Dor Pré-Cordial

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco cardiovascular

A dor pré-cordial é uma dor localizada na região anterior do tórax, à frente do coração, frequentemente descrita como pesada, em aperto ou constritiva. Este tipo de dor é classicamente associado à isquemia miocárdica — sendo um dos sinais centrais de síndrome coronariana aguda (SCA) — e exige triagem e atendimento imediato.

No Protocolo de Manchester, o discriminador “Dor Pré-Cordial” tem papel fundamental na triagem de pacientes com dor torácica, orientando a equipe de enfermagem a reconhecer sinais precoces de infarto agudo do miocárdio (IAM), angina instável, dissecção de aorta ou outras emergências cardíacas e vasculares.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Dor Pré-Cordial:
Dor constritiva ou pesada no centro do peito, podendo irradiar para o braço esquerdo, pescoço ou mandíbula.
Frequentemente associada a sudorese, náuseas, palidez e sensação de morte iminente.

A dor pré-cordial é considerada um dos principais sinais de alarme clínico em adultos, especialmente se o paciente for:

  • Idoso

  • Hipertenso

  • Diabético

  • Tabagista

  • Portador de dislipidemia ou histórico de doenças cardiovasculares


🧠 Principais causas clínicas da dor pré-cordial

🔴 Condições cardiovasculares graves:

  • Infarto agudo do miocárdio (IAM)

  • Angina instável

  • Dissecção de aorta torácica

  • Pericardite aguda

  • Miocardite viral

🟠 Outras causas possíveis:

  • Refluxo gastroesofágico (em casos atípicos)

  • Ansiedade ou síndrome do pânico (com dor torácica não isquêmica)

  • Espasmo esofágico ou hérnia hiatal

  • Costocondrite (inflamação das cartilagens costais)

⚠️ Toda dor pré-cordial deve ser considerada isquêmica até que se prove o contrário, sobretudo em pacientes com fatores de risco cardiovasculares.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Questionar diretamente sobre a dor torácica:

    • “Onde está a dor?”

    • “Como é a dor: em aperto, queimação ou pontada?”

    • “Ela irradia para o braço, pescoço ou mandíbula?”

    • “A dor apareceu em repouso ou em esforço?”

  2. Investigar sinais associados:

    • Sudorese fria e intensa

    • Palidez ou cianose

    • Náuseas ou vômitos

    • Sensação de morte iminente

    • Dispneia, tontura ou síncope

    • Taquicardia ou bradicardia

    • Hipotensão

  3. Verificar sinais vitais com urgência:

    • Pressão arterial, frequência cardíaca, frequência respiratória e oximetria;

    • ECG deve ser solicitado com prioridade se disponível.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Dor Pré-Cordial” é aplicado principalmente nos fluxogramas:

  • Dor torácica

  • Dispneia aguda (quando há dor torácica associada)

  • Colapso/síncope

  • Paciente idoso doente com queixa torácica

  • Dor epigástrica (dor torácica disfarçada em diabéticos)


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Dor pré-cordial +:

    • Irradiação para braço, pescoço ou mandíbula;

    • Sudorese intensa;

    • Náuseas e/ou vômitos;

    • Palidez cutânea e sinais de instabilidade (PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm ou < 50 bpm);

    • Rebaixamento do nível de consciência;

    • História prévia de IAM, angioplastia ou cirurgia cardíaca.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Dor pré-cordial típica com:

    • Irradiação leve, sem sinais de instabilidade;

    • Sinais vitais ainda normais, mas dor intensa e progressiva;

    • ECG ainda não realizado ou em análise;

    • Paciente consciente, mas ansioso e com fatores de risco cardiovasculares relevantes.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Dor torácica atípica ou retroesternal leve:

    • Sem irradiação;

    • Sem sinais de instabilidade;

    • Associada a fatores não cardíacos (ansiedade, refluxo), mas sem certeza diagnóstica.

Mesmo em dor leve, a anamnese deve considerar sempre a hipótese cardíaca, especialmente em pacientes com fatores de risco.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Homem de 58 anos, hipertenso, com dor intensa em aperto no centro do tórax há 30 minutos, irradiando para braço esquerdo. Refere náusea, palidez e sudorese. FC 112 bpm, PA 98/60 mmHg, SpO₂ 92%.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica”;
➡️ Discriminador: “Dor Pré-Cordial”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de IAM com instabilidade).


Situação 2:
Mulher de 50 anos com dor retroesternal moderada em peso, sem irradiação. Refere ansiedade intensa. ECG solicitado. Sinais vitais normais. História prévia de refluxo gastroesofágico.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica”;
➡️ Discriminador: “Dor Pré-Cordial”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (risco cardiovascular não descartado).


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar localização, intensidade, tipo e irradiação da dor;

  • Identificar sinais de instabilidade hemodinâmica e sintomas associados;

  • Aplicar Escala de Dor (EVA);

  • Monitorar sinais vitais com atenção;

  • Solicitar ECG com prioridade e oxigenoterapia, se necessário;

  • Encaminhar o paciente imediatamente, conforme a gravidade;

  • Registrar:

    • Descrição completa da dor;

    • Irradiação e duração;

    • Sinais clínicos associados;

    • Fatores de risco presentes.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Dor Pré-Cordial” é uma bandeira vermelha clássica na triagem, principalmente pela sua associação direta com síndromes coronarianas agudas.

Sua correta aplicação pelo enfermeiro classificador permite salvar vidas por meio de decisões rápidas e fundamentadas, garantindo o início imediato de protocolos de emergência para infarto agudo do miocárdio, dissecção de aorta ou outras causas graves de dor torácica.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:21