Comportamento Estranho

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco em pediatria

O comportamento da criança é um parâmetro clínico valioso na avaliação de risco em situações de urgência. Muitas vezes, a primeira manifestação de uma condição aguda grave em crianças é uma mudança comportamental, especialmente em lactentes e pré-verbais. Por isso, o Protocolo de Manchester inclui o discriminador “Comportamento Estranho” como uma ferramenta importante para que o profissional de saúde reconheça sinais precoces de deterioração clínica em pacientes pediátricos.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Comportamento Estranho:
Criança que se comporta de forma não habitual em determinada situação.
Os tutores costumam relatar essa mudança espontaneamente.
Essas crianças são frequentemente descritas como “rabugentas” ou “indispostas”, mesmo em situações em que normalmente estariam ativas ou brincando.

Esse discriminador não exige diagnóstico específico, mas sim a observação de um comportamento fora do padrão esperado para a idade e situação, geralmente percebido e relatado pelos pais ou responsáveis.


🧠 Importância clínica do comportamento estranho

Em pediatria, uma alteração no comportamento habitual pode ser o primeiro sinal de diversas condições clínicas, como:

  • Infecções sistêmicas (ex: infecção urinária, meningite, viroses);

  • Febre alta e persistente;

  • Desidratação moderada ou grave;

  • Traumas não relatados (acidente doméstico, quedas, maus-tratos);

  • Distúrbios neurológicos iniciais (convulsão febril, encefalite);

  • Problemas gastrointestinais (dor abdominal, constipação, invaginação intestinal);

  • Alterações metabólicas (hipoglicemia, hiponatremia).

⚠️ A criança que “não é ela mesma hoje” — ou seja, está muito mais quieta, irritada, sonolenta ou distante — deve ser vista com atenção. Muitas vezes o relato da família é mais sensível do que os sinais vitais no início da doença.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

O enfermeiro deve observar o comportamento da criança e, principalmente, ouvir atentamente o relato dos pais ou cuidadores. Perguntas úteis incluem:

  • “Ela está diferente do habitual hoje?”

  • “Como ela costuma reagir quando está doente?”

  • “O que mais te preocupou a ponto de trazê-la aqui hoje?”

  • “Ela está brincando, comendo e dormindo como de costume?”

As respostas geralmente incluem frases como:

  • “Ela está muito quieta hoje.”

  • “Não quer saber de brincar.”

  • “Está chorosa, emburrada.”

  • “Só quer ficar no colo.”

  • “Parece que está sentindo algo, mas não sabemos o quê.”

Esse “algo está errado, mas não sei o quê” é exatamente o que o discriminador contempla.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Comportamento Estranho” pode ser aplicado nos seguintes fluxogramas:

  • Febre em crianças

  • Choro

  • Paciente pediátrico doente

  • Vômitos em crianças

  • Alteração do estado mental

  • Convulsão atual (pós-ictal com lentidão ou confusão)


🎯 Classificação de risco por cores

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Comportamento anormal associado a outros sinais de alarme, como:

    • Febre alta persistente (> 39 °C);

    • Prostração ou sonolência excessiva;

    • Dificuldade respiratória;

    • Rigidez de nuca ou convulsão;

    • Pele marmórea, fria ou sudorese;

    • Diminuição da resposta a estímulos.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Comportamento diferente do habitual, mas:

    • Criança ainda responde bem aos estímulos;

    • Não há febre alta ou outros sinais clínicos relevantes;

    • Alteração leve, como irritabilidade ou sono fora de hora;

    • Pais preocupados, mas sem sinais de urgência.

❗ Sempre considerar o relato dos responsáveis como válido, mesmo que a criança esteja calma no momento da triagem.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Criança de 1 ano e 3 meses, com febre há 2 dias, está muito quieta, não quer brincar e recusa líquidos. A mãe relata: “Ela está diferente, geralmente está correndo pela casa”. Está sonolenta no colo e não reage quando chamada.

➡️ Fluxograma: “Febre em crianças”;
➡️ Discriminador: “Comportamento Estranho”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


Situação 2:
Criança de 4 anos trazida pela avó. Sem febre. Está com olhar cansado e está “muito calada desde ontem”. A avó refere que normalmente a criança é agitada, mas agora está “muito apagada”. Sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Paciente pediátrico doente”;
➡️ Discriminador: “Comportamento Estranho”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar sinais vitais completos, especialmente temperatura, frequência respiratória e cardíaca;

  • Observar resposta da criança ao ambiente e aos estímulos: ela interage, reage, está alerta?

  • Ouvir atentamente os responsáveis — eles conhecem o comportamento típico da criança;

  • Verificar presença de febre, vômitos, sonolência, alimentação alterada;

  • Registrar o relato de forma clara: “responsável relata mudança de comportamento: menos ativa, sem apetite, muito quieta”;

  • Priorizar o atendimento com base na gravidade da alteração comportamental associada a outros sinais clínicos.


✅ Conclusão

O discriminador “Comportamento Estranho” reforça a importância da observação comportamental como ferramenta clínica de triagem pediátrica. Mudanças sutis no comportamento — principalmente quando relatadas por quem convive diariamente com a criança — podem ser sinais precoces de doenças graves, mesmo antes da febre ou dos sintomas clássicos.

Cabe ao enfermeiro classificador validar o olhar da família, aplicar o discriminador corretamente e assegurar que nenhuma alteração importante passe despercebida, garantindo uma triagem humanizada, sensível e técnica.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:37