24 - Compromisso da Via Aérea
Compromisso da Via Aérea
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco respiratório
A manutenção da via aérea permeável é a primeira prioridade em qualquer atendimento de urgência ou emergência, pois sem passagem adequada de ar, ocorre rapidamente hipóxia, rebaixamento do nível de consciência e, em última instância, parada cardiorrespiratória.
O discriminador “Compromisso da Via Aérea” no Protocolo de Manchester se refere à obstrução real ou iminente da via aérea superior, exigindo reconhecimento imediato e ação rápida da equipe de enfermagem e suporte avançado de vida.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Compromisso da via aérea:
A via aérea pode estar comprometida quando o paciente:
– Não consegue mantê-la aberta por si próprio;
– Perde os reflexos protetores das vias aéreas (como tosse e deglutição), o que aumenta o risco de aspiração;
– Apresenta obstrução parcial ou total, identificável por sons respiratórios anormais, como:
➤ Ressonar (estridor inspiratório ou ruído áspero);
➤ Gorgolejo (presença de secreção que não é eliminada);
➤ Silêncio respiratório (em obstruções graves).
🧠 Importância clínica do compromisso da via aérea
Esse quadro pode levar rapidamente à falência ventilatória, por isso é considerado emergência absoluta. Pode ocorrer em situações como:
-
Rebaixamento do nível de consciência (coma, overdose, convulsão prolongada);
-
Obstrução mecânica (corpo estranho, alimentos, vômito, sangue);
-
Infecções graves da via aérea superior (epiglotite, abscesso retrofaríngeo);
-
Edema de glote por anafilaxia ou trauma;
-
Tumores ou massas compressivas;
-
Crise de asma ou broncoespasmo grave com colapso das vias aéreas.
⚠️ A incapacidade de manter a via aérea aberta pode ser intermitente ou silenciosa, especialmente em pacientes sonolentos, com sons como roncos ou gorgolejos sendo os primeiros indícios de obstrução iminente.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
O enfermeiro deve observar atentamente o padrão respiratório e a capacidade do paciente de manter a própria via aérea. Sinais clínicos incluem:
1. Sons respiratórios anormais:
-
Ressonar: ruído semelhante a ronco, muitas vezes associado à queda da base da língua em pacientes sonolentos;
-
Gorgolejo: presença de secreções não deglutidas (saliva, vômito, sangue) audíveis na inspiração ou expiração;
-
Estridor: som agudo ao inspirar, típico de obstrução de via aérea superior;
-
Ausência de som respiratório (silêncio torácico): sinal de obstrução total.
2. Incidência de aspiração:
-
Vômito visível na orofaringe;
-
Perda do reflexo de tosse;
-
Presença de saliva acumulada na boca sem deglutição.
3. Alteração de consciência:
-
ECG (Escala de Coma de Glasgow) < 14;
-
Paciente que não responde adequadamente a estímulos e não protege sua própria via aérea.
❗A simples presença de som de gorgolejo ou ronco intenso já indica obstrução parcial e exige ação imediata.
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Compromisso da Via Aérea” pode ser utilizado nos fluxogramas:
-
Dificuldade respiratória
-
Colapso
-
Alteração do estado mental
-
Convulsão atual (fase pós-ictal)
-
Traumatismo facial ou cervical
-
Reação alérgica (edema de glote)
-
Paciente encontrado inconsciente
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
-
Qualquer paciente com:
-
Ressonar audível (sugestivo de obstrução da orofaringe);
-
Gorgolejo com secreções visíveis, sem capacidade de tossir;
-
Glasgow < 12 com vômitos ou secreções na cavidade oral;
-
Obstrução total da via aérea (não fala, não respira, movimentos de gasping);
-
Estridor em repouso com esforço respiratório;
-
Silêncio torácico, cianose ou queda de saturação < 90%.
-
📌 Este discriminador sempre indica classificação vermelha. Nenhuma situação de compromisso de via aérea deve aguardar para ser atendida.
📋 Exemplo clínico aplicado
Situação 1:
Homem de 50 anos é trazido inconsciente. Apresenta Glasgow 9, ronca intensamente ao respirar e há secreção na boca. Saturação: 88%, pulso rápido. Respiração irregular e superficial.
➡️ Fluxograma: “Colapso” ou “Alteração do estado mental”;
➡️ Discriminador: “Compromisso da Via Aérea”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato, via aérea deve ser protegida com oxigênio, aspiração e possível IOT.
Situação 2:
Criança de 4 anos com histórico de alergia alimentar apresenta edema facial, respiração com estridor, fala difícil e sialorreia (salivação excessiva). Está em pânico e com esforço respiratório visível.
➡️ Fluxograma: “Reação alérgica”;
➡️ Discriminador: “Compromisso da Via Aérea”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato, risco de obstrução total por edema de glote.
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
-
Avaliar nível de consciência e sons respiratórios imediatamente;
-
Posicionar o paciente com a cabeça lateralizada ou em elevação, se possível, para evitar aspiração;
-
Remover secreções visíveis com compressa ou aspiração rápida, se disponível;
-
Iniciar oxigenoterapia de alto fluxo;
-
Acionar a equipe médica e suporte avançado de vida imediatamente;
-
Preparar material para intubação ou via aérea alternativa, se for protocolo da unidade;
-
Registrar o horário, os sinais clínicos, o Glasgow e toda a conduta tomada.
✅ O que aprendemos
O discriminador “Compromisso da Via Aérea” representa risco vital iminente. Sua correta identificação na triagem garante que o paciente receba intervenção emergencial imediata, com medidas que podem ser decisivas para a sobrevivência.
A atuação da equipe de enfermagem nesse cenário deve ser rápida, fundamentada e precisa, respeitando o princípio da ABC da vida: A (airway) – manter a via aérea aberta.