Choque

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e classificação de risco hemodinâmico

O choque é uma condição crítica e tempo-dependente, definida como a incapacidade do sistema circulatório de fornecer oxigênio suficiente aos tecidos e órgãos, resultando em hipoperfusão celular, falência orgânica progressiva e, se não tratado, morte. É uma emergência médica que exige identificação precoce e intervenção imediata.

No contexto da triagem, o Protocolo de Manchester considera o choque como um discriminador prioritário, pois ele altera sinais vitais fundamentais e está associado a alto risco de deterioração clínica rápida.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Choque:
O choque deve-se à distribuição inadequada de oxigênio pelos tecidos.
Os sinais clássicos incluem:
Sudorese fria,
Palidez cutânea,
Taquicardia,
Hipotensão,
Redução do nível de consciência.

Ou seja, o profissional deve suspeitar de choque quando o paciente apresenta instabilidade circulatória evidente, com hipoperfusão tecidual, mesmo antes de um diagnóstico fechado.


🧠 Classificação dos tipos de choque mais comuns

  1. Choque hipovolêmico – perda de volume (sangue ou fluidos);

  2. Choque cardiogênico – falência da bomba cardíaca;

  3. Choque séptico – infecção grave com vasodilatação e inflamação sistêmica;

  4. Choque anafilático – reação alérgica sistêmica com vasodilatação e edema de vias aéreas;

  5. Choque neurogênico – falha no controle autonômico da pressão arterial (ex: lesão medular).

⚠️ Todos os tipos levam à diminuição da perfusão tecidual e exigem atendimento emergencial.


🔍 Como identificar o choque na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve buscar sinais clínicos objetivos:

  • Sudorese fria e pegajosa;

  • Palidez ou cianose cutânea (especialmente em extremidades);

  • Taquicardia (FC > 100 bpm);

  • Hipotensão arterial (PAS < 90 mmHg ou PAM < 65 mmHg);

  • Extremidades frias e tempo de preenchimento capilar > 3 segundos;

  • Rebaixamento do nível de consciência (letargia, confusão, sonolência);

  • Respiração rápida e superficial (taquipneia);

  • Diminuição da diurese (relato de urina escassa ou ausente).

A presença de dois ou mais desses sinais, mesmo sem diagnóstico definido, já justifica a aplicação do discriminador.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Choque” pode ser utilizado em diversos fluxogramas, como:

  • Colapso

  • Dor abdominal (em casos de hemorragia interna, perfuração, sepse);

  • Febre em adultos (choque séptico);

  • Traumatismo grave (choque hipovolêmico);

  • Reação alérgica (choque anafilático);

  • Dor torácica (choque cardiogênico ou TEP);

  • Vômitos com sangue ou melena (choque hemorrágico digestivo).

📌 A classificação deve ser baseada nos sinais clínicos de choque, não na causa. O foco da triagem é a gravidade do estado atual do paciente.


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento Imediato

  • Presença de:

    • Hipotensão severa (PAS < 90 mmHg);

    • Taquicardia intensa (> 130 bpm);

    • Nível de consciência reduzido;

    • Sudorese intensa, extremidades frias e pálidas;

    • Tempo de enchimento capilar prolongado (> 3 segundos);

    • Hipoxemia associada (< 90%);

    • Respiração ofegante, superficial e rápida (FR ≥ 29 mpm).

❗ O paciente em choque nunca deve aguardar. A prioridade é máxima e o atendimento deve ser iniciado imediatamente.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 64 anos chega à UPA com dor abdominal intensa, sudorese fria, pressão arterial 78/46 mmHg, pulso fraco e rápido. Está confuso, fala com dificuldade e apresenta extremidades frias.

➡️ Fluxograma: “Dor abdominal”;
➡️ Discriminador: “Choque”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato.


Situação 2:
Mulher de 35 anos, com histórico de alergia grave, chega com prurido, urticária, taquicardia e queda progressiva da pressão arterial. Refere sensação de “fraqueza e desmaio”. Saturação: 92%.

➡️ Fluxograma: “Reação alérgica”;
➡️ Discriminador: “Choque”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Verificar sinais vitais completos imediatamente: PA, FC, FR, temperatura, saturação de O₂;

  • Avaliar o nível de consciência e perfusão periférica (extremidades frias, tempo de enchimento capilar);

  • Posicionar o paciente de forma adequada (em decúbito com pernas elevadas, se possível e seguro);

  • Acionar equipe médica sem demora;

  • Iniciar oxigenoterapia de alto fluxo, se indicado;

  • Providenciar acesso venoso calibroso, se for permitido pela política da unidade;

  • Registrar todos os achados com hora exata e evidências clínicas observadas.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Choque” é um dos mais importantes e potencialmente fatais do Protocolo de Manchester. Sua correta identificação exige conhecimento técnico, agilidade e sensibilidade clínica.

Cabe ao enfermeiro classificador não apenas reconhecer os sinais vitais alterados, mas também entender que o choque representa um estado de sofrimento celular sistêmico e risco iminente de morte.

A triagem eficaz em casos de choque salva vidas, reduz o tempo até o atendimento médico e contribui diretamente para o sucesso do tratamento.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:32