Compromisso da Via Aérea

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco respiratório

A manutenção da via aérea permeável é a primeira prioridade em qualquer atendimento de urgência ou emergência, pois sem passagem adequada de ar, ocorre rapidamente hipóxia, rebaixamento do nível de consciência e, em última instância, parada cardiorrespiratória.

O discriminador “Compromisso da Via Aérea” no Protocolo de Manchester se refere à obstrução real ou iminente da via aérea superior, exigindo reconhecimento imediato e ação rápida da equipe de enfermagem e suporte avançado de vida.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Compromisso da via aérea:
A via aérea pode estar comprometida quando o paciente:
Não consegue mantê-la aberta por si próprio;
Perde os reflexos protetores das vias aéreas (como tosse e deglutição), o que aumenta o risco de aspiração;
– Apresenta obstrução parcial ou total, identificável por sons respiratórios anormais, como:
Ressonar (estridor inspiratório ou ruído áspero);
Gorgolejo (presença de secreção que não é eliminada);
Silêncio respiratório (em obstruções graves).


🧠 Importância clínica do compromisso da via aérea

Esse quadro pode levar rapidamente à falência ventilatória, por isso é considerado emergência absoluta. Pode ocorrer em situações como:

  • Rebaixamento do nível de consciência (coma, overdose, convulsão prolongada);

  • Obstrução mecânica (corpo estranho, alimentos, vômito, sangue);

  • Infecções graves da via aérea superior (epiglotite, abscesso retrofaríngeo);

  • Edema de glote por anafilaxia ou trauma;

  • Tumores ou massas compressivas;

  • Crise de asma ou broncoespasmo grave com colapso das vias aéreas.

⚠️ A incapacidade de manter a via aérea aberta pode ser intermitente ou silenciosa, especialmente em pacientes sonolentos, com sons como roncos ou gorgolejos sendo os primeiros indícios de obstrução iminente.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

O enfermeiro deve observar atentamente o padrão respiratório e a capacidade do paciente de manter a própria via aérea. Sinais clínicos incluem:

1. Sons respiratórios anormais:

  • Ressonar: ruído semelhante a ronco, muitas vezes associado à queda da base da língua em pacientes sonolentos;

  • Gorgolejo: presença de secreções não deglutidas (saliva, vômito, sangue) audíveis na inspiração ou expiração;

  • Estridor: som agudo ao inspirar, típico de obstrução de via aérea superior;

  • Ausência de som respiratório (silêncio torácico): sinal de obstrução total.

2. Incidência de aspiração:

  • Vômito visível na orofaringe;

  • Perda do reflexo de tosse;

  • Presença de saliva acumulada na boca sem deglutição.

3. Alteração de consciência:

  • ECG (Escala de Coma de Glasgow) < 14;

  • Paciente que não responde adequadamente a estímulos e não protege sua própria via aérea.

❗A simples presença de som de gorgolejo ou ronco intenso já indica obstrução parcial e exige ação imediata.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Compromisso da Via Aérea” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Dificuldade respiratória

  • Colapso

  • Alteração do estado mental

  • Convulsão atual (fase pós-ictal)

  • Traumatismo facial ou cervical

  • Reação alérgica (edema de glote)

  • Paciente encontrado inconsciente


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Qualquer paciente com:

    • Ressonar audível (sugestivo de obstrução da orofaringe);

    • Gorgolejo com secreções visíveis, sem capacidade de tossir;

    • Glasgow < 12 com vômitos ou secreções na cavidade oral;

    • Obstrução total da via aérea (não fala, não respira, movimentos de gasping);

    • Estridor em repouso com esforço respiratório;

    • Silêncio torácico, cianose ou queda de saturação < 90%.

📌 Este discriminador sempre indica classificação vermelha. Nenhuma situação de compromisso de via aérea deve aguardar para ser atendida.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 50 anos é trazido inconsciente. Apresenta Glasgow 9, ronca intensamente ao respirar e há secreção na boca. Saturação: 88%, pulso rápido. Respiração irregular e superficial.

➡️ Fluxograma: “Colapso” ou “Alteração do estado mental”;
➡️ Discriminador: “Compromisso da Via Aérea”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato, via aérea deve ser protegida com oxigênio, aspiração e possível IOT.


Situação 2:
Criança de 4 anos com histórico de alergia alimentar apresenta edema facial, respiração com estridor, fala difícil e sialorreia (salivação excessiva). Está em pânico e com esforço respiratório visível.

➡️ Fluxograma: “Reação alérgica”;
➡️ Discriminador: “Compromisso da Via Aérea”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato, risco de obstrução total por edema de glote.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar nível de consciência e sons respiratórios imediatamente;

  • Posicionar o paciente com a cabeça lateralizada ou em elevação, se possível, para evitar aspiração;

  • Remover secreções visíveis com compressa ou aspiração rápida, se disponível;

  • Iniciar oxigenoterapia de alto fluxo;

  • Acionar a equipe médica e suporte avançado de vida imediatamente;

  • Preparar material para intubação ou via aérea alternativa, se for protocolo da unidade;

  • Registrar o horário, os sinais clínicos, o Glasgow e toda a conduta tomada.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Compromisso da Via Aérea” representa risco vital iminente. Sua correta identificação na triagem garante que o paciente receba intervenção emergencial imediata, com medidas que podem ser decisivas para a sobrevivência.

A atuação da equipe de enfermagem nesse cenário deve ser rápida, fundamentada e precisa, respeitando o princípio da ABC da vida: A (airway) – manter a via aérea aberta.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:44