Erupção Cutânea Desconhecida

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco para manifestações dermatológicas atípicas

O discriminador “Erupção Cutânea Desconhecida” é utilizado na triagem quando o paciente apresenta uma alteração na pele de origem indefinida, sem diagnóstico imediato ou causa aparente. Trata-se de um critério útil para classificar manifestações dermatológicas que não se enquadram em padrões comuns, e que, por sua natureza incerta, podem representar tanto condições benignas quanto graves, como infecções sistêmicas, reações medicamentosas ou doenças autoimunes em fase inicial.

No Protocolo de Manchester, a presença de erupções cutâneas atípicas, extensas ou associadas a sintomas sistêmicos exige atenção e, frequentemente, prioridade no atendimento, pois algumas emergências clínicas se manifestam primeiramente pela pele.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Erupção Cutânea Desconhecida:
Qualquer erupção ou alteração dermatológica cuja origem, padrão ou causa não possa ser claramente identificada no momento da triagem.

Este discriminador se aplica, por exemplo, quando a lesão:

  • Não se enquadra em padrões clássicos de urticária, exantema ou dermatite;

  • Possui aspecto misto ou incomum;

  • Apareceu subitamente, sem causa aparente, ou em locais não usuais;

  • Está associada a alterações sistêmicas (febre, mal-estar, hipotensão).


🧠 Possíveis causas clínicas da erupção cutânea desconhecida

🔴 Doenças infecciosas ou reações medicamentosas graves:

  • Síndrome de Stevens-Johnson / Necrólise epidérmica tóxica

  • Meningococcemia ou sepse com púrpura fulminante

  • Erupção petequial com febre alta

  • Reações idiossincráticas a medicamentos (antibióticos, anticonvulsivantes)

🟠 Doenças autoimunes ou inflamatórias:

  • Lúpus eritematoso sistêmico

  • Vasculites cutâneas (purpúricas, necróticas)

  • Doença de Still, dermatomiosite, psoríase atípica

🟡 Outras possibilidades:

  • Infecções virais com manifestações dermatológicas atípicas (dengue, zika, mononucleose);

  • Picadas de insetos com reações exacerbadas;

  • Micoses profundas (em imunossuprimidos);

  • Erupções psicogênicas ou por contato com toxinas ambientais.

⚠️ A incerteza diagnóstica na triagem exige observação redobrada para sinais sistêmicos e progressão rápida da lesão cutânea.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

O enfermeiro classificador deve:

  1. Inspecionar atentamente as lesões:

    • Distribuição: localizada, simétrica, difusa?

    • Tipo: máculas, pápulas, vesículas, necrose, bolhas, escamas?

    • Cor: vermelha, roxa, escura, com áreas de necrose?

  2. Investigar o contexto clínico:

    • “Quando começou a lesão?”

    • “Está coçando, doendo, ardendo ou descamando?”

    • “Você tomou algum remédio novo recentemente?”

    • “Tem febre, calafrios, cansaço ou outros sintomas?”

    • “Outras pessoas próximas apresentaram algo parecido?”

  3. Avaliar os sinais vitais e estado geral do paciente:

    • Febre alta, mal-estar, hipotensão, prostração, confusão mental.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Erupção Cutânea Desconhecida” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Infecção sistêmica com sinais cutâneos

  • Reação a medicamentos

  • Febre de origem indeterminada

  • Lesões de pele de aparecimento súbito

  • Quadros virais ou exantemáticos atípicos


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Erupção cutânea desconhecida +:

    • Febre alta, prostração, hipotensão, confusão;

    • Bolhas, necrose, ou descamação extensa;

    • Envolvimento de mucosas (oral, genital, ocular);

    • Dor intensa associada à lesão;

    • Lesões purpúricas com sinais sistêmicos.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Erupção de aspecto incomum +:

    • Febre > 38,5 °C sem sinais de instabilidade;

    • História de uso recente de medicações de risco (ex: anticonvulsivantes, antibióticos);

    • Lesões dolorosas ou rapidamente progressivas;

    • Início súbito, mas sem envolvimento de mucosas ou rebaixamento.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Lesões atípicas, mas com:

    • Sinais vitais estáveis;

    • Sem sintomas sistêmicos;

    • Lesões de início progressivo e sem piora aguda;

    • Sem uso recente de medicamentos suspeitos.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Erupção cutânea de aspecto incomum, mas:

    • Sem febre, dor, prurido ou progressão;

    • Paciente em bom estado geral;

    • Lesão de início há vários dias, sem alterações desde então;

    • Queixa única e sem sinais sistêmicos associados.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 26 anos, iniciou uso de fenitoína há 8 dias e agora apresenta febre de 39,2 °C, lesões cutâneas extensas com bolhas e áreas necróticas em tórax e face. Mucosa oral ulcerada, PA 90/60 mmHg.

➡️ Fluxograma: “Reação medicamentosa”
➡️ Discriminador: “Erupção Cutânea Desconhecida”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato (síndrome de Stevens-Johnson)


Situação 2 – Classificação Laranja

Mulher de 32 anos, refere lesões vermelhas e elevadas com bordas irregulares em membros inferiores, surgidas nas últimas 6 horas. Afebril, mas com dor leve local. Está em uso de amoxicilina há 3 dias.

➡️ Fluxograma: “Erupção de origem indeterminada”
➡️ Discriminador: “Erupção Cutânea Desconhecida”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos (possível reação medicamentosa)


Situação 3 – Classificação Amarela

Paciente pediátrico, 6 anos, com lesões eritematosas mal definidas em dorso e face, sem febre ou dor, mas com histórico de exposição a criança doente na escola. Sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Doença exantemática”
➡️ Discriminador: “Erupção Cutânea Desconhecida”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


Situação 4 – Classificação Verde

Adolescente de 14 anos, apresenta pequenas manchas discretas em tórax, sem dor, coceira ou febre. Lesões presentes há 4 dias, sem progressão. Relata uso recente de sabonete novo.

➡️ Fluxograma: “Alteração de pele”
➡️ Discriminador: “Erupção Cutânea Desconhecida”
➡️ Classificação: verde – atendimento em até 120 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Avaliar:

    • Extensão, padrão e tipo da erupção;

    • Envolvimento de mucosas, presença de bolhas, dor ou descamação;

  • Verificar sinais sistêmicos:

    • Febre, PA, FC, SpO₂, nível de consciência;

  • Investigar:

    • Uso recente de medicamentos;

    • Contato com outras pessoas doentes;

    • Exposição a alimentos, produtos ou agentes irritantes;

  • Encaminhar com prioridade conforme gravidade;

  • Registrar:

    • Tempo de evolução;

    • Sintomas associados;

    • Histórico clínico relevante.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Erupção Cutânea Desconhecida” é uma ferramenta valiosa para garantir que manifestações dermatológicas incomuns ou atípicas não sejam subestimadas, especialmente quando associadas a condições sistêmicas graves.

O papel do enfermeiro classificador é fundamental para identificar riscos ocultos, assegurar a prioridade correta no atendimento e contribuir para uma triagem mais segura, eficaz e sensível ao quadro clínico do paciente.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 20:27