72 - Hiperglicemia com Cetose
Hiperglicemia com Cetose
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em descompensações diabéticas agudas
A hiperglicemia com cetose é uma condição de alerta clínico que indica o início ou progressão de uma descompensação diabética aguda, especialmente a cetoacidose diabética (CAD). Ela ocorre quando a glicemia ultrapassa 200 mg/dL e há formação de corpos cetônicos no organismo — detectáveis por meio de cetonúria (urina) ou através de sinais clínicos de acidose metabólica, como respiração de Kussmaul (profunda e ofegante), hálito cetônico e sonolência.
No Protocolo de Manchester, este discriminador é um dos mais críticos entre os quadros metabólicos, pois indica risco iminente de desequilíbrio hidroeletrolítico, acidose metabólica severa, desidratação profunda e choque hipovolêmico.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Hiperglicemia com Cetose:
Glicemia > 200 mg/dL acompanhada de:
Cetonúria positiva (presença de corpos cetônicos na urina);
ouSinais clínicos de acidose metabólica, tais como:
Respiração de Kussmaul (profunda, rápida e ruidosa);
Hálito cetônico (odor adocicado ou de frutas passadas);
Náuseas, vômitos, dor abdominal;
Sonolência ou rebaixamento do nível de consciência.
🧠 Causas clínicas associadas à hiperglicemia com cetose
🔴 Mais comum em:
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Pacientes com Diabetes Mellitus tipo 1, com falha na administração de insulina ou infecções associadas;
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Adolescentes e crianças com diagnóstico recente de DM1;
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Pacientes com DM2 em estresse metabólico grave.
🔴 Fatores desencadeantes típicos:
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Infecções (ITUs, pneumonias, gastroenterites);
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Omissão de insulina ou erro na dose;
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Estresse físico (traumas, cirurgias, AVC);
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Doenças agudas não controladas;
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Uso de medicamentos hiperglicemiantes (ex: corticoides).
⚠️ A presença de cetose com hiperglicemia é o primeiro sinal de progressão para cetoacidose, e deve ser tratada como emergência metabólica potencial.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Aferir glicemia capilar:
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Confirmar que é superior a 200 mg/dL.
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Investigar sinais clínicos de acidose e cetose:
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Respiração ofegante e profunda (Kussmaul);
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Náuseas, vômitos, dor abdominal;
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Hálito com odor cetônico (frutado/adocicado);
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Sinais de desidratação (boca seca, pele fria, taquicardia);
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Confusão mental ou sonolência.
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Verificar ou solicitar exame de urina (cetonúria):
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Tiras reagentes de urina indicam presença de corpos cetônicos.
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Avaliar sinais vitais e perfusão periférica:
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PA, FC, FR, nível de consciência, temperatura, SpO₂.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Hiperglicemia com Cetose” pode ser utilizado nos fluxogramas:
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Descompensação diabética / Cetoacidose diabética
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Quadros com vômitos + glicemia alta
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Infecção em diabético com sinais sistêmicos
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Dor abdominal com alterações glicêmicas
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Estado geral comprometido com odor cetônico
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Glicemia > 250–300 mg/dL com:
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Respiração de Kussmaul;
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Rebaixamento do nível de consciência;
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PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm;
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Náuseas e vômitos incoercíveis;
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Desidratação grave e confusão mental;
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Cetonúria fortemente positiva (3 a 4 cruzes).
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Glicemia entre 200–400 mg/dL com:
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Presença de cetonúria leve ou moderada (1 a 2 cruzes);
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Náuseas leves, dor abdominal, hálito cetônico;
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Estado geral estável, porém em risco de evolução rápida;
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Sinais vitais discretamente alterados (FC > 100, PA normal).
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
Não se aplica à hiperglicemia com cetose.
Toda associação de glicemia > 200 mg/dL com sinais de cetose ou acidose exige classificação mínima como laranja.
🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
Também não se aplica a este discriminador.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Adolescente de 15 anos, DM1, chega com vômitos, dor abdominal, glicemia 530 mg/dL, respiração profunda e rápida, hálito cetônico. PA 88/55 mmHg, FC 138 bpm, sonolenta.
➡️ Fluxograma: “Cetoacidose diabética grave”
➡️ Discriminador: “Hiperglicemia com Cetose”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Homem de 40 anos, DM tipo 1, glicemia 385 mg/dL, com hálito adocicado, queixa de náusea leve, sem vômitos, PA 120/80 mmHg, FC 104 bpm. Urina com cetonúria ++.
➡️ Fluxograma: “Descompensação inicial do DM1”
➡️ Discriminador: “Hiperglicemia com Cetose”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Aferir glicemia e FR imediatamente;
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Observar padrão respiratório e estado de consciência;
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Perguntar sobre:
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Uso recente de insulina;
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Episódios anteriores de CAD;
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Presença de infecção ou jejum prolongado;
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Solicitar cetonúria, se disponível;
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Avaliar:
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PA, FC, Glasgow, SpO₂, perfusão periférica;
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Acionar equipe médica com urgência em caso de sinais vermelhos;
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Registrar detalhadamente todos os achados clínicos.
✅ Conclusão
O discriminador “Hiperglicemia com Cetose” representa uma das principais emergências metabólicas em pacientes com diabetes mellitus, especialmente o tipo 1. A correta identificação na triagem é fundamental para prevenir a progressão para cetoacidose grave, garantindo atendimento imediato, hidratação precoce e correção do distúrbio ácido-básico.
A atuação ágil e precisa do enfermeiro classificador é decisiva para salvar vidas nesses casos.