Dor Pleurítica

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco respiratório e torácico

A dor pleurítica é um tipo de dor torácica intensa, aguda e localizada, que piora com movimentos respiratórios, como inspirar profundamente, tossir ou espirrar. Esse tipo de dor indica, geralmente, irritação da pleura — membrana que reveste os pulmões e a parede torácica — e pode estar associada a processos infecciosos, inflamatórios ou vasculares graves.

No Protocolo de Manchester, o discriminador “Dor Pleurítica” é utilizado para identificar pacientes com possíveis comprometimentos pulmonares, pleurais ou cardiovasculares, cuja priorização correta é fundamental para garantir a segurança e evitar evolução para quadros graves, como embolia pulmonar ou pneumonia extensa.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Dor Pleurítica:
Dor aguda no peito, que piora ao respirar, tossir ou espirrar.

É uma dor bem localizada, geralmente descrita como pontada, facada ou queimação, e que se intensifica com o movimento da respiração — o que a diferencia de outras formas de dor torácica, como a dor anginosa.


🧠 Principais causas clínicas associadas à dor pleurítica

🟠 Condições respiratórias e torácicas:

  • Pneumonia com pleurite associada

  • Pleurisia viral ou bacteriana

  • Derrame pleural

  • Pneumotórax espontâneo ou traumático

  • Embolia pulmonar (TEP) — especialmente com dor súbita e dispneia

  • COVID-19 com envolvimento pleural

  • Neoplasias torácicas com infiltração pleural

🟡 Outras condições:

  • Síndrome pós-viral com dor torácica residual

  • Costocondrite (inflamação da junção costal)

  • Fraturas de costelas

  • Pericardite (pode simular dor pleurítica)

⚠️ A dor pleurítica pode ser o único sintoma inicial de uma condição respiratória grave, mesmo quando os sinais vitais ainda estão estáveis.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o profissional deve:

  1. Investigar a dor torácica com perguntas específicas:

    • “A dor piora quando você respira fundo?”

    • “Dói mais quando tosse ou espirra?”

    • “É uma dor em pontada ou em aperto?”

  2. Caracterizar a dor:

    • Localização (geralmente lateral, unilateral ou posterior);

    • Intensidade (EVA);

    • Início súbito ou progressivo;

    • Fatores de alívio (repouso, posição sentada) e agravamento (inspiração, tosse).

  3. Avaliar sinais vitais e condições associadas:

    • Frequência respiratória elevada;

    • Saturação de oxigênio reduzida (SpO₂ < 94%);

    • Presença de febre;

    • Taquicardia;

    • Tosse produtiva, hemoptise, dispneia.

💡 Em jovens, pneumotórax espontâneo deve ser sempre considerado. Em pacientes com fatores de risco, embolia pulmonar é hipótese prioritária.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Dor Pleurítica” pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Dor torácica

  • Dificuldade respiratória

  • Febre com dor torácica

  • Tosse persistente ou com dor

  • COVID-19 ou síndrome gripal com dor torácica

  • Trauma torácico com dor ao respirar


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Dor pleurítica +:

    • Instabilidade hemodinâmica (PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm);

    • Saturação de O₂ < 90%;

    • Dispneia severa ou uso de musculatura acessória;

    • Dor súbita e intensa com risco de pneumotórax ou TEP;

    • Rebaixamento do nível de consciência.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Dor pleurítica com:

    • Febre > 38,5 °C e taquicardia;

    • Dispneia moderada com SpO₂ entre 90% e 94%;

    • História de embolia pulmonar, câncer ou cirurgia recente;

    • Presença de dor unilateral de início súbito;

    • Paciente com risco aumentado (gestante, idoso, cardiopata).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Dor pleurítica leve a moderada;

  • Sinais vitais normais;

  • Sem febre ou apenas febre baixa;

  • Sem dispneia significativa;

  • História compatível com infecção viral, costocondrite ou pós-esforço.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 28 anos, sem comorbidades, refere dor súbita no lado direito do tórax, em pontada, que piora ao respirar. Relata leve falta de ar. SpO₂ 92%, FC 110 bpm. Sem febre. Sem histórico de trauma.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica”;
➡️ Discriminador: “Dor Pleurítica”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (suspeita de pneumotórax espontâneo).


Situação 2:
Mulher de 35 anos com quadro viral há 4 dias, agora com dor torácica em pontada, pior à inspiração profunda. Sem dispneia. Febre de 37,8 °C. SpO₂ 96%.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica associada a quadro infeccioso”;
➡️ Discriminador: “Dor Pleurítica”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos (pleurite viral associada a infecção de vias respiratórias).


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar características da dor e fatores agravantes (respiração, tosse);

  • Realizar avaliação completa dos sinais vitais e oximetria de pulso;

  • Observar sinais de insuficiência respiratória;

  • Questionar histórico de TEP, tabagismo, doenças pulmonares, câncer, cirurgias recentes;

  • Encaminhar o paciente com prioridade conforme gravidade e sinais associados;

  • Registrar com precisão:

    • Local e tipo da dor;

    • Relação com a respiração;

    • Sinais vitais e SpO₂;

    • Histórico relevante (ex: TEV, trombofilias, imobilizações, uso de anticoncepcional).


✅ O que aprendemos

O discriminador “Dor Pleurítica” é um alerta importante para condições pulmonares e cardiovasculares potencialmente graves. Sua identificação precoce na triagem permite intervenções rápidas, reduzindo o risco de evolução para insuficiência respiratória, choque ou morte súbita, especialmente em casos de pneumotórax, TEP e pneumonia grave.

A correta aplicação do Protocolo de Manchester neste contexto garante segurança, eficácia e racionalidade no atendimento em serviços de urgência e emergência.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:19