Dor que Irradia para o Ombro

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em dor torácica e abdominal

A dor que irradia para o ombro, principalmente para a extremidade do ombro (ápice), é um sinal clínico de irritação do diafragma — uma estrutura anatômica que compartilha conexões nervosas com a região cervical (C3 a C5).

Esse tipo de dor pode indicar processos patológicos intra-abdominais ou torácicos graves, e sua identificação precoce na triagem é essencial, pois pode preceder complicações como hemorragia interna, perfuração de vísceras, trauma torácico ou patologias cardíacas.

No Protocolo de Manchester, esse sinal é considerado um discriminador específico e de alto valor clínico, devendo sempre ser associado ao contexto geral do paciente para uma correta priorização.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Dor que Irradia para o Ombro:
Dor sentida na extremidade do ombro, frequentemente associada à irritação do diafragma.

Essa dor não está relacionada diretamente a lesões articulares do ombro, mas sim à irradiação nervosa reflexa provocada por condições que envolvem o diafragma ou estruturas adjacentes.


🧠 Causas clínicas associadas à dor que irradia para o ombro

A dor referida para o ombro pode ocorrer em casos como:

🟤 Irritação do diafragma:

  • Sangramento intra-abdominal (ex: ruptura de baço, gravidez ectópica rota);

  • Inflamação subfrênica (ex: abscesso subfrênico);

  • Perfuração gástrica com pneumoperitônio;

  • Trauma toracoabdominal com lesão diafragmática;

  • Pneumonia do lobo inferior com irritação pleural diafragmática;

  • Pneumotórax de grande volume.

🔴 Outras condições relevantes:

  • Infarto agudo do miocárdio (sobretudo parede inferior, irradiando para ombro esquerdo);

  • Dissecção de aorta torácica;

  • Embolia pulmonar (dor pleurítica + desconforto em ombro);

  • Pancreatite aguda;

  • Colecistite aguda com irradiação para escápula ou ombro direito.

⚠️ A presença desse tipo de dor deve alertar o enfermeiro classificador para a possibilidade de doença grave, mesmo que os sinais vitais estejam estáveis no momento da triagem.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o profissional deve:

  • Perguntar sobre a irradiação da dor:

    • “A dor vai para alguma outra parte do corpo?”

    • “Você sente a dor subir para o ombro ou para as costas?”

  • Verificar o lado da irradiação (direito ou esquerdo);

  • Observar sinais clínicos associados:

    • Dor abdominal ou torácica intensa;

    • Palidez, sudorese, náuseas, vômitos;

    • Taquicardia, hipotensão ou dispneia;

    • Sangramento ginecológico em mulheres em idade fértil;

  • Analisar o contexto (ex: paciente com trauma, gestante, histórico cardíaco ou abdominal).


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Dor que Irradia para o Ombro” pode ser aplicado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor abdominal

  • Dor torácica

  • Dor no quadrante superior direito

  • Trauma abdominal ou torácico

  • Gravidez ectópica ou ginecológica

  • Colapso

  • Dispneia aguda


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Dor que irradia para o ombro associada a:

    • Instabilidade hemodinâmica (PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm);

    • Trauma toracoabdominal com rebaixamento do nível de consciência;

    • Dor abdominal súbita + sinais de choque;

    • Suspeita de gravidez ectópica rota (dor + sangramento vaginal + síncope);

    • Dispneia severa com dor torácica e irradiação.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Dor torácica ou abdominal com irradiação para ombro, sem instabilidade, mas com:

    • Sinais de dor intensa (EVA 8-10);

    • Palidez, sudorese ou náuseas;

    • Taquicardia ou desconforto respiratório;

    • Paciente gestante com dor em flanco ou fossa ilíaca.

❗ A simples presença de dor irradiada para o ombro já indica risco aumentado, devendo ser classificada com no mínimo prioridade laranja.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Mulher de 32 anos, em idade fértil, chega à UPA com dor abdominal súbita no quadrante inferior direito, irradiando para ombro direito. Refere atraso menstrual e sangramento vaginal discreto. PA 100/60 mmHg, FC 122 bpm.

➡️ Fluxograma: “Dor abdominal – ginecológica”;
➡️ Discriminador: “Dor que Irradia para o Ombro”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de gravidez ectópica rota).


Situação 2:
Homem de 45 anos com dor epigástrica forte, irradiando para ombro esquerdo, náuseas e sudorese. Sem vômitos. PA 120/80 mmHg, FC 98 bpm. ECG solicitado durante a triagem.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica/epigástrica”;
➡️ Discriminador: “Dor que Irradia para o Ombro”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (possível IAM ou pancreatite).


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Questionar e descrever claramente a irradiação da dor;

  • Avaliar sinais vitais completos e Escala de Dor (EVA);

  • Verificar presença de fatores de risco: gravidez, trauma, IAM, Aneurisma, cirurgia abdominal recente;

  • Observar sinais de sangramento oculto (hipotensão, palidez, taquicardia);

  • Encaminhar o paciente com urgência para avaliação médica conforme a prioridade;

  • Registrar:

    • Local de origem da dor;

    • Lado e extensão da irradiação;

    • Sinais clínicos associados;

    • Tempo de início e progressão da dor.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Dor que Irradia para o Ombro” deve sempre acionar um sinal de alerta na triagem, pois está frequentemente relacionado a condições graves envolvendo o diafragma, o tórax ou o abdome superior, especialmente quando ocorre com sinais de instabilidade ou rebaixamento do nível de consciência.

A correta aplicação desse discriminador permite ao enfermeiro classificador priorizar pacientes com risco oculto de hemorragias internas ou eventos cardíacos, mesmo que os sintomas pareçam vagos ou inespecíficos inicialmente.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:10