Dor Testicular

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco urológico e reprodutivo

A dor testicular é um sintoma que exige atenção imediata, pois pode estar relacionada a condições benignas, como inflamações, mas também a emergências urológicas, como a torção testicular — uma situação tempo-dependente que pode levar à perda do testículo se não tratada em até 6 horas.

No Protocolo de Manchester, o discriminador “Dor Testicular” é utilizado para orientar a triagem de forma segura e ágil, permitindo priorização adequada do atendimento com base na intensidade, início e sinais associados.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Dor Testicular:
Qualquer dor referida nos testículos, podendo ser:

  • Aguda ou crônica;

  • Uni ou bilateral;

  • Associada ou não a outros sinais urogenitais.


🧠 Causas clínicas mais comuns de dor testicular

🔴 Urgências urológicas (tempo-dependentes):

  • Torção testicular (criança ou adulto jovem, dor súbita, intensa, unilateral, sem febre);

  • Torção do apêndice testicular;

  • Orquiepididimite aguda (inflamação do testículo e epidídimo, geralmente unilateral, com febre e edema);

  • Trauma escrotal com hematoma ou edema testicular;

  • Hérnia inguinal encarcerada (dor irradiada para escroto).

🟡 Outras causas urológicas ou reprodutivas:

  • Varicocele (geralmente dor crônica ou desconforto arrastado);

  • Hidrocele com pressão local;

  • Cisto de epidídimo inflamado;

  • Prostatite com dor referida ao escroto;

  • Cólica renal com dor irradiada ao testículo;

  • Infecções sexualmente transmissíveis.

⚠️ A torção testicular é uma emergência cirúrgica: quanto mais rápida a intervenção, maior a chance de preservação do testículo (até 6h: 90% de sucesso; após 12h: <10%).


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o profissional deve:

  1. Perguntar sobre a dor testicular diretamente:

    • “A dor começou de forma súbita ou foi piorando aos poucos?”

    • “A dor é contínua ou em cólica?”

    • “Há febre, náusea ou vômito?”

    • “Houve trauma, esforço físico ou relação sexual recente?”

  2. Observar sinais clínicos associados:

    • Edema ou aumento de volume escrotal;

    • Hiperemia local;

    • Náuseas, vômitos ou febre;

    • Dor à palpação (quando for possível e seguro avaliar);

    • Testículo “elevado” ou horizontalizado (sugestivo de torção);

    • Disúria ou secreção uretral.

  3. Verificar sinais vitais:

    • Febre, taquicardia, hipotensão (se infecção grave).

💡 Em crianças e adolescentes, dor testicular súbita deve ser sempre considerada torção até que se prove o contrário.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Dor Testicular” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Dor genital

  • Dor abdominal (em crianças, pode se manifestar como dor testicular)

  • Febre + dor escrotal (suspeita de orquiepididimite)

  • Trauma genital

  • Cólica renal com irradiação escrotal


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Dor testicular súbita e intensa, em paciente jovem, sem sinais de infecção:

    • Suspeita de torção testicular aguda;

    • Testículo elevado, endurecido, sensível e com início < 6h;

    • Náusea, vômitos e agitação.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Dor intensa com sinais de infecção:

    • Febre ≥ 38,5 °C;

    • Edema escrotal importante;

    • Secreção uretral;

    • História de IST, uso de sonda ou manipulação recente.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Dor moderada, progressiva, sem sinais de emergência;

  • Testículo com aspecto normal à inspeção;

  • Desconforto arrastado (ex: varicocele, cisto).


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Adolescente de 15 anos chega com dor intensa e súbita no testículo direito, iniciada há 2h. Testículo elevado, endurecido e muito sensível. Sem febre. Relata náusea e vômito.

➡️ Fluxograma: “Dor genital”;
➡️ Discriminador: “Dor Testicular”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (suspeita de torção testicular).


Situação 2:
Homem de 45 anos, com dor testicular à esquerda há 3 dias, febre de 38,7 °C, disúria e secreção uretral. Escroto aumentado e doloroso.

➡️ Fluxograma: “Dor genital com febre”;
➡️ Discriminador: “Dor Testicular”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (suspeita de orquiepididimite).


Situação 3:
Homem de 32 anos com dor leve e intermitente no testículo esquerdo há duas semanas. Sem febre, sem edema, sem sintomas urinários. Refere varicocele diagnosticada anteriormente.

➡️ Fluxograma: “Dor genital crônica”;
➡️ Discriminador: “Dor Testicular”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos.


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Início e intensidade da dor (usar EVA);

    • Presença de sinais sistêmicos (febre, náusea, vômito);

    • Fatores de risco (trauma, infecção, atividade sexual recente);

  • Verificar sinais vitais e realizar avaliação breve da região, se apropriado;

  • Classificar conforme risco potencial de perda testicular ou infecção;

  • Encaminhar com prioridade conforme critérios de urgência;

  • Registrar:

    • Lado e intensidade da dor;

    • Sinais locais (edema, cor, temperatura);

    • Sintomas sistêmicos;

    • Tempo de início da dor.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Dor Testicular” deve ser aplicado com atenção e rapidez, pois o tempo é um fator determinante para o desfecho clínico de algumas das causas mais graves, como a torção testicular.

A correta avaliação pelo enfermeiro na triagem pode fazer a diferença entre salvar ou perder o órgão afetado, além de prevenir complicações urológicas e infecciosas graves.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:25