Estridor

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em obstrução de vias aéreas

O estridor é um som respiratório anormal e agudo, semelhante a um chiado ou assobio alto, que ocorre devido a obstrução parcial das vias aéreas superiores — geralmente na região da laringe, traqueia ou faringe. Pode ser inspiratório, expiratório ou bifásico, e é mais audível quando o paciente respira pela boca aberta.

No Protocolo de Manchester, o discriminador “Estridor” é considerado altamente sensível para obstrução respiratória iminente. Por isso, sua presença — mesmo isolada — indica necessidade de avaliação médica imediata, sendo frequentemente associada a emergências respiratórias em adultos e crianças.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Estridor:
Som respiratório anormal, inspiratório, expiratório ou ambos, ouvido com maior clareza quando o paciente respira de boca aberta.

É resultado da passagem turbulenta de ar por vias aéreas superiores estreitadas, podendo indicar processos inflamatórios, infecciosos, alérgicos ou mecânicos.


🧠 Causas clínicas mais comuns de estridor

🔴 Obstrução aguda de vias aéreas (emergência):

  • Anafilaxia / Angioedema de glote

  • Inalação de corpo estranho

  • Epiglotite (em pediatria, grave e de rápida evolução)

  • Laringotraqueíte viral (crupe)

  • Abcesso retrofaríngeo

  • Trauma de pescoço / via aérea

  • Tumores obstrutivos de laringe ou traqueia

🟠 Obstruções subagudas ou parciais:

  • Papilomatose laríngea

  • Paralisia de corda vocal unilateral ou bilateral

  • Estreitamento traqueal pós-intubação prolongada

🟡 Outras causas menos comuns:

  • Disfunção das cordas vocais;

  • Laringomalácia (em bebês);

  • Infecções de vias aéreas superiores com edema laríngeo discreto.

⚠️ A presença de estridor é indício de risco iminente de falência respiratória, especialmente se acompanhado de taquipneia, cianose, uso de musculatura acessória ou rebaixamento do nível de consciência.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Ouvir ativamente a respiração do paciente, preferencialmente com a boca aberta:

    • Há som alto e agudo durante a inspiração ou expiração?

    • O som é contínuo e audível à distância?

    • O paciente apresenta esforço respiratório evidente?

  2. Observar sinais de obstrução das vias aéreas:

    • Tiragem intercostal ou subcostal;

    • Uso de musculatura acessória;

    • Cianose de extremidades ou lábios;

    • Agitação, confusão ou sonolência.

  3. Avaliar sinais vitais e oximetria:

    • FR elevada (> 30 em adultos ou > 60 em lactentes);

    • SpO₂ < 94%;

    • PA e FC alteradas;

    • Estado geral comprometido.

  4. Questionar antecedentes:

    • Uso de medicamentos (IECA, AINES, antibióticos);

    • Histórico de asma, alergias, infecções respiratórias;

    • Presença de corpo estranho (em crianças pequenas).


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Estridor” pode ser aplicado nos fluxogramas:

  • Dificuldade respiratória

  • Obstrução de vias aéreas

  • Reação alérgica / Anafilaxia

  • Febre com desconforto respiratório (em pediatria)

  • Corpo estranho em vias aéreas

  • Trauma de pescoço ou tórax


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Estridor +:

    • Uso de musculatura acessória;

    • Sialorreia, cianose ou hipoxemia (SpO₂ < 90%);

    • Confusão ou sonolência;

    • Disfagia ou rouquidão severa;

    • História de alergia grave, trauma ou corpo estranho;

    • Dispneia progressiva.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Estridor moderado +:

    • Sinais vitais ainda estáveis;

    • História de infecção viral ou edema laríngeo;

    • Respiração ruidosa, mas sem cianose ou rebaixamento;

    • Tosse tipo “latido” (laringotraqueíte).

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Casos em que o estridor já está resolvido, e o paciente:

    • Está em fase final de recuperação (ex: pós-laringite tratada);

    • Foi avaliado em outro serviço e retorna para reavaliação sem queixas ativas;

    • Apresenta disfunção vocal leve, sem desconforto respiratório;

    • Está assintomático, apenas com história pregressa de estridor sem recorrência.

O estridor ativo é considerado sempre como sinal de gravidade, mas há exceções clínicas já resolvidas ou estáveis que podem justificar classificação verde com segurança e documentação cuidadosa.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Criança de 3 anos, com estridor inspiratório alto, uso de musculatura acessória, cianose e dificuldade para falar. Mãe refere início súbito após possível engasgo.

➡️ Fluxograma: “Obstrução de via aérea / corpo estranho”
➡️ Discriminador: “Estridor”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (obstrução crítica)


Situação 2 – Classificação Laranja

Adulto jovem, com quadro de laringite viral há 3 dias, apresenta estridor leve ao falar, sem cianose ou esforço respiratório. SpO₂ 96%, FC 88 bpm. Refere desconforto ao engolir e febre controlada.

➡️ Fluxograma: “Dificuldade respiratória / infecciosa”
➡️ Discriminador: “Estridor”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Verde

Paciente de 60 anos, comparece para reavaliação após alta hospitalar por edema de glote tratado com corticoides. Encontra-se bem, sem estridor atual, sem sinais respiratórios ativos, em uso de medicação oral.

➡️ Fluxograma: “Avaliação pós-emergência”
➡️ Discriminador: “Estridor” (histórico, sem sintomas no momento)
➡️ Classificação: verde – atendimento em até 120 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar a presença do som respiratório (estridor) com paciente de boca aberta;

  • Verificar:

    • Padrão respiratório, esforço, uso de musculatura acessória;

    • Sinais vitais e oximetria;

  • Identificar histórico de:

    • Alergias, infecções recentes, trauma ou corpo estranho;

  • Encaminhar imediatamente, conforme gravidade dos sinais associados;

  • Registrar:

    • Tipo de estridor (inspiratório, expiratório ou bifásico);

    • Situações desencadeantes;

    • Sinais vitais completos;

    • Evolução ou piora do quadro.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Estridor” representa obstrução parcial de vias aéreas superiores e exige ação imediata na triagem, sendo um marcador precoce de insuficiência respiratória iminente.

A correta identificação e classificação pelo enfermeiro garante segurança, agilidade e conduta precisa, especialmente em populações vulneráveis como crianças, idosos e alérgicos graves.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 20:21