Hiperglicemia com Cetose

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em descompensações diabéticas agudas

A hiperglicemia com cetose é uma condição de alerta clínico que indica o início ou progressão de uma descompensação diabética aguda, especialmente a cetoacidose diabética (CAD). Ela ocorre quando a glicemia ultrapassa 200 mg/dL e há formação de corpos cetônicos no organismo — detectáveis por meio de cetonúria (urina) ou através de sinais clínicos de acidose metabólica, como respiração de Kussmaul (profunda e ofegante), hálito cetônico e sonolência.

No Protocolo de Manchester, este discriminador é um dos mais críticos entre os quadros metabólicos, pois indica risco iminente de desequilíbrio hidroeletrolítico, acidose metabólica severa, desidratação profunda e choque hipovolêmico.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Hiperglicemia com Cetose:
Glicemia > 200 mg/dL acompanhada de:

  • Cetonúria positiva (presença de corpos cetônicos na urina);
    ou

  • Sinais clínicos de acidose metabólica, tais como:

    • Respiração de Kussmaul (profunda, rápida e ruidosa);

    • Hálito cetônico (odor adocicado ou de frutas passadas);

    • Náuseas, vômitos, dor abdominal;

    • Sonolência ou rebaixamento do nível de consciência.


🧠 Causas clínicas associadas à hiperglicemia com cetose

🔴 Mais comum em:

  • Pacientes com Diabetes Mellitus tipo 1, com falha na administração de insulina ou infecções associadas;

  • Adolescentes e crianças com diagnóstico recente de DM1;

  • Pacientes com DM2 em estresse metabólico grave.

🔴 Fatores desencadeantes típicos:

  • Infecções (ITUs, pneumonias, gastroenterites);

  • Omissão de insulina ou erro na dose;

  • Estresse físico (traumas, cirurgias, AVC);

  • Doenças agudas não controladas;

  • Uso de medicamentos hiperglicemiantes (ex: corticoides).

⚠️ A presença de cetose com hiperglicemia é o primeiro sinal de progressão para cetoacidose, e deve ser tratada como emergência metabólica potencial.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Aferir glicemia capilar:

    • Confirmar que é superior a 200 mg/dL.

  2. Investigar sinais clínicos de acidose e cetose:

    • Respiração ofegante e profunda (Kussmaul);

    • Náuseas, vômitos, dor abdominal;

    • Hálito com odor cetônico (frutado/adocicado);

    • Sinais de desidratação (boca seca, pele fria, taquicardia);

    • Confusão mental ou sonolência.

  3. Verificar ou solicitar exame de urina (cetonúria):

    • Tiras reagentes de urina indicam presença de corpos cetônicos.

  4. Avaliar sinais vitais e perfusão periférica:

    • PA, FC, FR, nível de consciência, temperatura, SpO₂.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Hiperglicemia com Cetose” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Descompensação diabética / Cetoacidose diabética

  • Quadros com vômitos + glicemia alta

  • Infecção em diabético com sinais sistêmicos

  • Dor abdominal com alterações glicêmicas

  • Estado geral comprometido com odor cetônico


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Glicemia > 250–300 mg/dL com:

    • Respiração de Kussmaul;

    • Rebaixamento do nível de consciência;

    • PA < 90 mmHg, FC > 130 bpm;

    • Náuseas e vômitos incoercíveis;

    • Desidratação grave e confusão mental;

    • Cetonúria fortemente positiva (3 a 4 cruzes).

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Glicemia entre 200–400 mg/dL com:

    • Presença de cetonúria leve ou moderada (1 a 2 cruzes);

    • Náuseas leves, dor abdominal, hálito cetônico;

    • Estado geral estável, porém em risco de evolução rápida;

    • Sinais vitais discretamente alterados (FC > 100, PA normal).

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

Não se aplica à hiperglicemia com cetose.
Toda associação de glicemia > 200 mg/dL com sinais de cetose ou acidose exige classificação mínima como laranja.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

Também não se aplica a este discriminador.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Adolescente de 15 anos, DM1, chega com vômitos, dor abdominal, glicemia 530 mg/dL, respiração profunda e rápida, hálito cetônico. PA 88/55 mmHg, FC 138 bpm, sonolenta.

➡️ Fluxograma: “Cetoacidose diabética grave”
➡️ Discriminador: “Hiperglicemia com Cetose”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Laranja

Homem de 40 anos, DM tipo 1, glicemia 385 mg/dL, com hálito adocicado, queixa de náusea leve, sem vômitos, PA 120/80 mmHg, FC 104 bpm. Urina com cetonúria ++.

➡️ Fluxograma: “Descompensação inicial do DM1”
➡️ Discriminador: “Hiperglicemia com Cetose”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Aferir glicemia e FR imediatamente;

  • Observar padrão respiratório e estado de consciência;

  • Perguntar sobre:

    • Uso recente de insulina;

    • Episódios anteriores de CAD;

    • Presença de infecção ou jejum prolongado;

  • Solicitar cetonúria, se disponível;

  • Avaliar:

    • PA, FC, Glasgow, SpO₂, perfusão periférica;

  • Acionar equipe médica com urgência em caso de sinais vermelhos;

  • Registrar detalhadamente todos os achados clínicos.


✅ Conclusão

O discriminador “Hiperglicemia com Cetose” representa uma das principais emergências metabólicas em pacientes com diabetes mellitus, especialmente o tipo 1. A correta identificação na triagem é fundamental para prevenir a progressão para cetoacidose grave, garantindo atendimento imediato, hidratação precoce e correção do distúrbio ácido-básico.

A atuação ágil e precisa do enfermeiro classificador é decisiva para salvar vidas nesses casos.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 22:10