58 - Fratura Exposta
Fratura Exposta
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em trauma ortopédico grave
A fratura exposta (também chamada de fratura aberta) é uma emergência ortopédica caracterizada pela disrupção do osso com comunicação direta com o meio externo, ou seja, há uma ferida na pele e tecidos moles que expõe ou se comunica com o osso fraturado.
Mesmo nos casos em que o osso não esteja visível, qualquer ferimento na proximidade de uma fratura deve ser considerado como potencialmente exposto, conforme orienta o Protocolo de Manchester.
Essa condição representa risco aumentado de infecção óssea (osteomielite), sangramento, lesão de nervos e vasos, e necessidade de intervenção cirúrgica urgente.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Fratura Exposta:
Situação em que há perda da continuidade óssea, com separação do osso em dois ou mais fragmentos após trauma, associada à perfuração da pele na área da fratura.
Toda lesão cutânea próxima de fratura deve ser considerada como potencialmente comunicante com o foco da fratura, até que se prove o contrário.
Essa definição amplia a atenção clínica não apenas para fraturas com osso visível, mas também para feridas que podem parecer superficiais, mas que estão sobre fraturas com risco real de comunicação.
🧠 Possíveis causas clínicas associadas à fratura exposta
🔴 Mecanismos de trauma mais frequentes:
-
Acidentes automobilísticos (colisão ou atropelamento)
-
Quedas de altura com impacto direto
-
Ferimentos com arma branca ou arma de fogo envolvendo ossos longos
-
Acidentes com máquinas industriais ou agrícolas
-
Traumas esportivos de alta energia
🟠 Áreas mais comuns de fratura exposta:
-
Tíbia e fíbula (pernas) – devido à localização subcutânea;
-
Rádio e ulna (antebraço) – em quedas com mão espalmada;
-
Fêmur e úmero – em acidentes de alta energia;
-
Falanges e metacarpos – em esmagamentos manuais.
⚠️ A fratura exposta tem potencial elevado de contaminação bacteriana, sendo indicada para antibioticoterapia precoce e limpeza cirúrgica de urgência.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
-
Observar sinais clássicos de fratura exposta:
-
Ferida aberta com exposição de tecido profundo ou osso visível;
-
Presença de sangramento ativo no local da fratura;
-
Deformidade importante do membro com laceração cutânea próxima;
-
Impossibilidade de movimentação e dor intensa.
-
-
Questionar o mecanismo do trauma:
-
“Foi uma queda de que altura?”
-
“Houve colisão com veículo ou objeto pesado?”
-
“A ferida sangrou muito na hora?”
-
“Você viu osso para fora?”
-
-
Avaliar sinais sistêmicos e neurológicos associados:
-
Sinais de choque (hipotensão, palidez, sudorese fria);
-
Diminuição da perfusão periférica do membro;
-
Perda de sensibilidade ou motricidade distal (lesão vascular ou nervosa).
-
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Fratura Exposta” pode ser utilizado nos fluxogramas:
-
Trauma ortopédico / fraturas de membros
-
Ferimentos com exposição óssea
-
Acidente de alta energia com suspeita de fratura aberta
-
Lesões penetrantes em ossos longos
-
Politraumatizados com deformidades e feridas próximas a ossos
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
-
Fratura exposta +:
-
Sangramento ativo intenso e não controlado;
-
Sinais de choque hipovolêmico (PA < 90 mmHg, FC > 120 bpm);
-
Lesão vascular evidente (ausência de pulso distal, isquemia);
-
Fratura exposta em múltiplos segmentos (trauma de alta energia);
-
Fratura + comprometimento neurológico motor ou sensitivo.
-
🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
-
Fratura exposta com:
-
Sangramento controlado;
-
Sinais vitais estáveis;
-
Dor intensa e deformidade evidente;
-
Exposição óssea visível ou suspeita clara de comunicação com ferida;
-
Sem perfusão comprometida.
-
🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
Não se aplica para fraturas expostas, pois toda suspeita ou confirmação de exposição deve receber prioridade mais alta (laranja ou vermelho).
🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
Não se aplica a fraturas expostas. Casos de fraturas fechadas e estáveis podem ser classificados como verde, mas nunca com presença de ferida suspeita.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 34 anos, vítima de acidente de moto. Apresenta fratura exposta de tíbia com sangramento ativo pulsátil, pele aberta com osso visível, ausência de pulso distal no pé, PA 88/60 mmHg, FC 132 bpm.
➡️ Fluxograma: “Trauma grave de membros inferiores”
➡️ Discriminador: “Fratura Exposta”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 40 anos, queda de escada com fratura visível em antebraço esquerdo. Ferida cortante de 4 cm sobre a deformidade óssea. Dor intensa, mas sinais vitais estáveis, com boa perfusão distal.
➡️ Fluxograma: “Fratura com suspeita de comunicação”
➡️ Discriminador: “Fratura Exposta”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
-
Avaliar visualmente a área do trauma, sem manipular o local da fratura;
-
Identificar:
-
Sangramento ativo;
-
Presença de exposição óssea;
-
Perfusão distal (cor, temperatura, pulso, movimento e sensibilidade);
-
-
Imobilizar provisoriamente, sem tentar realinhar;
-
Cobrir a ferida com compressa estéril umedecida com soro fisiológico;
-
Avaliar sinais vitais completos;
-
Acionar equipe médica emergencial imediatamente;
-
Registrar:
-
Local e tipo de fratura;
-
Mecanismo do trauma;
-
Presença ou suspeita de exposição óssea;
-
Tempo desde o trauma;
-
Sinais associados (sangramento, perfusão, dor).
-
✅ Conclusão
O discriminador “Fratura Exposta” indica uma emergência ortopédica com risco elevado de infecção, hemorragia e dano vascular ou neurológico, exigindo classificação de alta prioridade na triagem.
O reconhecimento precoce e a correta aplicação desse critério pelo enfermeiro classificador são fundamentais para garantir tratamento cirúrgico precoce, redução de complicações e melhores desfechos funcionais.