Comportamento Disruptivo

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de intervenção em contextos de urgência

O ambiente de um serviço de urgência e emergência exige organização, segurança e fluidez, pois o tempo é um recurso vital. O discriminador “Comportamento Disruptivo” foi incorporado ao Protocolo de Manchester com o objetivo de garantir que comportamentos que coloquem em risco o funcionamento da unidade, ou interfiram no atendimento de outros pacientes, sejam reconhecidos, registrados e abordados com conduta clínica e administrativa adequada.

Este discriminador não está relacionado diretamente ao estado físico do paciente, mas sim ao seu comportamento diante da equipe, de outros pacientes e da estrutura do serviço.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Comportamento Disruptivo:
Trata-se de um comportamento que afeta a boa ordem do Serviço de Urgência.
Pode ser ameaçador ou não, mas sempre causa perturbação relevante ao funcionamento da unidade.


🧠 Importância do discriminador na triagem

O comportamento disruptivo pode ser um sintoma de uma condição clínica, como:

  • Transtornos psiquiátricos descompensados (ex: esquizofrenia, transtorno bipolar);

  • Abstinência alcoólica ou de drogas;

  • Crises de agitação psicomotora;

  • Uso recente de substâncias psicoativas;

  • Confusão mental por causas clínicas (ex: hipoglicemia, infecção, traumatismo craniano);

  • Déficits cognitivos em idosos com delírios ou demência aguda.

Mas também pode ocorrer em pessoas sem alterações clínicas, como:

  • Acompanhantes exaltados;

  • Pacientes insatisfeitos com o tempo de espera;

  • Usuários com dificuldade em lidar com regras e limites institucionais;

  • Reações emocionais intensas em situações de estresse, luto ou dor.

⚠️ Em todos os casos, o foco da triagem deve ser garantir a segurança do paciente, da equipe e dos demais presentes no local.


🔍 Como identificar comportamento disruptivo na triagem?

O profissional pode reconhecer como comportamento disruptivo:

  • Gritos, ofensas, xingamentos ou ameaças;

  • Tentativas de invadir áreas restritas;

  • Recusa em seguir orientações mínimas (ex: sentar, aguardar);

  • Comportamento agitado que impede a realização da triagem;

  • Tentativas de agredir fisicamente a equipe, outros pacientes ou acompanhantes;

  • Destruição de materiais, equipamentos ou estruturas da unidade;

  • Episódios de exposição indevida, desinibição ou agressividade sexual;

  • Crises de agitação psicomotora, mesmo sem agressividade explícita.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Comportamento Disruptivo” pode ser aplicado nos seguintes fluxogramas:

  • Problema comportamental

  • Alteração do estado mental

  • Paciente psiquiátrico conhecido

  • Situações com risco de auto ou heteroagressividade

  • Paciente agitado/agressivo

  • Paciente com distúrbios por substâncias psicoativas


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Comportamento disruptivo com:

    • Risco iminente de agressão física a terceiros ou a si mesmo;

    • Agitação psicomotora grave com potencial de lesão corporal;

    • Necessidade de contenção física ou farmacológica imediata;

    • Presença de delírios, alucinações ou confusão severa com agitação intensa.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Comportamento agitado, agressivo verbalmente, mas ainda controlável;

  • Paciente que não coopera com o atendimento, mas sem agressividade física iminente;

  • Presença de histórico psiquiátrico com quadro descompensado;

  • Situação de ameaça verbal explícita ou intimidação.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Comportamento inquieto, impaciente, desorganizado ou falante em excesso;

  • Episódios de choro intenso, irritação, inquietação verbal, sem riscos claros imediatos;

  • Paciente psiquiátrico conhecido, com comportamento inadequado, porém não agressivo;

  • Conflitos com outros pacientes ou acompanhantes, mas ainda dentro do controle verbal.

❗ Em qualquer caso, a segurança da equipe e dos demais pacientes deve ser prioridade absoluta. Se houver dúvidas quanto ao risco, classificar com a prioridade mais alta compatível com o comportamento.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 34 anos, conhecido da equipe por uso abusivo de crack, chega gritando, se debatendo, recusando atendimento e ameaçando quebrar cadeiras da recepção. Não responde a comandos verbais e tenta sair correndo para o estacionamento.

➡️ Fluxograma: “Problema comportamental”;
➡️ Discriminador: “Comportamento Disruptivo”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato + segurança acionada.


Situação 2:
Mulher de 50 anos reclama em voz alta da espera, levanta repetidamente da cadeira, tenta entrar na sala da triagem sem autorização, mas não demonstra agressividade física. Aparenta estar ansiosa e exigente.

➡️ Fluxograma: “Alteração do estado mental” ou “Problema comportamental”;
➡️ Discriminador: “Comportamento Disruptivo”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


Situação 3:
Adolescente de 17 anos chega acompanhado da mãe, está inquieto, andando pela recepção, falando alto, tentando sair do local várias vezes, mas sem agressividade. Mãe relata que ele tem esquizofrenia e parou a medicação.

➡️ Fluxograma: “Paciente psiquiátrico conhecido”;
➡️ Discriminador: “Comportamento Disruptivo”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos, com observação constante.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar nível de consciência e padrão de fala (coerente? agressivo? delirante?);

  • Observar risco de agressão física ou verbal;

  • Solicitar apoio da equipe de segurança, se necessário;

  • Evitar confrontos diretos, mantendo comunicação calma e clara;

  • Encaminhar o paciente para área segura e isolada, se disponível;

  • Priorizar a triagem rápida e acionar equipe médica para avaliação imediata nos casos de risco;

  • Registrar com detalhes o comportamento observado, a conduta adotada e se houve envolvimento da segurança institucional.


✅ Conclusão

O discriminador “Comportamento Disruptivo” é uma ferramenta essencial para proteger o ambiente hospitalar, garantir a fluidez dos atendimentos e preservar a integridade física e emocional de todos os envolvidos.

Reconhecer e classificar corretamente esse tipo de comportamento garante que o paciente receba o cuidado necessário (inclusive psiquiátrico, se for o caso), ao mesmo tempo em que previne situações de violência, caos institucional e riscos legais para a equipe e a instituição.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:39