43 - Dor Severa
Dor Severa
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco com base na intensidade da dor
A dor severa é aquela significativa e insuportável, frequentemente relatada pelo paciente como a pior dor que já sentiu na vida. Esse tipo de dor, além de gerar intenso sofrimento, pode estar relacionado a condições clínicas graves, tempo-dependentes e que exigem intervenção médica imediata.
O Protocolo de Manchester utiliza esse discriminador como um critério importante de priorização, pois a dor intensa, quando associada a outras alterações clínicas, pode indicar emergências verdadeiras, como infarto, dissecção de aorta, obstrução visceral, pancreatite, cólicas severas, hemorragias ou síndromes neurológicas agudas.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Dor Severa:
Dor significativa e insuportável, frequentemente referida pelo paciente como a pior de todas as já sentidas.
Esse discriminador é baseado principalmente na percepção subjetiva do paciente, e deve ser validado com escalas de dor padronizadas, sinais clínicos e observação do comportamento.
A intensidade da dor costuma ser classificada com EVA (Escala Visual Analógica) de 8 a 10, onde:
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EVA 0–3: dor leve
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EVA 4–7: dor moderada
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EVA 8–10: dor severa
🧠 Importância clínica da dor severa
A dor intensa pode estar associada a doenças graves ou com risco de morte, como:
🔴 Causas críticas associadas à dor severa:
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Infarto agudo do miocárdio (IAM)
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Dissecção de aorta torácica ou abdominal
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Pancreatite aguda
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Cólica renal ou biliar severa
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Trombose mesentérica ou isquemia intestinal
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Ruptura de aneurisma abdominal
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Artrite séptica (em articulações grandes)
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Síndrome compartimental
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Crise falciforme
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Trauma grave ou fratura exposta
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Cefaleia súbita e explosiva (ex. aneurisma)
⚠️ A dor severa pode ser o único sinal visível de uma condição interna grave, e nunca deve ser negligenciada. O profissional de triagem deve tratá-la como urgência clínica real.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o profissional deve:
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Avaliar a dor com escala apropriada:
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“De 0 a 10, quanto está sua dor neste momento?”
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EVA entre 8 a 10 é indicativa de dor severa.
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Observar sinais comportamentais e fisiológicos:
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Expressões faciais intensas, gemidos, choro;
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Palidez, sudorese profusa, tremores;
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Taquicardia, hipertensão, respiração rápida;
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Postura antálgica (evita se mover) ou inquietação intensa.
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Avaliar fatores associados:
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Tempo de início (súbito x progressivo);
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Localização e irradiação da dor;
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Fatores de alívio ou piora;
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Históricos anteriores de dor semelhante.
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💡 Mesmo que os sinais vitais estejam normais, o relato de dor insuportável deve ser valorizado, principalmente em pacientes com comorbidades ou histórico cardiovascular.
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Dor Severa” pode ser utilizado em diversos fluxogramas, como:
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Dor torácica
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Dor abdominal
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Dor em articulações ou ossos
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Trauma
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Pancreatite ou colecistite
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Cólica renal ou biliar
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Crises hematológicas (ex: falciforme)
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Cefaleia súbita intensa
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Dor severa com:
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Instabilidade hemodinâmica (PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm);
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Rebaixamento do nível de consciência;
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Dispneia associada;
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Sinais de choque ou perfusão deficiente;
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Dor torácica com irradiação, sudorese e náuseas;
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Suspeita de dissecção de aorta, IAM, hemorragia interna ou sepse grave.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Dor severa com sinais vitais ainda estáveis;
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Dor progressiva, incapacitante, mas sem sinais de instabilidade;
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Cólica renal ou biliar intensa, paciente sem histórico prévio conhecido;
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Crise de dor em paciente com doença crônica conhecida (ex: falciforme, artrose, reumatismo), mas com piora aguda.
📋 Exemplo clínico aplicado
Situação 1:
Homem de 65 anos, hipertenso, com dor torácica intensa, opressiva, irradiando para braço esquerdo. Relata ser “a pior dor que já sentiu”. Está pálido, com sudorese fria, FC 124 bpm, PA 92/60 mmHg.
➡️ Fluxograma: “Dor torácica”;
➡️ Discriminador: “Dor Severa”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de infarto agudo do miocárdio).
Situação 2:
Mulher de 42 anos com cólica renal intensa (EVA 10), agitada, pálida, com dor em flanco direito irradiando para a virilha. FC 110 bpm, PA 120/80 mmHg, SpO₂ 97%. Sem vômitos.
➡️ Fluxograma: “Cólica renal ou abdominal”;
➡️ Discriminador: “Dor Severa”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos.
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Aplicar Escala de Dor (EVA) e registrar o valor;
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Avaliar sinais vitais completos e observar sinais de sofrimento físico;
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Investigar histórico clínico e possíveis diagnósticos prévios;
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Iniciar medidas de conforto, como oxigenoterapia, repouso, monitoramento;
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Encaminhar com prioridade compatível com a classificação;
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Reavaliar a dor periodicamente, se o paciente permanecer em espera;
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Registrar:
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Localização e tipo da dor;
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Intensidade e tempo de início;
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Fatores de alívio/piora;
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Sinais clínicos e comportamento do paciente.
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✅ O que aprendemos
O discriminador “Dor Severa” deve ser tratado com a máxima atenção na triagem, pois representa sofrimento extremo e alto risco clínico potencial, mesmo quando os sinais vitais estão inicialmente preservados.
A atuação do enfermeiro classificador deve ser empática, criteriosa e tecnicamente precisa, garantindo que o paciente em dor severa não aguarde além do necessário e receba alívio e diagnóstico o mais rápido possível.