Hematoma do Couro Cabeludo

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em traumas cranianos

O hematoma do couro cabeludo é uma acumulação de sangue entre o couro cabeludo e a calota craniana, resultante geralmente de trauma contuso. Clinicamente, se manifesta como uma área elevada, arredondada, de consistência firme ou flutuante, localizada acima da linha de implantação capilar.

Embora, na maioria dos casos, seja uma lesão benigna e autolimitada, sua presença pode indicar impacto significativo na cabeça e, em determinados contextos, deve levantar suspeita de traumatismo cranioencefálico (TCE), lesões intracranianas ou até mesmo abuso físico em crianças.

No Protocolo de Manchester, o discriminador “Hematoma do Couro Cabeludo” tem papel fundamental na triagem de traumas cefálicos, especialmente em populações vulneráveis como crianças, idosos e pacientes anticoagulados.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Hematoma do Couro Cabeludo:
Lesão visível ou palpável em forma de elevação arredondada ou inchada sobre o couro cabeludo, localizada acima da linha de implantação dos cabelos, causada por acúmulo de sangue subcutâneo devido a trauma contuso.
Pode ser indolor ou doloroso à palpação, e seu tamanho não determina a gravidade do TCE subjacente.


🧠 Causas clínicas e situações de risco associadas

🔴 Traumas mais comuns que causam hematomas no couro cabeludo:

  • Quedas da própria altura, especialmente em idosos ou crianças;

  • Batidas acidentais em móveis ou quinas;

  • Colisões em acidentes automobilísticos;

  • Agressões físicas com ou sem objeto contundente;

  • Partos difíceis (em neonatos) com formação de cefalo-hematomas.

🟠 Fatores de risco para gravidade associada:

  • Idade < 2 anos ou > 65 anos;

  • Pacientes em uso de anticoagulantes ou com coagulopatias;

  • História de vômitos pós-trauma, convulsões ou perda de consciência;

  • Presença de sinais neurológicos anormais;

  • Hematoma de grande volume ou rápido crescimento;

  • Associado a outros sinais de fratura (rinorreia, otorragia, sinal de Battle).

⚠️ Em crianças pequenas, hematomas no couro cabeludo — especialmente quando múltiplos ou em locais incomuns — devem levantar suspeita de maus-tratos.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Inspecionar cuidadosamente o couro cabeludo:

    • Presença de elevação visível?

    • Tamanho aproximado do hematoma (pequeno, moderado, volumoso)?

    • Sensibilidade local à palpação?

  2. Investigar a história do trauma:

    • “Bateu a cabeça? Onde? Como foi a queda?”

    • “Perdeu a consciência?”

    • “Vomitou após a batida?”

    • “Está com dor de cabeça, sonolência ou visão turva?”

  3. Avaliar o risco associado:

    • Idade, uso de anticoagulantes, distúrbios de coagulação;

    • Presença de alteração do nível de consciência, confusão, sonolência;

    • Pupilas isocóricas e reativas;

    • Escala de Coma de Glasgow.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Hematoma do Couro Cabeludo” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Trauma craniano / pancada na cabeça

  • Criança com trauma ou choro inconsolável após queda

  • Idoso que sofreu queda com batida de cabeça

  • Alterações do nível de consciência após trauma

  • Paciente anticoagulado com trauma leve


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Hematoma do couro cabeludo com:

    • Perda de consciência, rebaixamento de nível de consciência ou confusão mental;

    • Glasgow < 13;

    • Vômitos persistentes, convulsões;

    • Déficits neurológicos (paresias, fala arrastada, pupilas desiguais);

    • Uso de anticoagulantes + sinais de TCE.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Hematoma com:

    • Vômito isolado após o trauma;

    • Sonolência leve, dor de cabeça intensa;

    • Criança < 1 ano com hematoma volumoso;

    • Idoso com hematoma + desequilíbrio ou tontura;

    • Paciente com história de TCE anterior ou epilepsia.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Hematoma isolado, pequeno ou moderado, com:

    • Mecanismo leve de trauma (batida em móvel);

    • Sem vômito, sem confusão mental, sem outros sintomas;

    • Sinais vitais normais, paciente orientado.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

  • Hematoma antigo ou estabilizado, sem dor ou queixa associada;

  • Vem para avaliação de rotina pós-trauma (mais de 48h), sem sintomas;

  • Criança ativa e bem-disposta com hematoma pequeno após trauma leve, sem outros sinais de alarme.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 70 anos, em uso de varfarina, sofreu queda em casa, bateu a cabeça e perdeu a consciência por 3 minutos. Apresenta hematoma frontal volumoso, PA 100/60 mmHg, FC 110 bpm, confuso, Glasgow 12.

➡️ Fluxograma: “Trauma craniano em anticoagulado”
➡️ Discriminador: “Hematoma do Couro Cabeludo + perda de consciência”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Laranja

Criança de 9 meses, caiu da cama (~60 cm de altura). Hematoma parietal direito com 3 cm, chora ao toque, vomitou uma vez após o trauma, mas está alerta.

➡️ Fluxograma: “Trauma em criança com hematoma e vômito”
➡️ Discriminador: “Hematoma do Couro Cabeludo”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Adolescente de 15 anos, bateu a cabeça ao levantar-se, refere dor local leve. Apresenta pequeno hematoma occipital. Sem vômito, sem tontura, sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Trauma leve em adolescente”
➡️ Discriminador: “Hematoma do Couro Cabeludo”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Inspecionar e palpar o couro cabeludo com cuidado;

  • Avaliar:

    • Tamanho e localização do hematoma;

    • Presença de dor, flutuação ou sinais inflamatórios;

    • Sintomas neurológicos ou sinais de TCE;

  • Verificar sinais vitais e aplicar Escala de Coma de Glasgow;

  • Investigar uso de anticoagulantes ou distúrbios de coagulação;

  • Registrar:

    • Dinâmica do trauma (queda, batida, impacto);

    • Tempo de evolução e sintomas associados;

  • Encaminhar com prioridade conforme risco identificado.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Hematoma do Couro Cabeludo” é um marcador importante em triagens de trauma cefálico, especialmente em crianças, idosos e pacientes com comorbidades. Embora muitos casos sejam leves, a atenção aos sinais neurológicos associados, histórico do trauma e fatores de risco é essencial para prevenir complicações graves como TCE oculto, hematoma subgaleal, ou sangramento intracraniano.

A correta observação clínica, escuta ativa e classificação precisa por parte do enfermeiro é determinante para garantir atendimento seguro, oportuno e eficaz.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 21:49