37 - Dor que Irradia para o Ombro
Dor que Irradia para o Ombro
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em dor torácica e abdominal
A dor que irradia para o ombro, principalmente para a extremidade do ombro (ápice), é um sinal clínico de irritação do diafragma — uma estrutura anatômica que compartilha conexões nervosas com a região cervical (C3 a C5).
Esse tipo de dor pode indicar processos patológicos intra-abdominais ou torácicos graves, e sua identificação precoce na triagem é essencial, pois pode preceder complicações como hemorragia interna, perfuração de vísceras, trauma torácico ou patologias cardíacas.
No Protocolo de Manchester, esse sinal é considerado um discriminador específico e de alto valor clínico, devendo sempre ser associado ao contexto geral do paciente para uma correta priorização.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Dor que Irradia para o Ombro:
Dor sentida na extremidade do ombro, frequentemente associada à irritação do diafragma.
Essa dor não está relacionada diretamente a lesões articulares do ombro, mas sim à irradiação nervosa reflexa provocada por condições que envolvem o diafragma ou estruturas adjacentes.
🧠 Causas clínicas associadas à dor que irradia para o ombro
A dor referida para o ombro pode ocorrer em casos como:
🟤 Irritação do diafragma:
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Sangramento intra-abdominal (ex: ruptura de baço, gravidez ectópica rota);
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Inflamação subfrênica (ex: abscesso subfrênico);
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Perfuração gástrica com pneumoperitônio;
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Trauma toracoabdominal com lesão diafragmática;
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Pneumonia do lobo inferior com irritação pleural diafragmática;
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Pneumotórax de grande volume.
🔴 Outras condições relevantes:
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Infarto agudo do miocárdio (sobretudo parede inferior, irradiando para ombro esquerdo);
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Dissecção de aorta torácica;
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Embolia pulmonar (dor pleurítica + desconforto em ombro);
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Pancreatite aguda;
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Colecistite aguda com irradiação para escápula ou ombro direito.
⚠️ A presença desse tipo de dor deve alertar o enfermeiro classificador para a possibilidade de doença grave, mesmo que os sinais vitais estejam estáveis no momento da triagem.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o profissional deve:
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Perguntar sobre a irradiação da dor:
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“A dor vai para alguma outra parte do corpo?”
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“Você sente a dor subir para o ombro ou para as costas?”
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Verificar o lado da irradiação (direito ou esquerdo);
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Observar sinais clínicos associados:
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Dor abdominal ou torácica intensa;
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Palidez, sudorese, náuseas, vômitos;
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Taquicardia, hipotensão ou dispneia;
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Sangramento ginecológico em mulheres em idade fértil;
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Analisar o contexto (ex: paciente com trauma, gestante, histórico cardíaco ou abdominal).
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Dor que Irradia para o Ombro” pode ser aplicado nos seguintes fluxogramas:
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Dor abdominal
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Dor torácica
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Dor no quadrante superior direito
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Trauma abdominal ou torácico
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Gravidez ectópica ou ginecológica
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Colapso
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Dispneia aguda
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Dor que irradia para o ombro associada a:
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Instabilidade hemodinâmica (PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm);
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Trauma toracoabdominal com rebaixamento do nível de consciência;
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Dor abdominal súbita + sinais de choque;
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Suspeita de gravidez ectópica rota (dor + sangramento vaginal + síncope);
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Dispneia severa com dor torácica e irradiação.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Dor torácica ou abdominal com irradiação para ombro, sem instabilidade, mas com:
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Sinais de dor intensa (EVA 8-10);
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Palidez, sudorese ou náuseas;
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Taquicardia ou desconforto respiratório;
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Paciente gestante com dor em flanco ou fossa ilíaca.
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❗ A simples presença de dor irradiada para o ombro já indica risco aumentado, devendo ser classificada com no mínimo prioridade laranja.
📋 Exemplo clínico aplicado
Situação 1:
Mulher de 32 anos, em idade fértil, chega à UPA com dor abdominal súbita no quadrante inferior direito, irradiando para ombro direito. Refere atraso menstrual e sangramento vaginal discreto. PA 100/60 mmHg, FC 122 bpm.
➡️ Fluxograma: “Dor abdominal – ginecológica”;
➡️ Discriminador: “Dor que Irradia para o Ombro”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de gravidez ectópica rota).
Situação 2:
Homem de 45 anos com dor epigástrica forte, irradiando para ombro esquerdo, náuseas e sudorese. Sem vômitos. PA 120/80 mmHg, FC 98 bpm. ECG solicitado durante a triagem.
➡️ Fluxograma: “Dor torácica/epigástrica”;
➡️ Discriminador: “Dor que Irradia para o Ombro”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (possível IAM ou pancreatite).
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Questionar e descrever claramente a irradiação da dor;
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Avaliar sinais vitais completos e Escala de Dor (EVA);
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Verificar presença de fatores de risco: gravidez, trauma, IAM, Aneurisma, cirurgia abdominal recente;
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Observar sinais de sangramento oculto (hipotensão, palidez, taquicardia);
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Encaminhar o paciente com urgência para avaliação médica conforme a prioridade;
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Registrar:
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Local de origem da dor;
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Lado e extensão da irradiação;
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Sinais clínicos associados;
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Tempo de início e progressão da dor.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “Dor que Irradia para o Ombro” deve sempre acionar um sinal de alerta na triagem, pois está frequentemente relacionado a condições graves envolvendo o diafragma, o tórax ou o abdome superior, especialmente quando ocorre com sinais de instabilidade ou rebaixamento do nível de consciência.
A correta aplicação desse discriminador permite ao enfermeiro classificador priorizar pacientes com risco oculto de hemorragias internas ou eventos cardíacos, mesmo que os sintomas pareçam vagos ou inespecíficos inicialmente.