Doente que Anda

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação em incidentes de múltiplas vítimas

Em situações de emergência com múltiplos pacientes envolvidos — como acidentes com veículos, incêndios, desabamentos ou outros desastres com múltiplas vítimas — é necessário utilizar critérios objetivos e rápidos para determinar prioridades de atendimento.

Nesses contextos, o Protocolo de Manchester reconhece o discriminador “Doente que Anda” como um indicador prático de baixa gravidade imediata, considerando que a capacidade de deambular voluntariamente sugere que o paciente não apresenta, naquele momento, risco de morte iminente.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Doente que Anda:
Em um incidente grave, qualquer paciente que seja capaz de andar por conta própria preenche este critério.

Este discriminador é especialmente útil em cenários de triagem de massa, onde a prioridade é identificar rapidamente os pacientes que necessitam de atendimento imediato versus os que podem esperar com segurança por avaliação secundária.


🧠 Importância clínica da capacidade de deambular

A habilidade de caminhar de forma independente, mesmo que com dor ou desconforto, indica que:

  • O paciente tem função neurológica preservada;

  • Não há comprometimento circulatório severo;

  • Não há lesão respiratória aguda grave;

  • O nível de consciência e perfusão cerebral estão adequados;

  • O paciente possui estabilidade ortostática mínima.

⚠️ No entanto, isso não descarta a presença de lesões importantes, por isso a reavaliação clínica completa deve ser feita assim que possível.


🛠️ Aplicação prática do discriminador

Este discriminador é aplicado principalmente em:

  • Cenas de incidentes com múltiplas vítimas (IMV);

  • Catástrofes naturais, incêndios ou desabamentos;

  • Acidentes de trânsito com múltiplos passageiros feridos;

  • Emergências hospitalares com superlotação ou evacuação.

Nesses casos, adota-se o sistema de triagem rápida (como START), onde os pacientes são inicialmente classificados com base em critérios simples, como:

  • Capacidade de andar;

  • Respiração espontânea;

  • Perfusão (tempo de enchimento capilar);

  • Resposta ao comando verbal.

O paciente que anda por conta própria é, de início, classificado como prioridade 3 (menor urgência), e recebe avaliação clínica posterior mais detalhada.


🎯 Classificação de risco por cores

Em triagens de emergência com múltiplas vítimas, o “Doente que Anda” costuma receber:

🟢 Verde – Atendimento dentro de 120 a 240 minutos

  • Paciente consciente, orientado, que se desloca autonomamente;

  • Sem sangramentos ativos importantes;

  • Queixas leves ou moderadas (ex: dor em membro, escoriações);

  • Ausência de sinais de instabilidade vital.

❗ Após triagem inicial, esses pacientes devem ser reavaliados clinicamente em local seguro, pois podem apresentar lesões ocultas, traumas fechados ou fraturas estáveis que não impedem a locomoção.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Acidente de ônibus intermunicipal com 20 passageiros. Uma mulher de 35 anos sai do veículo andando, com escoriações no braço e joelho, referindo dor leve no tornozelo, mas conseguindo caminhar normalmente.

➡️ Contexto: Incidente com múltiplas vítimas;
➡️ Discriminador: “Doente que Anda”;
➡️ Classificação: verde – atendimento após estabilização de vítimas críticas.


Situação 2:
Homem de 50 anos caminha até a triagem após evacuação de prédio em incêndio. Está ofegante, mas consciente, orientado, andando por conta própria, com leve tosse e sem sinais de queimaduras visíveis.

➡️ Contexto: Emergência em massa (incêndio);
➡️ Discriminador: “Doente que Anda”;
➡️ Classificação inicial: verde – mas exige avaliação posterior para inalação de fumaça.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Determinar se o paciente consegue caminhar sem ajuda (mesmo que com leve desconforto);

  • Observar marcha, equilíbrio e nível de consciência;

  • Identificar sinais de dores referidas, sangramentos leves, lesões abertas ou fraturas suspeitas;

  • Anotar dados mínimos (nome, idade, queixas principais) e encaminhar para área de espera segura;

  • Reavaliar periodicamente, especialmente se:

    • Apresentar sinais de piora (vômitos, tontura, rebaixamento);

    • Tiver condições clínicas pré-existentes (cardíacas, respiratórias, neurológicas).


✅ Conclusão

O discriminador “Doente que Anda” é uma ferramenta essencial em cenários de triagem em massa, pois permite ao profissional de saúde organizar rapidamente os atendimentos, priorizando os casos graves.

Embora esses pacientes, inicialmente, pareçam estáveis, reavaliações clínicas são indispensáveis para garantir que nenhuma lesão oculta ou descompensação tardia passe despercebida.

A correta aplicação desse discriminador ajuda a garantir uma triagem eficiente, segura e baseada em evidências, especialmente em situações de grande estresse e alta demanda assistencial.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:07