Dor que Irradia para a Região Dorsal

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em dor torácica, abdominal ou vascular

A dor que irradia para a região dorsal (ou dorso, parte posterior do tronco) é um sintoma que não deve ser subestimado na triagem, pois pode estar associado a condições clínicas graves e tempo-dependentes, especialmente quando acompanhada de outros sinais de alerta.

O Protocolo de Manchester inclui este discriminador para sinalizar que, ao se irradiar para a região dorsal (mesmo que de forma intermitente), a dor pode estar relacionada a processos torácicos, abdominais ou vasculares com risco de vida, como dissecção de aorta, pancreatite aguda, infarto miocárdico ou perfurações gastrointestinais.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Dor que Irradia para a Região Dorsal:
Refere-se a qualquer dor que seja sentida também na região posterior do tronco (dorso), seja de forma intermitente ou constante.

A localização e o padrão de irradiação devem ser cuidadosamente avaliados, pois a presença de dor dorsal associada à dor torácica ou abdominal pode alterar a prioridade clínica do atendimento.


🧠 Condições clínicas associadas à dor irradiada para o dorso

🔴 Situações graves e tempo-dependentes:

  • Dissecção aguda de aorta torácica ou abdominal (dor intensa, súbita e em "rasgo");

  • Infarto agudo do miocárdio (sobretudo da parede posterior ou inferior);

  • Pancreatite aguda (dor epigástrica irradiada em faixa para o dorso);

  • Perfuração de úlcera gástrica ou duodenal;

  • Aneurisma de aorta abdominal roto;

  • Tromboembolismo pulmonar (dor pleurítica com irradiação posterior);

  • Cólicas renais ou biliares intensas (irradiação lombar ou em flanco).

🟡 Outras condições possíveis (menos urgentes):

  • Espasmos musculares intensos;

  • Hérnia de disco torácica ou lombar;

  • Gastrite, refluxo gastroesofágico com irradiação atípica;

  • Ansiedade com queixa somática torácica/dorsal;

  • Cólica menstrual com dor lombar posterior.

⚠️ Em pacientes idosos, diabéticos ou imunossuprimidos, os sintomas podem ser atípicos — por isso, toda dor irradiada para o dorso deve ser cuidadosamente avaliada.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  • Questionar sobre a localização e irradiação:

    • “A dor vai para as costas ou para a parte de trás do corpo?”

    • “É uma dor que passa para o meio das costas?”

  • Avaliar o tipo de dor:

    • Súbita e em “rasgo” (dissecção);

    • Contínua e profunda (pancreatite);

    • Em peso ou pressão (IAM);

  • Verificar sinais associados:

    • Sudorese, náuseas, vômitos, dispneia, rebaixamento do nível de consciência;

    • Alterações na pressão arterial ou pulso assimétrico;

    • Presença de febre e sinais de peritonite (abdome agudo).

💡 A dor dorsal secundária a causas viscerais é frequentemente referida, ou seja, percebida à distância da estrutura real afetada.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Dor que Irradia para a Região Dorsal” pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor torácica

  • Dor abdominal

  • Dor epigástrica

  • Pancreatite / Colecistite

  • Dissecção de aorta

  • Cólicas renais ou biliares

  • Dor lombar (com causas viscerais)


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Dor torácica ou abdominal com irradiação para o dorso +:

    • Dor súbita, intensa, descrita como “rasgando”;

    • Instabilidade hemodinâmica (PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm);

    • Rebaixamento de consciência;

    • Dispneia severa ou síncope;

    • Histórico de aneurisma, hipertensão grave ou cirurgia vascular.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Dor moderada a intensa irradiando para o dorso +:

    • Sinais de dor visceral (náusea, vômito, sudorese);

    • Suspeita de pancreatite, cálculo renal ou colecistite;

    • Dor contínua e progressiva sem instabilidade;

    • Idoso com dor atípica ou múltiplas comorbidades.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Dor leve a moderada, irradiada para o dorso;

  • Sem sinais de alarme ou alterações sistêmicas;

  • História compatível com dor muscular, ansiedade ou gastrite.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 66 anos, hipertenso, com dor torácica súbita, muito intensa, irradiada para dorso e região lombar. Sudorese intensa, PA 95/60 mmHg. ECG sem alterações. Sem trauma.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica”;
➡️ Discriminador: “Dor que Irradia para a Região Dorsal”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de dissecção de aorta).


Situação 2:
Mulher de 40 anos com dor epigástrica irradiada em faixa para o dorso, náuseas, vômitos e febre de 38,4 °C. Relata uso abusivo de álcool no fim de semana.

➡️ Fluxograma: “Dor abdominal alta / epigástrica”;
➡️ Discriminador: “Dor que Irradia para a Região Dorsal”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (suspeita de pancreatite).


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Questionar sobre o padrão e local de irradiação da dor;

  • Avaliar:

    • Sinais vitais completos (PA, FC, FR, SpO₂);

    • Escala de dor (EVA);

    • Presença de sudorese, vômitos, palidez ou rebaixamento de consciência;

  • Identificar pacientes com histórico de doenças cardiovasculares, aneurismas, hepatobiliares ou gastrointestinais;

  • Encaminhar para avaliação médica imediatamente, conforme gravidade;

  • Registrar:

    • Local de origem e irradiação da dor;

    • Tempo de início, intensidade e evolução;

    • Sinais clínicos associados.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Dor que Irradia para a Região Dorsal” é um importante indicador de risco aumentado na triagem, pois está frequentemente relacionado a condições clínicas graves, com necessidade de atendimento emergencial.

A correta aplicação por parte do enfermeiro classificador garante agilidade na condução dos casos críticos e evita que doenças tempo-dependentes passem despercebidas no momento inicial da avaliação.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:15