Dor Moderada

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de classificação com base na intensidade da dor

A dor é uma experiência subjetiva, multifatorial e profundamente pessoal, sendo uma das queixas mais comuns nos atendimentos de urgência. No contexto da triagem pelo Protocolo de Manchester, a dor deve ser avaliada e classificada de acordo com sua intensidade, impacto funcional e sinais associados, sempre com foco na segurança e humanização do atendimento.

O discriminador “Dor Moderada” foi estabelecido para reconhecer os casos em que o paciente apresenta uma dor significativa, que compromete o bem-estar, mas que ainda é suportável e não está associada a sinais imediatos de instabilidade.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Dor Moderada:
Dor significativa, mas suportável.
Deve ser avaliada com base na percepção do paciente e corroborada por sinais objetivos, sempre que possível.
Ver Capítulo 4 do protocolo, que aborda a avaliação da dor com uso de escalas padronizadas.

A dor moderada geralmente é classificada com EVA (Escala Visual Analógica) entre 5 e 7, onde:

  • EVA 0 = sem dor

  • EVA 1 a 3 = dor leve

  • EVA 4 a 7 = dor moderada

  • EVA 8 a 10 = dor intensa


🧠 Importância clínica da dor moderada

Embora não represente uma emergência imediata, a dor moderada deve ser valorizada como um marcador importante de sofrimento e, em alguns casos, pode ser o início de uma condição que irá progredir, como:

  • Apendicite em fase inicial

  • Pancreatite leve a moderada

  • Cólica renal ou biliar em fase intermediária

  • Processos inflamatórios articulares

  • Infecções urinárias

  • Traumas com fraturas estáveis

  • Abdome agudo não complicado ainda em desenvolvimento

⚠️ A dor moderada não deve ser subestimada, especialmente quando presente em idosos, crianças, gestantes e imunossuprimidos, que podem não expressar dor da mesma forma que adultos jovens e saudáveis.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o profissional deve:

  1. Perguntar ao paciente sobre a intensidade da dor:

    • "De 0 a 10, quanto está sua dor agora?"

    • "Está conseguindo suportar a dor ou ela está insuportável?"

    • "A dor piora com movimentos ou ao respirar?"

  2. Usar escalas apropriadas:

    • EVA (Escala Visual Analógica) de 0 a 10

    • Escala de Faces (em pediatria e pacientes com dificuldade de comunicação)

    • Escala verbal simples: leve, moderada, intensa

  3. Observar sinais comportamentais e clínicos:

    • Expressões faciais (caretas, tensão);

    • Postura antálgica (evita se movimentar ou tocar na área);

    • Palidez, sudorese discreta, fala pausada ou encurtada.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Dor Moderada” pode ser utilizado em praticamente todos os fluxogramas, incluindo:

  • Dor abdominal

  • Dor torácica

  • Dor lombar ou em coluna

  • Dor em articulações

  • Trauma em membros

  • Cólica renal ou biliar

  • Infecção urinária com disúria significativa

  • Infecções de pele ou abscessos com dor local


🎯 Classificação de risco por cores

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Dor significativa (EVA 5 a 7);

  • Paciente verbaliza dor com expressão compatível;

  • Sinais vitais estáveis;

  • Sem sinais de alarme (rebaixamento de consciência, instabilidade hemodinâmica, dispneia);

  • Situação controlável, mas que exige avaliação médica em tempo razoável.

❗ A dor moderada nunca deve ser classificada como verde ou azul sem avaliação contextual — a queixa de dor deve ser respeitada e reavaliada se houver mudança clínica.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Mulher de 36 anos com dor no quadrante inferior direito do abdome, EVA 6, náusea leve e dor contínua há 6 horas. Afebril, sem sinais peritoneais. Sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Dor abdominal”;
➡️ Discriminador: “Dor Moderada”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


Situação 2:
Homem de 52 anos com dor lombar após esforço físico. EVA 7. Sem irradiação para membros, afebril, andando normalmente, sinais vitais estáveis.

➡️ Fluxograma: “Dor lombar ou coluna”;
➡️ Discriminador: “Dor Moderada”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Aplicar escala de avaliação da dor (preferencialmente EVA);

  • Avaliar sinais vitais completos;

  • Observar e registrar expressões não verbais de dor;

  • Verificar se há histórico de dor crônica ou uso de analgésicos prévios;

  • Encaminhar para avaliação médica com base no grau de sofrimento;

  • Registrar:

    • Intensidade da dor;

    • Localização, irradiação e tipo da dor;

    • Fatores de alívio ou piora;

    • Sinais associados (náusea, vômito, febre, etc.).


✅ O que aprendemos

O discriminador “Dor Moderada” é um dos mais importantes na triagem pelo Protocolo de Manchester, pois permite identificar pacientes que, embora estáveis, estão em sofrimento significativo e precisam de avaliação médica em tempo adequado.

A correta aplicação desse discriminador promove uma triagem humanizada, ética e centrada na percepção do paciente, ajudando a garantir um fluxo de atendimento eficiente e respeitoso.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:16