Grande Hemorragia Incontrolável

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em sangramentos agudos e choque hipovolêmico

A grande hemorragia incontrolável é definida como um sangramento rápido, volumoso e contínuo, que não pode ser contido por compressão direta ou curativo compressivo simples, e que ensopa rapidamente compressas ou gazes, sinalizando risco iminente de hipovolemia, choque e óbito.

No Protocolo de Manchester, esse discriminador exige atenção imediata e classificação como prioridade máxima (vermelho), pois representa risco direto à vida e requer intervenções de suporte circulatório e controle hemostático urgente.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Grande Hemorragia Incontrolável:
Sangramento que não pode ser controlado com pressão direta contínua, apresentando fluxo intenso, com impregnação rápida de curativos ou pensos, comprometendo rapidamente a perfusão sistêmica e colocando o paciente em risco de choque hipovolêmico grave.

Esse discriminador inclui tanto hemorragias externas (visíveis) quanto internas com sinais evidentes, quando o sangramento se manifesta por queda de pressão, taquicardia e perfusão periférica comprometida.


🧠 Principais causas clínicas associadas

🔴 Traumas com lesão vascular evidente:

  • Ferimentos cortantes ou perfurantes em grandes vasos (carótida, femoral, radial, jugular);

  • Amputações parciais ou totais;

  • Trauma abdominal ou torácico com sangramento externo visível;

  • Fraturas expostas com sangramento arterial ativo.

🔴 Condições clínicas não traumáticas:

  • Hemorragias digestivas altas ou baixas volumosas;

  • Hemorragias uterinas graves (ex: abortamento séptico, mioma sangrante);

  • Sangramento nasal arterial com perda contínua (epistaxe grave);

  • Ruptura de varizes esofágicas;

  • Coagulopatias graves ou uso de anticoagulantes sem controle;

  • Complicações cirúrgicas com sangramento ativo.

⚠️ Sangramentos que encharcam mais de uma compressa por minuto ou são pulsáteis e visíveis, devem ser tratados como hemorragias incontroláveis até que o contrário seja comprovado.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Observar o local do sangramento:

    • Sangue jorrando, escorrendo ou escurecendo rapidamente os curativos;

    • Sangramento visivelmente pulsátil (arterial);

    • Fraturas expostas ou lesões penetrantes com perda ativa de sangue.

  2. Verificar a efetividade da compressão:

    • Está sendo feita pressão direta contínua?

    • Mesmo com pressão, o sangramento não para ou aumenta?

    • O paciente está usando várias compressas encharcadas?

  3. Avaliar sinais sistêmicos de hipovolemia:

    • Taquicardia (> 120 bpm), hipotensão (< 90 mmHg sistólica);

    • Extremidades frias, sudorese, palidez cutânea;

    • Confusão, agitação ou rebaixamento do nível de consciência;

    • Tempo de enchimento capilar aumentado (> 3 segundos).


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Grande Hemorragia Incontrolável” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Trauma com lesão vascular evidente

  • Hemorragia digestiva (com vômito ou fezes com sangue)

  • Epistaxe grave e incontrolável

  • Complicações de parto, aborto ou ginecológicas

  • Complicações pós-cirúrgicas

  • Hemorragia retal ou vaginal em coagulopatas


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Qualquer hemorragia com:

    • Fluxo intenso, visivelmente ativo;

    • Sangue pulsando (arterial) ou escorrendo continuamente;

    • Compressas totalmente encharcadas a cada poucos minutos;

    • Sinais de instabilidade hemodinâmica: PA < 90 mmHg, FC > 120 bpm;

    • Presença de rebaixamento de consciência ou confusão.

❗ Esse discriminador exige ação imediata e simultânea com o atendimento da equipe médica. O paciente deve ser conduzido diretamente à sala de emergência ou centro cirúrgico.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 38 anos, vítima de agressão com faca na região femoral. Sangue jorrando do ferimento, compressa encharcada a cada 30 segundos. FC 132 bpm, PA 88/60 mmHg, pele fria.

➡️ Fluxograma: “Trauma vascular de membros”
➡️ Discriminador: “Grande Hemorragia Incontrolável”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Vermelha

Mulher de 50 anos, com sangramento vaginal abundante após curetagem recente. Já trocou 3 absorventes completamente encharcados na última hora. PA 85/55 mmHg, FC 124 bpm, sudorese e confusão.

➡️ Fluxograma: “Hemorragia ginecológica intensa”
➡️ Discriminador: “Grande Hemorragia Incontrolável”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Interromper a triagem formal e acionar a equipe médica imediatamente;

  • Iniciar manobras de contenção de sangramento:

    • Pressão direta constante e firme no local da lesão;

    • Aplicar torniquete se permitido e indicado (ex: amputação traumática);

  • Colocar o paciente em decúbito supino com pernas elevadas (se não houver trauma torácico);

  • Monitorar sinais vitais continuamente;

  • Registrar:

    • Local do sangramento;

    • Duração e volume estimado da perda;

    • Resposta à compressão;

    • Condição geral e tempo de evolução;

  • Garantir acesso venoso, monitor e encaminhamento imediato à sala de emergência ou centro cirúrgico.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Grande Hemorragia Incontrolável” representa uma condição crítica de urgência absoluta, em que a rápida perda sanguínea compromete a perfusão tecidual e ameaça a vida em minutos. A intervenção precoce do enfermeiro classificador, com ação imediata, técnica e comunicação eficiente, é vital para o salvamento do paciente.

Este discriminador reforça a importância da triagem dinâmica, com olhar clínico e tomada de decisão rápida, como propõe o Protocolo de Manchester.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 21:15