53 - Incapacidade de se Alimentar
Incapacidade de se Alimentar
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em pediatria e urgência clínica
O discriminador “Incapacidade de se Alimentar” é utilizado para classificar situações em que a criança não consegue ingerir alimentos ou líquidos por via oral, de forma efetiva e adequada à sua idade, ou quando há ingestão, mas o alimento é imediatamente vomitado. Esse critério é particularmente importante em lactentes e crianças pequenas, cuja hidratação e nutrição dependem diretamente da ingestão oral regular.
No Protocolo de Manchester, esse discriminador está relacionado a quadros clínicos que indicam risco de desidratação, hipoglicemia, debilidade clínica ou doença infecciosa grave, e sua identificação deve levar em conta idade, tempo de evolução e sinais associados.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Incapacidade de se Alimentar:
Criança que não consegue ingerir alimentos sólidos ou líquidos, de forma espontânea, eficaz ou adequada à sua faixa etária. Também se aplica a casos em que a criança vomita todo o conteúdo ingerido de forma recorrente.
Esse discriminador não se refere a inapetência leve ou seletividade alimentar habitual, mas sim a um quadro agudo, anormal e preocupante, especialmente se acompanhado de sinais de alerta.
🧠 Possíveis causas clínicas associadas
🔴 Situações graves (risco imediato):
-
Infecções graves (sepse, pneumonia, pielonefrite, meningite)
-
Desidratação avançada (diarreia ou vômitos persistentes)
-
Obstruções intestinais (invaginação, vólvulo)
-
Distúrbios metabólicos e hipoglicemia
-
Infecções virais em lactentes (ex: bronquiolite, gastroenterite grave)
-
Corpos estranhos ou lesões orofaríngeas
-
Rebaixamento do nível de consciência
🟠 Causas moderadas:
-
Infecções virais com febre e prostração
-
Dores abdominais ou orais que impedem a alimentação
-
Vômitos com diarreia leve/moderada
-
Faringite aguda, otite média dolorosa, estomatite herpética
🟢 Causas leves e transitórias:
-
Falta de apetite isolada por virose simples
-
Refusa alimentar em episódios de febre leve ou desconforto transitório
-
Distúrbios leves do sono ou ambiente estressante
⚠️ A dificuldade ou recusa em se alimentar é frequentemente um dos primeiros sinais de alerta em crianças doentes, especialmente em menores de 2 anos.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o profissional de enfermagem deve:
-
Fazer perguntas específicas aos pais ou responsáveis:
-
“Há quanto tempo a criança parou de se alimentar?”
-
“Ela está mamando ou tomando líquidos normalmente?”
-
“Ela vomita tudo o que ingere?”
-
“Está urinando normalmente?”
-
“Tem febre, diarreia ou está sonolenta?”
-
-
Avaliar o comportamento da criança:
-
Está alerta, reativa ou sonolenta?
-
Apresenta sinais de prostração, irritabilidade ou apatia?
-
-
Observar sinais clínicos de desidratação ou infecção:
-
Mucosas secas, olhos fundos, fontanela deprimida;
-
Tempo de enchimento capilar > 2 segundos;
-
Hipotermia ou febre alta;
-
Ausência de diurese (fralda seca há mais de 6h);
-
Choro fraco ou sem lágrimas.
-
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Incapacidade de se Alimentar” pode ser aplicado nos fluxogramas:
-
Febre em criança menor de 5 anos
-
Diarreia e vômitos
-
Infecção respiratória aguda em lactentes
-
Desidratação / hipoglicemia
-
Alteração do estado geral em pediatria
-
Distúrbio gástrico ou abdominal em crianças
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
-
Criança sem alimentação oral há mais de 8 horas, com:
-
Letargia, sonolência intensa ou rebaixamento de consciência;
-
Desidratação grave ou sinais de choque (enchimento capilar lento, extremidades frias, taquicardia);
-
Vômitos persistentes e incapacidade de reter líquidos;
-
Sinais de infecção grave ou sepse.
-
🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
-
Criança que não se alimenta há mais de 4–6 horas, com:
-
Sinais leves de desidratação (olhos fundos, mucosa seca);
-
Prostração ou irritabilidade marcante;
-
Febre > 38,5 °C + recusa alimentar + vômitos;
-
Ausência de diurese nas últimas 6 horas.
-
🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
-
Criança relativamente alerta, mas com:
-
Recusa alimentar por causa de dor (garganta, boca, ouvido);
-
Episódios isolados de vômito ou diarreia;
-
Queda do apetite, mas com aceitação de líquidos;
-
Quadro viral em evolução, sem sinais de alarme.
-
🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
-
Criança em bom estado geral, com:
-
Redução do apetite nas últimas 12h, mas ainda aceitando líquidos;
-
Episódios leves e transitórios de recusa alimentar;
-
Sem sinais de desidratação, vômitos ou febre no momento da triagem.
-
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Lactente de 2 meses, com história de febre e vômitos. Não mama há 8 horas, vomita ao tentar sugar, está sonolento, com mucosas secas e enchimento capilar > 3 segundos.
➡️ Fluxograma: “Febre + vômitos em lactente”
➡️ Discriminador: “Incapacidade de se Alimentar”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Criança de 10 meses, com diarreia e febre. Recusa líquidos há 4h, sem urinar nas últimas 6h. Irritável e chorosa. Olhos levemente fundos, PA e FC normais.
➡️ Fluxograma: “Diarreia com recusa alimentar”
➡️ Discriminador: “Incapacidade de se Alimentar”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Menina de 4 anos, com dor de garganta e febre de 38,2 °C. Recusou almoço e jantar, mas tomou líquidos. Irritada, porém ativa. Sinais vitais normais.
➡️ Fluxograma: “Infecção de vias aéreas superiores”
➡️ Discriminador: “Incapacidade de se Alimentar”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
✅ Situação 4 – Classificação Verde
Criança de 3 anos, com quadro de virose leve. Redução do apetite há 12h, mas aceitando líquidos e sucos. Ativa, sem febre ou sinais de alarme. Urinou normalmente.
➡️ Fluxograma: “Virose leve com inapetência”
➡️ Discriminador: “Incapacidade de se Alimentar”
➡️ Classificação: verde – atendimento em até 120 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
-
Avaliar idade e tempo de recusa alimentar;
-
Verificar sinais de:
-
Desidratação;
-
Vômitos persistentes;
-
Prostração ou letargia;
-
Febre, dor, sinais de infecção;
-
-
Avaliar aceitação de líquidos e urina nas últimas horas;
-
Acolher com escuta ativa os responsáveis;
-
Encaminhar conforme gravidade observada;
-
Registrar:
-
Tempo sem alimentação;
-
Presença de vômitos ou febre;
-
Estado geral e sinais vitais;
-
Respostas da criança aos estímulos.
-
✅ Conclusão
O discriminador “Incapacidade de se Alimentar” é fundamental na triagem pediátrica, pois a recusa alimentar pode ser o primeiro sinal de alerta para doenças graves em crianças. Sua aplicação adequada contribui para o diagnóstico precoce de desidratação, infecção sistêmica e distúrbios metabólicos, garantindo um atendimento mais seguro, rápido e eficiente.