55 - Fezes Escuras
Fezes Escuras
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em hemorragias digestivas
O discriminador “Fezes Escuras” refere-se à presença de fezes pretas, muitas vezes descritas como pegajosas, brilhantes ou com odor fétido característico, clinicamente chamadas de melena. Essa condição ocorre, geralmente, devido à presença de sangue digerido no trato gastrointestinal, sendo um sinal clássico de sangramento digestivo alto, o que configura uma emergência médica potencialmente grave.
No Protocolo de Manchester, a detecção de fezes escurecidas deve ser interpretada como um sinal de alerta, especialmente se associada a outros sintomas como tontura, palidez, queda de pressão arterial, dor abdominal, vômitos com sangue ou uso de medicamentos ulcerogênicos.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Fezes Escuras:
Qualquer apresentação de fezes pretas, mesmo sem sangue visível, deve ser considerada um possível sinal de hemorragia digestiva alta, exigindo avaliação médica imediata.
Essa alteração não deve ser confundida com escurecimento das fezes por uso de ferro, bismuto ou certos alimentos, embora essa diferenciação nem sempre seja possível de imediato na triagem. Em caso de dúvida, deve-se presumir risco elevado.
🧠 Possíveis causas clínicas associadas a fezes escuras
🔴 Hemorragia digestiva alta (principais causas):
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Úlcera gástrica ou duodenal sangrante
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Gastrite ou esofagite erosiva grave
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Varizes esofágicas rotas (em hepatopatas)
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Neoplasias gástricas sangrantes
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Síndrome de Mallory-Weiss (laceração de esôfago após vômitos)
🟠 Outras causas possíveis:
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Uso de AINEs, aspirina ou anticoagulantes
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Pós-cirurgia gastrointestinal recente
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Sangramento nasal ou orofaríngeo deglutido
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Uso de carvão ativado, suplementos de ferro ou bismuto
⚠️ O sangramento digestivo alto pode ser oculto e insidioso, mesmo quando os sinais vitais estão inicialmente normais. A melena pode preceder episódios de hematêmese ou choque hipovolêmico.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Investigar a alteração nas fezes relatada pelo paciente:
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“Quando percebeu as fezes escuras?”
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“As fezes estão pretas, pastosas, com cheiro muito forte?”
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“Já teve esse tipo de fezes antes?”
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“Está usando ferro ou tomou carvão ativado?”
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Avaliar sintomas associados:
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Tontura, fraqueza, síncope ou palidez;
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Dor abdominal, náuseas, vômitos com sangue;
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Taquicardia, hipotensão, sudorese fria;
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Uso de medicamentos ulcerogênicos ou anticoagulantes.
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Verificar sinais vitais e perfusão:
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PA < 100 mmHg ou queda em relação ao habitual;
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FC > 100 bpm;
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Tempo de enchimento capilar aumentado;
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Nível de consciência preservado ou rebaixado.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Fezes Escuras” pode ser utilizado nos fluxogramas:
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Hemorragia digestiva / gastrointestinal
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Dor abdominal com sinais sistêmicos
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Vômitos com suspeita de sangue (hematêmese)
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Tontura ou síncope com causa indefinida
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Queda do estado geral em idosos ou hepatopatas
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Fezes pretas +:
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Hipotensão (PAS < 90 mmHg), taquicardia intensa (> 120 bpm);
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Palidez, sudorese fria, confusão mental;
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Episódio de vômito com sangue ou síncope recente;
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Paciente hepatopata ou em uso de anticoagulantes;
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Sinais de choque hipovolêmico iminente.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Fezes pretas +:
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Tontura ou fraqueza postural;
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PA e FC normais, mas com história de sangramento digestivo prévio;
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Dor abdominal contínua;
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Uso recente de AINEs, AAS ou anticoagulantes;
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Paciente com histórico de úlcera ou doença hepática.
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Relato de fezes pretas isoladas, com:
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Estado geral preservado;
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Ausência de sinais sistêmicos;
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Sem fatores de risco evidentes;
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Primeira ocorrência, sem outros sintomas.
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🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
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Situações bem estabelecidas, com causa conhecida e segura:
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Uso de suplemento de ferro, carvão ativado ou bismuto;
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Paciente orientado previamente em consulta sobre o efeito colateral;
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Sem sintomas associados e com boa perfusão.
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⚠️ Mesmo na cor verde, o registro deve ser claro quanto à orientação clínica e causa identificada. Em caso de dúvida, optar por segurança e reclassificar.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 58 anos, etilista crônico, apresenta fezes pretas há 2 dias, hoje com queda de pressão (PA 88/60 mmHg), FC 132 bpm e confusão mental leve. Refere mal-estar e dor epigástrica.
➡️ Fluxograma: “Hemorragia digestiva em hepatopata”
➡️ Discriminador: “Fezes Escuras”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 65 anos, em uso de AAS + clopidogrel, relata fezes escurecidas e pastosas nas últimas 24h. Refere tontura ao se levantar e discreta dor epigástrica. PA 110/70 mmHg, FC 100 bpm.
➡️ Fluxograma: “Sangramento digestivo suspeito”
➡️ Discriminador: “Fezes Escuras”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Homem de 40 anos, relata única evacuação escura hoje pela manhã. Sem dor, vômito ou tontura. Usa pantoprazol preventivamente. Sinais vitais normais.
➡️ Fluxograma: “Alteração nas fezes”
➡️ Discriminador: “Fezes Escuras”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
✅ Situação 4 – Classificação Verde
Paciente de 30 anos, iniciou suplemento de ferro há 3 dias. Relata fezes escuras, sem odor fétido, sem dor ou mal-estar. Sinais vitais normais. Estado geral bom.
➡️ Fluxograma: “Efeito medicamentoso esperado”
➡️ Discriminador: “Fezes Escuras”
➡️ Classificação: verde – atendimento em até 120 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Investigar:
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Cor, consistência e odor das fezes;
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Frequência e tempo de início da alteração;
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Uso de medicamentos (ferro, anticoagulantes, AINEs);
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Sinais de sangramento digestivo ou hipotensão;
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Avaliar:
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Sinais vitais completos (PA, FC, FR, SpO₂);
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Estado de consciência e perfusão periférica;
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Encaminhar conforme risco;
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Registrar:
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Descrição das fezes;
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Sintomas associados;
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Medicamentos em uso;
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Classificação atribuída e justificativa.
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✅ Conclusão
O discriminador “Fezes Escuras” é um marcador importante na triagem para a detecção precoce de hemorragias digestivas altas, especialmente em pacientes com fatores de risco como uso de medicamentos ulcerogênicos ou doenças hepáticas.
Sua aplicação correta na triagem permite ao enfermeiro classificador agir de forma segura e precisa, garantindo o encaminhamento imediato nos casos graves e o acolhimento adequado nas situações de menor risco.