evolução lenta dos sintomas;

  • Sem sinais de toxicidade ou infecção grave evidente.

Importante: A presença de febre, taquicardia, queda do estado geral ou sinais de necrose (pele escurecida ou bolhas) deve levar à priorização imediata (laranja ou vermelho, conforme protocolo local).


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 52 anos, diabético, chega à UPA com queixa de dor escrotal intensa há 12 horas, associada a febre de 38,7 °C. Refere aumento de volume com vermelhidão e dificuldade para caminhar. Ao exame, escroto edemaciado e sensível.

➡️ Fluxograma: “Dor testicular/escrotal”;
➡️ Discriminador: “Celulite Escrotal”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


Situação 2:
Jovem de 22 anos chega relatando inchaço leve no escroto há 3 dias, com dor moderada. Nega febre, urina normalmente. Ao exame rápido, observa-se vermelhidão leve, sem calor intenso ou secreção.

➡️ Fluxograma: “Inchaço genital ou perineal”;
➡️ Discriminador: “Celulite Escrotal”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


👨‍⚕️ Conduta do enfermeiro classificadora

  • Avaliar sinais vitais e presença de febre;

  • Observar localização da dor, intensidade e progressão dos sintomas;

  • Verificar fatores de risco clínico (diabetes, uso de imunossupressores, idade avançada);

  • Encaminhar para avaliação médica urgente nos casos suspeitos de infecção avançada;

  • Não atrasar o atendimento para exames adicionais durante a triagem;

  • Registrar tempo de evolução, medicamentos usados e qualquer secreção, odor ou alteração visual descrita pelo paciente.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Celulite Escrotal” tem importância crítica na triagem por indicar uma infecção localizada que pode evoluir para um quadro grave e sistêmico. O enfermeiro que atua na triagem deve saber reconhecer os sinais clínicos precoces, aplicar corretamente o fluxo e classificar com prioridade aumentada quando houver sinais sistêmicos, dor intensa ou risco de necrose.

A aplicação correta desse discriminador é fundamental para evitar atrasos no diagnóstico de infecções graves, protegendo a saúde reprodutiva do paciente e, em casos extremos, salvando vidas.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:27