Contaminação de Ferimentos

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco em ferimentos abertos

Ferimentos são uma das principais causas de procura por atendimento em unidades de urgência. Embora muitos sejam simples e de fácil resolução, outros exigem atenção especial devido ao risco de infecção, tétano, necrose e complicações locais ou sistêmicas.

O discriminador “Contaminação de Ferimentos”, previsto no Protocolo de Manchester, tem como objetivo classificar corretamente os pacientes que apresentam lesões abertas com presença de corpos estranhos, o que exige cuidados imediatos de limpeza, avaliação médica e profilaxia infecciosa.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Contaminação de Ferimentos:
Qualquer ferimento que contenha matéria extrínseca de qualquer tipo (areia, terra, vidro, lascas, metais, detritos, secreções, entre outros) é considerado contaminado.

Ou seja, a presença de qualquer elemento estranho visível ou relatado dentro da ferida já caracteriza a contaminação e justifica a aplicação do discriminador, mesmo que o ferimento não seja extenso ou profundo.


🧠 Importância clínica da contaminação de feridas

Feridas contaminadas representam risco aumentado de infecção local, tétano, celulite, abscessos e até sepse. A gravidade aumenta em:

  • Pacientes imunossuprimidos, diabéticos ou com doença vascular;

  • Ferimentos profundos em articulações, face, pés ou mãos;

  • Lesões causadas por mordeduras humanas ou animais;

  • Ferimentos por materiais enferrujados ou sujos (ex: arame, vidro de solo, ferramentas);

  • Situações onde não se sabe se o paciente está vacinado contra o tétano.

⚠️ O risco infeccioso não depende do tamanho da ferida, mas sim da presença e tipo de contaminante, além do tempo decorrido desde o trauma.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  • Observar a presença de sujeiras visíveis na lesão: areia, terra, cascalho, pedaços de vidro, madeiras, ferrugem, secreções;

  • Questionar o paciente sobre o mecanismo da lesão:

    • “Você caiu onde?”

    • “Tinha vidro, terra ou algo sujo no local?”

    • “Foi mordido por algum animal?”

  • Avaliar:

    • Localização e profundidade da ferida;

    • Presença de sangramento, odor fétido, pus ou secreção purulenta;

    • Sinais de infecção ou necrose em feridas antigas contaminadas.

📌 Ferimentos provocados por acidentes em ambientes contaminados (ex: canteiros de obra, estrada de terra, esgoto, lixo) devem ser classificados como contaminados mesmo sem inspeção direta.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Contaminação de Ferimentos” pode ser aplicado nos fluxogramas:

  • Feridas e lacerações

  • Mordidas humanas ou animais

  • Corpo estranho

  • Trauma em membro superior ou inferior

  • Ferimentos em pé ou mão

  • Queimaduras e lesões por agentes químicos (se houver detritos na ferida)


🎯 Classificação de risco por cores

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Ferimento contaminado com:

    • Exposição de estruturas profundas (tendões, músculos, ossos);

    • Presença de corpo estranho visível ou penetrado;

    • Lesão em área de alto risco (mão, pé, articulação, face, olhos);

    • Risco de infecção grave, sinais sistêmicos ou comprometimento funcional.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Ferida com sujeira visível, mas:

    • Lesão superficial;

    • Sem sangramento ativo importante;

    • Sem sinais de infecção ou necrose;

    • Localizada em área de menor risco;

    • Paciente com esquema vacinal atualizado.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Ferida limpa, já lavada pelo paciente, com mínima contaminação;

  • Pequena abrasão com presença de poeira leve;

  • Sem sinais de infecção e com boa aparência geral.

❗ Em todos os casos de contaminação, deve-se considerar necessidade de avaliação médica para limpeza profunda, retirada de corpo estranho, antibióticos e vacina antitetânica.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 30 anos sofreu queda em estrada de terra, apresentando escoriações no joelho com presença visível de areia, folhas e sangue coagulado. Queixa-se de dor e relata que não lavou o local adequadamente. Tem dúvida sobre vacina antitetânica.

➡️ Fluxograma: “Feridas e lacerações”;
➡️ Discriminador: “Contaminação de Ferimentos”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


Situação 2:
Jovem de 20 anos sofreu corte profundo na mão com vidro quebrado. Ferida com presença de fragmentos visíveis no local, sangramento ativo e dor intensa ao mover os dedos.

➡️ Fluxograma: “Ferida em mão”;
➡️ Discriminador: “Contaminação de Ferimentos”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Realizar inspeção cuidadosa da ferida, sem aprofundar exame invasivo;

  • Observar e registrar a presença de materiais estranhos visíveis;

  • Questionar sobre ambiente da lesão (terra, esgoto, animais, materiais sujos);

  • Verificar data da última dose de vacina antitetânica;

  • Avaliar sinais de infecção: calor local, vermelhidão, pus, odor;

  • Encaminhar para atendimento médico com prioridade conforme risco;

  • Registrar tipo de contaminante e tempo desde a ocorrência do trauma.


✅ Conclusão

O discriminador “Contaminação de Ferimentos” é fundamental para identificar precocemente os riscos infecciosos e funcionais associados a feridas abertas.

Sua correta aplicação permite a classificação adequada da urgência, evita infecções graves, reduz complicações tardias e garante que o paciente receba tratamento preventivo eficaz, incluindo vacinação, antibióticos e cuidados com o ferimento.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:50