Criança Não Reativa

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação de risco neurológico em pediatria

A reatividade da criança é um dos parâmetros mais importantes na avaliação inicial em urgências pediátricas. Crianças saudáveis geralmente são ativas, curiosas e respondem prontamente aos estímulos ambientais, mesmo quando estão doentes. Quando uma criança não reage a estímulos verbais ou dolorosos, esse comportamento é considerado anormal e indica uma emergência neurológica ou metabólica grave.

O Protocolo de Manchester, atento à gravidade dessa situação, inclui o discriminador “Criança Não Reativa” como sinal de alerta máximo, exigindo atendimento imediato e suporte avançado de vida, quando necessário.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Criança Não Reativa:
Crianças que não reagem a estímulos verbais ou dolorosos são consideradas não reativas.

Esse discriminador deve ser aplicado independentemente da causa aparente. O que importa na triagem é a condição neurológica observada no momento da avaliação.


🧠 Importância clínica da não reatividade em crianças

A ausência de resposta a estímulos em crianças pode ser causada por:

  • Estado de coma (por trauma, infecção, distúrbios metabólicos, intoxicação);

  • Crise convulsiva contínua ou pós-ictal profunda;

  • Meningite ou encefalite;

  • Sepse grave com encefalopatia séptica;

  • Hipoglicemia severa ou distúrbios eletrolíticos;

  • Parada cardiorrespiratória iminente ou recente;

  • Sinais de maus-tratos ou trauma crânio-encefálico.

⚠️ Crianças que não reagem a estímulos estão em risco iminente de morte ou sequelas neurológicas. A reação a estímulos é um parâmetro essencial da avaliação primária.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o profissional deve:

  1. Falar com a criança em tom claro, chamando pelo nome:

    • “Olá! Tudo bem?”

    • “Você sabe onde está?”

    • “Me mostra sua mão?”

  2. Observar a resposta verbal ou motora:

    • A criança olha, vocaliza, chora ou se movimenta?

  3. Se não houver resposta, aplicar um estímulo doloroso leve, como:

    • Pressão na base da unha;

    • Compressão do trapézio;

    • Fricção esternal.

  4. Avaliar:

    • Movimentos espontâneos ou estímulo-resposta?

    • Abertura ocular?

    • Vocalização ou choro?

    • Reações motoras defensivas?

Se a criança não apresentar nenhuma resposta significativa, ela deve ser considerada não reativa.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Criança Não Reativa” pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Colapso

  • Paciente pediátrico doente

  • Alteração do estado mental

  • Convulsão atual ou recente

  • Febre em crianças (se houver suspeita de meningite ou sepse)

  • Trauma cranioencefálico pediátrico


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Criança inconsciente, sem resposta a qualquer estímulo verbal ou doloroso;

  • ECG (Escala de Coma de Glasgow) pediátrica ≤ 8;

  • Ausência de choro, movimentos ou resposta ao toque;

  • Respiração irregular, superficial ou ausente;

  • Pele pálida, marmórea ou cianótica;

  • Presença de secreções na boca sem reflexo de tosse.

Todo paciente classificado com esse discriminador deve ser atendido imediatamente, com suporte avançado e equipe completa.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Lactente de 8 meses é trazido pela mãe após episódio de febre alta e convulsão há 20 minutos. Chega sonolento, com olhos semicerrados, sem choro, sem resposta ao chamado ou ao toque. ECG estimada: 6. Respiração superficial. Saturação: 90%.

➡️ Fluxograma: “Convulsão atual”;
➡️ Discriminador: “Criança Não Reativa”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato.


Situação 2:
Criança de 3 anos, diabética, encontrada em berço em sono profundo, não acorda com voz dos pais. Apresenta glicemia capilar de 37 mg/dL, não reage à fricção esternal.

➡️ Fluxograma: “Paciente pediátrico doente”;
➡️ Discriminador: “Criança Não Reativa”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar nível de consciência com estímulo verbal e doloroso;

  • Verificar sinais vitais completos, com atenção à FR, FC, saturação e temperatura;

  • Realizar glicemia capilar imediatamente;

  • Iniciar oxigenoterapia com máscara ou cateter nasal, se necessário;

  • Manter vias aéreas livres e posicionamento lateral de segurança, caso haja secreções;

  • Acionar a equipe médica imediatamente;

  • Preparar material para suporte avançado (oxímetro, acesso venoso, medicamentos);

  • Registrar o nível de resposta, Glasgow, sinais vitais e tempo de início dos sintomas.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Criança Não Reativa” representa uma das prioridades máximas na triagem pediátrica. Crianças que não reagem a estímulos devem ser imediatamente avaliadas, monitoradas e assistidas por equipe médica, pois estão em risco iminente de morte ou sequelas neurológicas irreversíveis.

A atuação do enfermeiro classificador deve ser rápida, precisa e baseada em protocolos de emergência, assegurando um atendimento humanizado e tecnicamente seguro.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 18:57