71 - Hiperglicemia
Hiperglicemia
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco metabólico e descompensações diabéticas
A hiperglicemia é definida como a elevação dos níveis de glicose no sangue acima dos valores normais. De acordo com o Protocolo de Manchester, considera-se hiperglicemia a glicemia capilar > 200 mg/dL. Embora essa alteração não signifique, isoladamente, uma urgência em todos os casos, ela pode sinalizar risco aumentado de descompensações agudas, como cetoacidose diabética (CAD) ou síndrome hiperosmolar hiperglicêmica (SHH), especialmente em pacientes com diabetes mellitus.
O reconhecimento precoce desse discriminador permite ao enfermeiro avaliar o risco metabólico e clínico associado à glicemia elevada, auxiliando na priorização correta durante a triagem.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Hiperglicemia:
Glicemia capilar superior a 200 mg/dL, independentemente da presença ou não de sintomas.
A elevação pode ocorrer em:
Pacientes com diabetes mellitus tipo 1 ou 2;
Usuários de corticoides ou medicamentos hiperglicemiantes;
Situações de estresse fisiológico intenso (infecções, trauma, infarto, AVC);
Casos agudos como CAD ou SHH.
🧠 Possíveis causas clínicas associadas à hiperglicemia
🔴 Descompensações agudas:
-
Cetoacidose diabética (CAD): comum em DM tipo 1, com náuseas, vômitos, dor abdominal, hálito cetônico e respiração de Kussmaul.
-
Síndrome hiperosmolar hiperglicêmica (SHH): comum em DM tipo 2, marcada por desidratação grave, rebaixamento do nível de consciência e glicemias > 600 mg/dL.
🟠 Outras causas relevantes:
-
Infecções (ITUs, pneumonia, sepse);
-
Infarto agudo do miocárdio (IAM);
-
Acidente vascular cerebral (AVC);
-
Uso de corticoides, betabloqueadores, diuréticos tiazídicos;
-
Alimentação rica em açúcares simples ou jejum prolongado seguido de hiperalimentação.
⚠️ Em pacientes não diabéticos, a hiperglicemia pode ser o primeiro sinal de diabetes não diagnosticado ou um efeito transitório do estresse fisiológico.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
-
Aferir a glicemia capilar (com aparelho calibrado e paciente em repouso):
-
Registrar o valor obtido com data e hora;
-
Confirmar se o paciente está em jejum ou alimentado.
-
-
Investigar sintomas associados à hiperglicemia:
-
Poliúria (urina frequente);
-
Polidipsia (sede intensa);
-
Fadiga, visão embaçada;
-
Náuseas, vômitos, dor abdominal;
-
Sonolência, desorientação ou rebaixamento do nível de consciência.
-
-
Verificar sinais de gravidade:
-
Respiração rápida e profunda (padrão de Kussmaul);
-
Odor cetônico na respiração;
-
Desidratação (língua seca, pele ressecada, hipotensão);
-
Presença de febre ou infecção evidente.
-
🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Hiperglicemia” pode ser utilizado nos fluxogramas:
-
Alteração dos níveis de glicose / diabetes descompensado
-
Dor abdominal com sintomas sistêmicos
-
Quadros de confusão mental ou rebaixamento da consciência
-
Infecção urinária / respiratória com glicemia elevada
-
Pacientes em uso de corticoides com queixa de sintomas glicêmicos
-
Estado geral comprometido sem diagnóstico prévio de DM
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
-
Glicemia > 600 mg/dL com:
-
Rebaixamento do nível de consciência, confusão mental;
-
Desidratação grave, vômitos persistentes;
-
Respiração de Kussmaul, hálito cetônico;
-
PA sistólica < 90 mmHg, FC > 130 bpm;
-
Sinais de choque ou colapso circulatório.
-
🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
-
Glicemia entre 400–600 mg/dL com:
-
Náuseas, vômitos, dor abdominal moderada;
-
Hipotensão leve, taquicardia;
-
Idoso ou gestante com sintomas leves e glicemia persistente;
-
Infecção evidente com febre + hiperglicemia.
-
🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
-
Glicemia entre 200–399 mg/dL com:
-
Sintomas leves (sede, fraqueza, visão turva);
-
Sem sinais de desidratação grave;
-
Estado geral preservado, sem risco imediato;
-
Primeiro episódio em paciente não diabético (suspeita de DM).
-
🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
-
Glicemia levemente elevada (>200 mg/dL) sem sintomas associados;
-
Avaliação de rotina ou acompanhamento ambulatorial;
-
Hiperglicemia atribuída à má alimentação pontual, sem repercussão clínica;
-
Sem sinais de infecção, vômitos ou descompensação.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 50 anos, DM tipo 1, chega com vômitos, sonolência, dor abdominal e glicemia de 635 mg/dL. Respiração profunda e ofegante (Kussmaul), PA 90/60 mmHg, FC 138 bpm.
➡️ Fluxograma: “Cetoacidose diabética”
➡️ Discriminador: “Hiperglicemia”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 72 anos, DM2, febril, tosse produtiva, glicemia 480 mg/dL, PA 110/70 mmHg, FC 112 bpm. Refere fraqueza e náuseas leves.
➡️ Fluxograma: “Infecção respiratória em diabético”
➡️ Discriminador: “Hiperglicemia”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Homem de 45 anos, sem diagnóstico prévio de DM, chega com fadiga e glicemia de 315 mg/dL, sinais vitais normais, sem vômitos ou febre.
➡️ Fluxograma: “Avaliação de hiperglicemia sem sintomas graves”
➡️ Discriminador: “Hiperglicemia”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
-
Aferir e registrar a glicemia capilar imediatamente;
-
Avaliar:
-
Presença de sintomas associados (náuseas, vômitos, fraqueza);
-
Estado mental, hidratação, pressão arterial, pulso e respiração;
-
-
Questionar sobre:
-
Diagnóstico prévio de diabetes;
-
Uso de insulina, hipoglicemiantes orais ou corticoides;
-
-
Encaminhar conforme classificação de risco;
-
Iniciar medidas de suporte se necessário (oxigênio, hidratação venosa);
-
Registrar a hora da última refeição e sintomas clínicos relevantes.
✅ O que aprendemos
O discriminador “Hiperglicemia” é um alerta importante para descompensações metabólicas graves em pacientes diabéticos ou não, sendo um marcador clínico de triagem fundamental no Protocolo de Manchester.
A interpretação correta dos valores glicêmicos, associada à avaliação clínica criteriosa dos sintomas e do estado geral do paciente, permite ao enfermeiro classificador atuar com precisão e segurança, garantindo priorização adequada e redução de riscos.