Couro Cabeludo Doloroso

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco vascular e neurológico

A dor localizada no couro cabeludo, especialmente sobre a região temporal, pode ser um sinal precoce de uma condição clínica grave, como a arterite temporal (ou arterite de células gigantes) — uma vasculite que acomete artérias de médio e grande calibre, particularmente a artéria temporal superficial, com risco de cegueira irreversível se não for tratada rapidamente.

O Protocolo de Manchester, atento à relevância desse sintoma, incluiu o discriminador “Couro Cabeludo Doloroso”, principalmente para pacientes idosos, onde a dor à palpação da artéria temporal pode indicar uma condição emergencial e tempo-dependente.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Couro Cabeludo Doloroso:
Dor à palpação da região temporal, especialmente sobre uma artéria.

Ou seja, quando o paciente refere dor localizada na lateral da cabeça, com sensibilidade aumentada ao toque ou à pressão no couro cabeludo, sobretudo sobre o trajeto da artéria temporal, o discriminador deve ser considerado.


🧠 Importância clínica: possível indicação de arterite temporal

A arterite temporal, também chamada de arterite de células gigantes, é uma vasculite crônica que ocorre principalmente em pacientes com mais de 50 anos e pode se manifestar inicialmente com:

  • Dor em região temporal (geralmente unilateral);

  • Sensibilidade no couro cabeludo, ao pentear o cabelo ou encostar;

  • Cefaleia nova ou diferente do padrão habitual;

  • Claudicação mandibular (dor ao mastigar);

  • Febre de origem indeterminada;

  • Sintomas visuais (visão embaçada, escotomas, perda visual súbita);

  • Sintomas sistêmicos (fadiga, perda de peso, sudorese noturna).

⚠️ O risco de perda visual súbita e irreversível é elevado se o tratamento com corticosteroides não for iniciado precocemente.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  • Questionar a localização e o tipo de dor na cabeça:

    • “A dor é mais na lateral da cabeça?”

    • “Dói ao tocar, escovar o cabelo ou apoiar a cabeça?”

  • Palpar suavemente a região temporal, sentindo a artéria (que pode estar endurecida ou espessada);

  • Observar se o paciente:

    • Evita o toque nessa área;

    • Relata dor intensa ao leve toque (hiperestesia local);

    • Tem histórico de alterações visuais ou febre sem causa aparente.

Esse discriminador deve ser aplicado principalmente em pacientes com 50 anos ou mais, com dor recente na região temporal e hipersensibilidade à palpação.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Couro Cabeludo Doloroso” pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor de cabeça (cefaleia)

  • Alteração visual

  • Febre em adultos (sem foco aparente)

  • Paciente idoso com queixa inespecífica


🎯 Classificação de risco por cores

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Dor intensa à palpação da região temporal com um ou mais dos seguintes sinais:

    • Sintomas visuais (visão embaçada, escurecida, diplopia);

    • Febre persistente sem causa clara;

    • Claudicação de mandíbula;

    • Fadiga intensa ou perda de peso inexplicada;

    • Histórico de arterite temporal ou polimialgia reumática.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Dor na região temporal, com sensibilidade à palpação, sem sinais visuais ou sistêmicos associados;

  • Paciente em bom estado geral, mas com queixa recente e incomum de dor localizada no couro cabeludo;

  • Sem fatores de risco adicionais, porém com idade superior a 50 anos.

❗ Qualquer paciente com suspeita de arterite temporal e sintoma visual associado deve ser priorizado para atendimento imediato.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Mulher de 68 anos refere dor súbita na lateral direita da cabeça há dois dias, com piora ao pentear o cabelo. Relata visão embaçada no olho direito e sensação de "peso" ao mastigar. Na palpação, apresenta dor intensa na artéria temporal.

➡️ Fluxograma: “Dor de cabeça”;
➡️ Discriminador: “Couro Cabeludo Doloroso”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (suspeita de arterite temporal com risco visual).


Situação 2:
Homem de 55 anos chega à UPA com dor leve na lateral da cabeça, sem sintomas visuais ou febre. Refere sensibilidade leve ao toque no couro cabeludo, iniciada há 1 dia, mas está ativo e orientado.

➡️ Fluxograma: “Dor de cabeça”;
➡️ Discriminador: “Couro Cabeludo Doloroso”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar com precisão a localização e qualidade da dor;

  • Palpar suavemente a região temporal bilateral e observar reação à pressão;

  • Questionar sobre alterações visuais, febre, fadiga ou outros sintomas sistêmicos;

  • Registrar a intensidade da dor, lateralidade e resposta à palpação;

  • Encaminhar para atendimento médico prioritário, especialmente se houver risco de comprometimento visual;

  • Orientar o paciente a evitar pressão sobre o local até avaliação.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Couro Cabeludo Doloroso” representa um alerta precoce para vasculites cranianas, como a arterite temporal, que são doenças tempo-dependentes e com potencial de provocar cegueira irreversível se não tratadas de imediato.

A correta aplicação desse discriminador permite ao enfermeiro classificador atuar com excelência clínica, garantindo que pacientes com queixas aparentemente simples sejam priorizados adequadamente quando há risco real envolvido.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:52