Hematoquezia, Melena ou Retorragia

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco nas hemorragias digestivas

As alterações na cor e aparência das fezes com presença de sangue indicam sinais clínicos importantes de sangramento no trato gastrointestinal, cuja origem pode ser alta ou baixa.

O Protocolo de Manchester agrupa, como discriminador, três manifestações diferentes porém relacionadas:

  • Hematoquezia

  • Melena

  • Retorragia

Todas representam sinais de sangramento gastrointestinal visível, exigindo atenção especial durante a triagem, especialmente quando associadas a sintomas sistêmicos como tontura, hipotensão, taquicardia, palidez ou rebaixamento do nível de consciência.


📌 Definições segundo o Protocolo de Manchester

Hematoquezia
Presença de sangue vermelho vivo misturado às fezes, geralmente associada a sangramentos do trato digestivo baixo (ex: cólon, reto, ânus). Pode também ocorrer em sangramentos altos de grande volume, quando o trânsito intestinal é muito rápido.

Melena
Fezes pastosas, escurecidas, com aspecto piche e odor fétido, indicativas de sangramento digestivo alto, geralmente com tempo suficiente para digestão parcial do sangue (ex: estômago ou duodeno).

Retorragia
Emissão de sangue vermelho vivo pelo reto, sem mistura com fezes, podendo ocorrer de forma isolada. Comum em hemorroidas, fissuras anais ou sangramentos distais do reto/sigmoide.


🧠 Etiologia: principais causas clínicas associadas

🔴 Causas de hematoquezia / retorragia (sangue vermelho vivo):

  • Hemorroidas internas sangrantes;

  • Fissura anal;

  • Pólipos intestinais ou câncer colorretal;

  • Diverticulite com sangramento;

  • Colite isquêmica ou inflamatória;

  • Angiodisplasias de cólon;

  • Sangramento digestivo alto maciço e rápido (em trânsito acelerado, o sangue não é digerido).

🔴 Causas de melena (fezes negras):

  • Úlcera gástrica ou duodenal;

  • Gastrite ou esofagite erosiva;

  • Varizes esofágicas sangrantes (hepatopatas);

  • Neoplasia gástrica ulcerada;

  • Uso de AINEs ou anticoagulantes com lesão gástrica.

⚠️ A quantidade, coloração e padrão do sangramento ajudam na localização do ponto de origem e na definição da gravidade.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Perguntar sobre o aspecto das fezes ou sangramento retal:

    • “Havia sangue nas fezes? Era vermelho claro, escuro ou preto?”

    • “O sangue estava misturado às fezes ou separado?”

    • “Ocorreu dor para evacuar?”

    • “Quantas vezes aconteceu?”

    • “Há histórico de hemorroidas ou sangramentos prévios?”

  2. Investigar sintomas associados:

    • Tontura, fraqueza, palidez, sudorese, desmaio;

    • Dor abdominal, náuseas, vômitos;

    • Dor retal, esforço para evacuar, constipação;

    • Uso de medicamentos (anticoagulantes, AINEs, laxantes).

  3. Verificar sinais vitais e perfusão periférica:

    • Hipotensão, taquicardia, rebaixamento de consciência;

    • Palidez mucocutânea, extremidades frias;

    • Tempo de enchimento capilar;

    • Presença de sinais de choque.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Hematoquezia / Melena / Retorragia” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Hemorragia digestiva (alta ou baixa)

  • Dor abdominal com sinais de sangramento

  • Paciente com instabilidade hemodinâmica e fezes alteradas

  • Sangramento retal espontâneo

  • Queda do estado geral em idosos

  • Pós-procedimentos gastrointestinais


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Sangramento anal ou fecal com:

    • Sangue vivo em grande quantidade (gotejamento, jato ou coágulos);

    • Hipotensão (PAS < 90 mmHg), FC > 120 bpm;

    • Confusão mental, palidez intensa, rebaixamento de consciência;

    • Vômito com sangue + fezes negras (dupla manifestação);

    • Cirrose, anticoagulante ou histórico de sangramento digestivo grave.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Fezes com sangue (vermelho vivo ou escuro) com:

    • Tontura, fraqueza, hipotensão leve;

    • PA e FC estáveis, mas com história preocupante (câncer, úlcera, cirrose);

    • Paciente em uso de anticoagulante;

    • Sangramento persistente, mesmo que de menor intensidade.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Sangramento leve com:

    • Sangue apenas no papel higiênico ou em pequena quantidade nas fezes;

    • Dor anal associada (ex: fissura, esforço evacuatório);

    • Histórico de hemorroidas já investigado;

    • Ausência de sintomas sistêmicos e sinais vitais normais.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

Não recomendado para casos com presença de sangue visível nas fezes.
Mesmo quadros leves devem ser classificados pelo menos como amarelo, exceto quando:

  • Já avaliados e em tratamento;

  • Sem sangramento ativo no momento;

  • Com causa já definida e sem agravamento.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 60 anos, vomitou sangue pela manhã e, após isso, evacuou fezes negras com odor fétido. Está pálido, PA 85/60 mmHg, FC 130 bpm, confuso. Cirrótico conhecido.

➡️ Fluxograma: “Hemorragia digestiva alta em hepatopata”
➡️ Discriminador: “Melena + hematêmese”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Laranja

Mulher de 70 anos, em uso de varfarina, evacuação com sangue vermelho vivo misturado às fezes (hematoquezia), PA 110/70 mmHg, FC 102 bpm, queixa de fraqueza e tontura.

➡️ Fluxograma: “Hemorragia digestiva baixa”
➡️ Discriminador: “Hematoquezia”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Homem de 42 anos, refere sangramento anal em pequena quantidade, sempre após evacuação. Sem dor, sem tontura, com histórico de hemorroidas. Sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Sangramento anal leve”
➡️ Discriminador: “Retorragia leve”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Perguntar sobre cor, frequência, volume e padrão do sangramento;

  • Avaliar sinais vitais completos e perfusão;

  • Investigar uso de medicamentos e histórico gastrointestinal;

  • Observar sinais clínicos de choque ou descompensação;

  • Registrar:

    • Tipo de sangramento: hematoquezia, melena ou retorragia;

    • Sintomas associados (dor, tontura, vômito, palidez);

    • Fatores de risco;

  • Encaminhar conforme classificação atribuída;

  • Acionar equipe médica em casos graves ou instáveis.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Hematoquezia / Melena / Retorragia” permite ao enfermeiro identificar precocemente sangramentos gastrointestinais visíveis, que podem variar de quadros benignos a emergências clínicas com risco de morte. A correta avaliação da cor, quantidade e apresentação do sangue nas fezes, aliada à análise dos sinais vitais e histórico do paciente, é essencial para uma triagem segura, humanizada e eficaz.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 21:36