74 - Hipotermia
Hipotermia
Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em distúrbios térmicos
A hipotermia é definida como a condição clínica em que a temperatura corporal central cai para ≤35°C, sendo considerada uma emergência médica potencialmente letal. De acordo com o Protocolo de Manchester, se a pele estiver fria ao toque, o paciente já deve ser considerado clinicamente frio, sendo a mensuração da temperatura corporal central (preferencialmente retal, timpânica profunda ou esofágica) indicada o mais rápido possível.
A hipotermia pode ser acidental ou secundária a condições clínicas subjacentes como infecções, choque, intoxicações, uso de drogas depressoras do SNC, ou doenças endócrinas, e pode afetar especialmente idosos, pessoas em situação de rua, crianças e vítimas de afogamento ou exposição prolongada ao frio.
📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester
Hipotermia:
Temperatura corporal central igual ou inferior a 35°C, geralmente acompanhada de pele fria, lenta resposta neurológica, e bradicardia progressiva.
A simples percepção de pele fria ao toque já justifica a aplicação deste discriminador até que a temperatura central seja aferida e o risco excluído.
🧠 Causas clínicas e contextos comuns da hipotermia
🔴 Causas acidentais:
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Exposição prolongada ao frio (rua, enchentes, alagamentos, ambientes gelados);
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Afogamento ou submersão em água fria;
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Imobilidade prolongada em piso frio (quedas em idosos);
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Acidentes em trilhas, montanhas ou atividades ao ar livre.
🔴 Causas clínicas e secundárias:
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Sepse grave (hipotermia como sinal de choque séptico);
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Hipotireoidismo descompensado (coma mixedematoso);
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Insuficiência adrenal;
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Uso de álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos, opioides;
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Hipoglicemia grave;
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Trauma com hemorragia severa ou lesão neurológica central.
⚠️ A hipotermia pode ser silenciosa e insidiosa, especialmente em idosos, com rebaixamento progressivo do nível de consciência e bradicardia como sinais tardios.
🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?
Durante a triagem, o enfermeiro deve:
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Avaliar a temperatura da pele ao toque:
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Pele muito fria nas extremidades ou ao toque geral já deve acender alerta.
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Investigar se o paciente esteve em ambiente frio, água, ou local ao relento.
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Aferir temperatura corporal central (se disponível):
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Preferencialmente com termômetro timpânico profundo, retal ou esofágico.
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Observar sinais e sintomas associados:
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Tremores, pele pálida, extremidades cianóticas ou arroxeadas;
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Bradicardia, respiração lenta, pressão arterial baixa;
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Confusão, sonolência, torpor ou rebaixamento do nível de consciência;
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Ausência de tremores em hipotermia grave (sinal de exaustão térmica).
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Investigar fatores de risco:
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Idade avançada, etilismo, uso de drogas sedativas;
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Doenças metabólicas, histórico de quedas recentes ou exposição prolongada.
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🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester
O discriminador “Hipotermia” pode ser utilizado nos fluxogramas:
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Alteração do nível de consciência
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Paciente encontrado inconsciente / exposto ao frio
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Trauma com exposição ambiental
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Afogamento ou submersão
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Distúrbio metabólico (hipotireoidismo, hipoglicemia)
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Intoxicações / abuso de substâncias
🎯 Classificação de risco por cores
🔴 Vermelho – Atendimento imediato
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Temperatura central < 32°C com:
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Rebaixamento importante do nível de consciência;
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Bradicardia < 40 bpm, respiração lenta ou irregular;
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Hipotensão grave, confusão, rigidez muscular;
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Histórico de afogamento ou exposição prolongada com instabilidade hemodinâmica.
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🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos
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Temperatura entre 32,1°C e 34,9°C com:
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Tremores intensos, sonolência, lentificação motora ou fala;
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PA ou FC limítrofes, extremidades frias, palidez;
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Idoso em estado confusional após exposição ambiental.
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🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos
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Temperatura levemente reduzida (34–35°C), com:
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Sintomas leves ou início de tremores;
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Estado geral preservado;
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Condições clínicas estáveis e sem comorbidades relevantes;
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Episódio isolado de frio ou mudança climática aguda.
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🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos
Não aplicável.
Toda hipotermia deve ser considerada, no mínimo, risco moderado, dada a possibilidade de deterioração rápida do quadro clínico.
📋 Exemplos clínicos aplicados
✅ Situação 1 – Classificação Vermelha
Homem de 78 anos, encontrado desacordado na calçada pela manhã. Pele fria, sem tremores, temperatura central 30,8°C, PA 85/50 mmHg, FC 38 bpm, confuso e bradicárdico.
➡️ Fluxograma: “Hipotermia grave em idoso exposto”
➡️ Discriminador: “Hipotermia”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato
✅ Situação 2 – Classificação Laranja
Mulher de 32 anos, nadadora, retirou-se do mar com tremores intensos, fala lenta, temperatura timpânica de 33,5°C. PA e FC normais, mas apresenta confusão leve.
➡️ Fluxograma: “Exposição ao frio / submersão”
➡️ Discriminador: “Hipotermia”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos
✅ Situação 3 – Classificação Amarela
Homem de 45 anos, caminhou na chuva por 2 horas, sem agasalho. Chega com queixa de frio e tremores leves. Temperatura axilar 34,8°C, sinais vitais normais, orientado.
➡️ Fluxograma: “Exposição leve ao frio”
➡️ Discriminador: “Hipotermia”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos
👩⚕️ Conduta da enfermagem na triagem
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Aferir temperatura corporal central, se possível;
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Avaliar:
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Pele fria, tremores, palidez, bradicardia, confusão mental;
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Pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória, nível de consciência;
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Investigar exposição ambiental, quedas, uso de álcool ou drogas;
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Iniciar:
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Aquecimento passivo (mantas térmicas, sala aquecida);
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Oxigênio suplementar em casos moderados a graves;
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Monitor cardíaco e preparo para suporte avançado, se necessário;
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Registrar todos os dados clínicos e circunstanciais.
✅ O que aprendemos
O discriminador “Hipotermia” é um sinal de urgência potencialmente fatal, especialmente em pacientes idosos, vulneráveis ou expostos a condições ambientais extremas. O reconhecimento precoce pelo enfermeiro classificador e a intervenção rápida com medidas de suporte e encaminhamento adequado são cruciais para prevenir disfunção multissistêmica e morte.
A correta aplicação do Protocolo de Manchester garante triagem segura, assertiva e eficiente em casos de distúrbio térmico.