Evisceração de Órgãos

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em trauma abdominal e emergência cirúrgica

A evisceração de órgãos é uma condição clínica gravíssima que ocorre quando há protrusão visível de vísceras abdominais através de uma abertura traumática ou cirúrgica da parede abdominal. Trata-se de uma situação de emergência cirúrgica absoluta, frequentemente associada a traumatismos penetrantes, feridas abdominais abertas ou complicações pós-operatórias, como deiscência de sutura em laparotomias.

No Protocolo de Manchester, o discriminador “Evisceração de Órgãos” está diretamente associado a risco de infecção, choque hipovolêmico, necrose visceral e morte, sendo classificado como prioridade máxima (vermelho).


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Evisceração de Órgãos:
Situação em que ocorre a extrusão visível e franca de órgãos internos (geralmente vísceras abdominais), como intestinos, omento ou alças intestinais, através de uma ferida traumática ou cirúrgica.

Também pode incluir casos de herniamento com extrusão total, quando as vísceras atravessam completamente a parede abdominal ou torácica, especialmente em trauma contuso grave com laceração cutânea.


🧠 Principais causas clínicas associadas à evisceração

🔴 Traumas abdominais penetrantes:

  • Ferimentos por arma branca (faca, estilete, objeto cortante);

  • Ferimentos por arma de fogo com laceração de parede abdominal;

  • Acidentes com perfuração do abdome (quedas, acidentes de trânsito, empalamentos);

🔴 Complicações pós-operatórias graves:

  • Deiscência de sutura em pacientes com laparotomia recente;

  • Infecção de ferida operatória com ruptura da parede abdominal;

  • Aumento súbito da pressão intra-abdominal (tosse intensa, vômitos, esforço físico) após cirurgia.

🔴 Casos raros em pediatria ou gestação:

  • Evisceração umbilical traumática;

  • Rutura uterina com extrusão fetal (em contexto obstétrico – não comum na triagem geral, mas possível).


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Observar diretamente a área abdominal, se o paciente permitir:

    • Vísceras (geralmente intestinais) expostas fora do corpo;

    • Ferida abdominal aberta, com conteúdo visceral visível;

    • Sinais de infecção local, sangramento ativo ou necrose.

  2. Avaliar sinais sistêmicos associados:

    • Dor intensa;

    • Hipotensão e taquicardia (sugestivos de choque);

    • Palidez, sudorese, sinais de hipoperfusão;

    • Náuseas, vômitos ou estado mental alterado;

    • Sangramento externo ou secreção purulenta da ferida.

  3. Verificar antecedentes imediatos:

    • Cirurgia abdominal recente (últimos 7–15 dias);

    • Trauma abdominal, agressão ou queda com perfuração;

    • Esforço súbito (levantar peso, evacuar, tossir);

    • Doenças predisponentes (diabetes, obesidade, desnutrição).

⚠️ Pacientes com evisceração estão em risco real de contaminação visceral, isquemia e infecção peritonial. Devem ser encaminhados diretamente à sala de emergência cirúrgica.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Evisceração de Órgãos” pode ser aplicado nos fluxogramas:

  • Trauma abdominal penetrante

  • Ferimento por arma branca ou arma de fogo

  • Complicações pós-cirúrgicas abdominais

  • Dor abdominal intensa + ferida operatória aberta

  • Rutura de parede abdominal com saída de conteúdo visceral


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Todo paciente com:

    • Vísceras abdominais expostas visivelmente (alças intestinais, omento, etc.);

    • Ferida aberta com conteúdo visceral protruso;

    • Sinais de hipoperfusão, choque ou sangramento ativo;

    • Dor abdominal intensa e contínua;

    • Risco evidente de contaminação abdominal e necrose de alças intestinais.

❗ Situação não compatível com espera. Deve ser conduzido imediatamente à sala de emergência com suporte cirúrgico preparado.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 35 anos, vítima de agressão por arma branca, apresenta ferida aberta em região infraumbilical com alças intestinais expostas e sangramento ativo. Está consciente, pálido, PA 90/60 mmHg, FC 132 bpm.

➡️ Fluxograma: “Trauma abdominal penetrante”
➡️ Discriminador: “Evisceração de Órgãos”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Vermelha

Mulher de 60 anos, no 8º dia pós-operatório de histerectomia, relata dor abdominal súbita e saída de “massa avermelhada” pela cicatriz cirúrgica. Chega ao setor com vísceras intestinais parcialmente expostas, sem sinais de sangramento, mas com palidez e náusea.

➡️ Fluxograma: “Complicação pós-cirúrgica abdominal”
➡️ Discriminador: “Evisceração de Órgãos”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Evitar manuseio direto da víscera exposta;

  • Não tentar reintroduzir os órgãos;

  • Cobrir a área com gaze estéril embebida em soro fisiológico morno;

  • Monitorar:

    • Sinais vitais (PA, FC, FR, SpO₂);

    • Estado de consciência;

  • Manter paciente em decúbito dorsal com joelhos flexionados (se tolerado);

  • Iniciar oxigenoterapia se necessário;

  • Encaminhar imediatamente à emergência cirúrgica;

  • Registrar:

    • Causa provável (trauma, pós-operatório);

    • Hora do início da exposição;

    • Sinais de choque, dor, náusea ou sangramento.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Evisceração de Órgãos” é um marcador de emergência cirúrgica absoluta, com potencial de rápida deterioração clínica, infecção grave, choque e óbito. Sua correta identificação na triagem permite resposta ágil, direcionamento adequado e suporte de vida precoce, contribuindo decisivamente para o desfecho positivo do paciente.

A atuação do enfermeiro classificador neste caso é crucial e não admite margem para espera ou dúvidas: todo caso de evisceração deve ser considerado emergência de altíssima prioridade.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 20:30