Cólicas

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco

A cólica é um tipo de dor caracterizada por episódios intermitentes, intensos e geralmente abruptos, que ocorrem em órgãos ocos ou estruturas tubulares, como ureteres, intestinos e vesícula biliar. Essa dor é comumente causada pela contração muscular involuntária diante de uma obstrução parcial ou total.

No contexto de urgência e emergência, a cólica é um sintoma que pode indicar condições importantes e potencialmente graves, como litíase urinária (cólica renal), obstruções intestinais ou cólicas biliares (colelitíase). O Protocolo de Manchester reconhece esse padrão doloroso como um discriminador clínico próprio.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Cólicas:
Dores intermitentes.
A cólica renal, por exemplo, tem tendência a aparecer e desaparecer durante um período de cerca de 20 minutos.

A dor de padrão cólico se distingue por períodos de alívio parcial ou total entre os episódios de dor intensa, diferentemente da dor contínua.


🧠 Características da dor do tipo cólica

O padrão típico das cólicas é:

  • Início súbito;

  • Dor intensa e aguda, de difícil alívio;

  • Variação da intensidade, com picos de dor seguidos por pausas ou diminuição;

  • Irradiação da dor (ex: para a virilha, dorso ou flanco);

  • Agitação do paciente durante os episódios de dor — diferente da dor contínua em que o paciente tende a ficar imóvel.

⚠️ Cólicas, especialmente as renais, podem causar náuseas, vômitos, sudorese e agitação, mesmo sem febre ou sinais inflamatórios evidentes.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a entrevista, o profissional deve:

  • Perguntar sobre a característica da dor: contínua ou em “ondas”?

  • Questionar a duração dos episódios e se houve intervalos de alívio;

  • Identificar a localização e irradiação da dor;

  • Avaliar sinais associados, como náuseas, vômitos, eliminação de urina ou fezes, e presença de sangue na urina;

  • Observar se o paciente está agitado, inquieto, andando ou se contorcendo (muito comum nas cólicas renais).


🩺 Causas comuns de cólicas agudas

  1. Cólica renal (litíase ureteral): dor lombar intensa, irradiando para o flanco e virilha; pode haver hematúria e náusea.

  2. Cólica biliar: dor epigástrica ou em hipocôndrio direito, irradiando para escápula; associada à alimentação gordurosa.

  3. Cólica intestinal: dor em cólica associada a distensão abdominal, flatos ou constipação; pode indicar suboclusão ou obstrução.

  4. Cólica uterina (dismenorreia): dor pélvica cíclica associada à menstruação.

  5. Cólica pediátrica: comum em lactentes (cólica do bebê), com choro intenso e peristaltismo aumentado.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Cólicas” pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor abdominal

  • Dor nos flancos ou lombar

  • Distúrbios urinários

  • Dor pélvica (ginecológica)

  • Choro (em crianças com suspeita de cólica intestinal)

📌 A escolha correta do fluxograma depende da localização principal da dor e do perfil do paciente (adulto, gestante, criança).


🎯 Classificação de risco por cores

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Cólicas com:

    • Dor intensa, refratária a analgésicos;

    • Vômitos persistentes;

    • Sinais de obstrução urinária aguda ou anúria;

    • Pacientes com rim único ou transplante renal;

    • Sinais de septicemia urinária ou biliar (febre, hipotensão, taquicardia).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Cólicas com:

    • Dor moderada ou intermitente, com alívio parcial;

    • Episódios anteriores semelhantes com resolução espontânea;

    • Sem sinais sistêmicos relevantes (sem febre ou rebaixamento);

    • Urina presente, mesmo que com hematúria.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Cólicas leves ou já em resolução;

  • Dor intermitente, sem sinais sistêmicos ou risco associado;

  • Paciente com história de cólica frequente e quadro típico leve.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 40 anos com dor lombar intensa há 2 horas, irradiando para a virilha, com episódios de alívio e retorno da dor. Relata náuseas e não consegue ficar parado. Sinais vitais estáveis, sem febre. Já teve cálculo renal anteriormente.

➡️ Fluxograma: “Dor nos flancos”;
➡️ Discriminador: “Cólicas”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


Situação 2:
Paciente com histórico de rim único apresenta dor lombar súbita, intensa, refratária a analgésico, com ausência de micção nas últimas 8 horas e vômitos. Palidez e sudorese.

➡️ Fluxograma: “Distúrbios urinários”;
➡️ Discriminador: “Cólicas”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar sinais vitais completos (FC, PA, FR, temperatura e saturação);

  • Verificar intensidade e duração da dor (EVA ou escala facial);

  • Observar comportamento do paciente: agitação, posturas antálgicas, inquietação;

  • Questionar histórico de litíase, disfunções intestinais ou ginecológicas;

  • Investigar presença de febre, vômitos ou alterações urinárias;

  • Registrar localização, padrão temporal e irradiação da dor;

  • Classificar com base nos riscos associados à causa provável da cólica.


✅ Conclusão

O discriminador “Cólicas” permite que o enfermeiro reconheça padrões de dor intermitente com potencial de indicar obstruções agudas no trato urinário, biliar ou gastrointestinal. Sua correta aplicação garante que o paciente receba prioridade adequada e que situações como obstrução ureteral total, pielonefrite, sepse urinária ou colecistite aguda sejam reconhecidas a tempo.

A atenção ao padrão da dor, sinais associados e histórico prévio é fundamental para que o enfermeiro classificador atue com segurança, agilidade e responsabilidade clínica.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:35