Dor nas Articulações em Movimentação

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco osteoarticular

A dor articular provocada pelo movimento, seja ativo (movido pelo próprio paciente) ou passivo (induzido por outra pessoa, como o examinador), é um sinal clínico relevante, que pode indicar desde condições inflamatórias, traumáticas ou infecciosas até quadros degenerativos.

Esse sintoma é especialmente importante na triagem de pacientes com queixas musculoesqueléticas e precisa ser avaliado com atenção, pois pode representar uma situação de evolução rápida e com risco funcional, principalmente quando há sinais de comprometimento articular agudo.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Dor nas Articulações em Movimentação:
Refere-se à dor sentida durante a movimentação de uma articulação, podendo ser:

  • Movimento ativo: realizado voluntariamente pelo próprio paciente;

  • Movimento passivo: realizado pelo examinador.

Esse discriminador abrange queixas como dor ao dobrar o joelho, ao levantar o braço, ao girar o punho, ou à manipulação durante a avaliação física.


🧠 Possíveis causas clínicas da dor articular à movimentação

🔴 Causas infecciosas ou inflamatórias agudas:

  • Artrite séptica (emergência ortopédica);

  • Sinovite reativa (pós-infecção viral ou bacteriana);

  • Gota ou pseudogota;

  • Celulite articular associada (ex: celulite escrotal com dor no quadril).

🟠 Causas traumáticas:

  • Luxações articulares (ex: ombro, joelho, tornozelo);

  • Entorses com distensão ligamentar;

  • Fraturas periarticulares (especialmente se com edema e limitação funcional).

🟡 Causas crônicas ou degenerativas:

  • Artrose com episódios de agudização;

  • Tendinites ou bursites crônicas;

  • Artrite reumatoide em atividade.

⚠️ Quando a dor articular limita ou impede o movimento, especialmente em crianças, idosos ou imunossuprimidos, o risco de infecção articular deve ser considerado com alta prioridade.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Questionar sobre a dor:

    • “Dói quando você move a articulação?”

    • “Dói mesmo sem esforço, só de mexer ou tocar?”

    • “Você consegue dobrar, girar ou esticar normalmente?”

  2. Observar limitações funcionais:

    • O paciente evita o movimento ou o realiza com expressão de dor;

    • Postura antálgica (evita usar o membro afetado).

  3. Palpar com delicadeza a articulação envolvida, se possível, para verificar:

    • Aumento de volume (edema);

    • Calor local, rubor;

    • Crepitação ou instabilidade;

    • Dor ao movimento passivo (muito sugestiva de processo inflamatório ou infeccioso).

💡 Toda articulação dolorosa, quente e com limitação de movimento deve ser avaliada como potencial artrite séptica até prova em contrário, principalmente em crianças.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Dor nas Articulações em Movimentação” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Dor em articulação

  • Trauma em membro superior ou inferior

  • Febre em criança (quando há queixa de dor em articulação)

  • Dor em criança pequena (não quer andar ou se movimentar)

  • Quadros reumatológicos agudos ou crônicos


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Dor articular intensa com:

    • Febre alta (> 38,5 °C);

    • Incapacidade total de movimentação;

    • Sinais locais de inflamação aguda severa (calor intenso, vermelhidão marcada, edema);

    • Suspeita de artrite séptica, especialmente em crianças pequenas ou imunodeprimidos.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Dor articular com limitação funcional importante, associada a:

    • História de trauma recente;

    • Sinais moderados de inflamação;

    • Quadro agudo de gota, bursite ou artrite reumatoide ativa;

    • Criança que se recusa a andar ou movimentar o membro afetado.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Dor articular com mobilidade parcial;

  • Sem febre ou sinais de infecção sistêmica;

  • Dor de início progressivo, com edema leve;

  • Casos de artrose ou inflamação crônica leve a moderada.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Criança de 4 anos com febre de 38,9 °C e dor no quadril. Recusa-se a andar, não tolera movimentação passiva da perna. Quadril quente e levemente inchado.

➡️ Fluxograma: “Dor em criança”;
➡️ Discriminador: “Dor nas Articulações em Movimentação”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de artrite séptica).


Situação 2:
Homem de 60 anos com dor no ombro direito há 3 dias, que piora ao levantar o braço. Relata dor tanto ao movimento próprio quanto à movimentação passiva durante exame. Sem febre.

➡️ Fluxograma: “Dor em articulação (ombro)”;
➡️ Discriminador: “Dor nas Articulações em Movimentação”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos (possível bursite ou tendinite).


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Intensidade da dor (EVA);

    • Grau de limitação funcional;

    • Presença de febre e sinais flogísticos;

  • Observar se o paciente consegue mover a articulação ativamente;

  • Se possível, realizar movimento passivo suave e verificar resposta;

  • Avaliar histórico clínico (trauma, doenças autoimunes, episódios anteriores);

  • Registrar:

    • Localização da articulação afetada;

    • Presença de calor, edema, rubor e limitação;

    • Escala de dor e tempo de início dos sintomas;

  • Encaminhar com prioridade adequada conforme critérios clínicos.


✅ Conclusão

O discriminador “Dor nas Articulações em Movimentação” é essencial para identificar pacientes com comprometimento articular inflamatório, traumático ou infeccioso, permitindo uma triagem eficiente e com foco na prevenção de sequelas articulares ou infecções graves como a artrite séptica.

A correta aplicação desse discriminador garante que casos clínicos importantes não passem despercebidos, mesmo que o paciente esteja estável no momento da triagem.

Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:18