Edema da Face

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco respiratório e alérgico

O edema da face é um sinal clínico que deve gerar imediato alerta na triagem, especialmente quando ocorre de forma súbita. Em muitos casos, ele pode representar um quadro de reação alérgica grave, como angioedema ou anafilaxia, com risco potencial de obstrução de vias aéreas superiores.

No Protocolo de Manchester, o discriminador “Edema da Face” está diretamente relacionado ao reconhecimento precoce de emergências alérgicas, infecciosas ou inflamatórias, sendo fundamental para orientar a classificação de risco adequada e evitar atrasos no atendimento de casos críticos.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Edema da Face:
Inchaço difuso na face, que habitualmente envolve os lábios, podendo ou não estar acompanhado de edema nos olhos, bochechas, língua ou pescoço.

Esse tipo de edema pode ter evolução rápida e silenciosa, por isso a triagem deve ser imediata, com avaliação do potencial de comprometimento das vias aéreas.


🧠 Causas clínicas comuns de edema facial

🔴 Emergências alérgicas (tempo-dependentes):

  • Angioedema alérgico ou idiopático

  • Anafilaxia (reação alérgica sistêmica grave)

  • Uso de inibidores da ECA (ex: captopril, enalapril – podem causar angioedema bradicinina-mediado)

  • Alergia alimentar, medicamentosa ou a picadas de insetos

🟠 Causas infecciosas ou inflamatórias:

  • Celulite facial ou periorbitária

  • Abscesso dentário com disseminação

  • Sinusites graves com edema orbitário

  • Síndrome nefrótica ou hepática com retenção de líquidos

🟡 Outras condições menos comuns:

  • Pós-operatório de face (ex: extração dentária);

  • Reação a cosméticos ou produtos de uso tópico;

  • Hipotireoidismo grave (mixedema facial).

⚠️ O edema facial pode preceder o edema de glote, condição de risco iminente de parada respiratória. Toda queixa com inchaço labial ou facial súbito deve ser priorizada na triagem.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o profissional deve:

  1. Observar clinicamente o paciente já ao chamá-lo:

    • Rosto visivelmente inchado;

    • Lábios, pálpebras ou bochechas aumentadas de volume;

    • Dificuldade para falar ou engolir;

    • Rouquidão ou estridor.

  2. Fazer perguntas específicas:

    • “Quando começou o inchaço?”

    • “Você tem alergia a alguma substância?”

    • “Sentiu coceira, falta de ar ou garganta fechando?”

    • “Está com dificuldade para respirar ou engolir?”

  3. Avaliar sinais associados:

    • Dispneia, taquipneia, estridor;

    • Rouquidão;

    • Cianose ou palidez;

    • Prurido cutâneo ou urticária;

    • Sinais de choque (hipotensão, taquicardia, sudorese);

    • Ausência de resposta a medicação prévia (anti-histamínicos, adrenalina).


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Edema da Face” pode ser utilizado nos seguintes fluxogramas:

  • Reação alérgica ou anafilática

  • Dificuldade respiratória

  • Dor ou edema na face e garganta

  • Febre com inchaço facial (suspeita de infecção)

  • Trauma de face ou pescoço com edema associado


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Edema facial súbito com:

    • Envolvimento de língua, glote ou garganta;

    • Rouquidão, estridor ou dispneia;

    • Sinais de anafilaxia: hipotensão, taquicardia, urticária, confusão mental;

    • Inchaço rápido e progressivo após uso de medicamento ou ingestão alimentar;

    • Uso de IECA + edema labial (risco de angioedema bradicinina-mediado).

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Edema facial sem sinais respiratórios, mas:

    • Dor local intensa;

    • Febre alta (> 38,5 °C);

    • Suspeita de infecção (celulite, abscesso);

    • Reação alérgica com prurido e início recente;

    • História de crises alérgicas anteriores com piora progressiva.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Edema leve, sem sinais respiratórios;

  • Ausência de febre ou dor intensa;

  • Reação alérgica leve autolimitada (já em uso de medicação);

  • Inchaço pós-traumático ou pós-procedimento conhecido e estável.


📋 Exemplo clínico aplicado

Situação 1:
Mulher de 28 anos apresenta inchaço súbito nos lábios e olhos após ingerir camarão. Está com voz rouca, referindo “garganta fechando”. FC 118 bpm, PA 95/60 mmHg, SpO₂ 93%.

➡️ Fluxograma: “Reação alérgica”;
➡️ Discriminador: “Edema da Face”;
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (anafilaxia).


Situação 2:
Homem de 45 anos em uso de captopril há 3 meses. Refere inchaço labial iniciado há 1h, sem falta de ar, mas com leve desconforto ao engolir. Sem prurido ou febre. Sinais vitais estáveis.

➡️ Fluxograma: “Edema de face por medicamento”;
➡️ Discriminador: “Edema da Face”;
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (angioedema induzido por IECA).


Situação 3:
Adolescente de 17 anos apresenta inchaço leve na bochecha direita há 2 dias, associado a dor de dente e febre de 37,8 °C. Sem sinais de obstrução de via aérea.

➡️ Fluxograma: “Dor de face com febre”;
➡️ Discriminador: “Edema da Face”;
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos (infecção odontogênica).


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar presença de sinais respiratórios: estridor, rouquidão, dispneia;

  • Verificar uso de medicamentos associados a angioedema (IECA, AAS);

  • Avaliar sinais vitais: PA, FC, SpO₂, temperatura;

  • Observar progressão do edema e áreas acometidas;

  • Registrar com clareza:

    • Tempo de início e evolução;

    • Local exato do edema;

    • Sintomas associados;

    • Fatores desencadeantes (alimento, medicamento, picada).


✅ O que aprendemos

O discriminador “Edema da Face” é um marcador clínico de potencial risco respiratório ou infeccioso. Sua correta identificação pelo enfermeiro classificador permite a intervenção precoce em casos graves, como anafilaxia ou angioedema, salvando vidas e evitando complicações irreversíveis.

A aplicação eficaz deste discriminador exige observação clínica minuciosa, perguntas dirigidas e ação rápida, conforme o risco potencial do caso.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 19:27