Hipotermia

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco em distúrbios térmicos

A hipotermia é definida como a condição clínica em que a temperatura corporal central cai para ≤35°C, sendo considerada uma emergência médica potencialmente letal. De acordo com o Protocolo de Manchester, se a pele estiver fria ao toque, o paciente já deve ser considerado clinicamente frio, sendo a mensuração da temperatura corporal central (preferencialmente retal, timpânica profunda ou esofágica) indicada o mais rápido possível.

A hipotermia pode ser acidental ou secundária a condições clínicas subjacentes como infecções, choque, intoxicações, uso de drogas depressoras do SNC, ou doenças endócrinas, e pode afetar especialmente idosos, pessoas em situação de rua, crianças e vítimas de afogamento ou exposição prolongada ao frio.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

Hipotermia:
Temperatura corporal central igual ou inferior a 35°C, geralmente acompanhada de pele fria, lenta resposta neurológica, e bradicardia progressiva.
A simples percepção de pele fria ao toque já justifica a aplicação deste discriminador até que a temperatura central seja aferida e o risco excluído.


🧠 Causas clínicas e contextos comuns da hipotermia

🔴 Causas acidentais:

  • Exposição prolongada ao frio (rua, enchentes, alagamentos, ambientes gelados);

  • Afogamento ou submersão em água fria;

  • Imobilidade prolongada em piso frio (quedas em idosos);

  • Acidentes em trilhas, montanhas ou atividades ao ar livre.

🔴 Causas clínicas e secundárias:

  • Sepse grave (hipotermia como sinal de choque séptico);

  • Hipotireoidismo descompensado (coma mixedematoso);

  • Insuficiência adrenal;

  • Uso de álcool, benzodiazepínicos, barbitúricos, opioides;

  • Hipoglicemia grave;

  • Trauma com hemorragia severa ou lesão neurológica central.

⚠️ A hipotermia pode ser silenciosa e insidiosa, especialmente em idosos, com rebaixamento progressivo do nível de consciência e bradicardia como sinais tardios.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Avaliar a temperatura da pele ao toque:

    • Pele muito fria nas extremidades ou ao toque geral já deve acender alerta.

    • Investigar se o paciente esteve em ambiente frio, água, ou local ao relento.

  2. Aferir temperatura corporal central (se disponível):

    • Preferencialmente com termômetro timpânico profundo, retal ou esofágico.

  3. Observar sinais e sintomas associados:

    • Tremores, pele pálida, extremidades cianóticas ou arroxeadas;

    • Bradicardia, respiração lenta, pressão arterial baixa;

    • Confusão, sonolência, torpor ou rebaixamento do nível de consciência;

    • Ausência de tremores em hipotermia grave (sinal de exaustão térmica).

  4. Investigar fatores de risco:

    • Idade avançada, etilismo, uso de drogas sedativas;

    • Doenças metabólicas, histórico de quedas recentes ou exposição prolongada.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

O discriminador “Hipotermia” pode ser utilizado nos fluxogramas:

  • Alteração do nível de consciência

  • Paciente encontrado inconsciente / exposto ao frio

  • Trauma com exposição ambiental

  • Afogamento ou submersão

  • Distúrbio metabólico (hipotireoidismo, hipoglicemia)

  • Intoxicações / abuso de substâncias


🎯 Classificação de risco por cores

🔴 Vermelho – Atendimento imediato

  • Temperatura central < 32°C com:

    • Rebaixamento importante do nível de consciência;

    • Bradicardia < 40 bpm, respiração lenta ou irregular;

    • Hipotensão grave, confusão, rigidez muscular;

    • Histórico de afogamento ou exposição prolongada com instabilidade hemodinâmica.

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Temperatura entre 32,1°C e 34,9°C com:

    • Tremores intensos, sonolência, lentificação motora ou fala;

    • PA ou FC limítrofes, extremidades frias, palidez;

    • Idoso em estado confusional após exposição ambiental.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Temperatura levemente reduzida (34–35°C), com:

    • Sintomas leves ou início de tremores;

    • Estado geral preservado;

    • Condições clínicas estáveis e sem comorbidades relevantes;

    • Episódio isolado de frio ou mudança climática aguda.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

Não aplicável.
Toda hipotermia deve ser considerada, no mínimo, risco moderado, dada a possibilidade de deterioração rápida do quadro clínico.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Vermelha

Homem de 78 anos, encontrado desacordado na calçada pela manhã. Pele fria, sem tremores, temperatura central 30,8°C, PA 85/50 mmHg, FC 38 bpm, confuso e bradicárdico.

➡️ Fluxograma: “Hipotermia grave em idoso exposto”
➡️ Discriminador: “Hipotermia”
➡️ Classificação: vermelho – atendimento imediato


Situação 2 – Classificação Laranja

Mulher de 32 anos, nadadora, retirou-se do mar com tremores intensos, fala lenta, temperatura timpânica de 33,5°C. PA e FC normais, mas apresenta confusão leve.

➡️ Fluxograma: “Exposição ao frio / submersão”
➡️ Discriminador: “Hipotermia”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 3 – Classificação Amarela

Homem de 45 anos, caminhou na chuva por 2 horas, sem agasalho. Chega com queixa de frio e tremores leves. Temperatura axilar 34,8°C, sinais vitais normais, orientado.

➡️ Fluxograma: “Exposição leve ao frio”
➡️ Discriminador: “Hipotermia”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Aferir temperatura corporal central, se possível;

  • Avaliar:

    • Pele fria, tremores, palidez, bradicardia, confusão mental;

    • Pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória, nível de consciência;

  • Investigar exposição ambiental, quedas, uso de álcool ou drogas;

  • Iniciar:

    • Aquecimento passivo (mantas térmicas, sala aquecida);

    • Oxigênio suplementar em casos moderados a graves;

    • Monitor cardíaco e preparo para suporte avançado, se necessário;

  • Registrar todos os dados clínicos e circunstanciais.


✅ O que aprendemos

O discriminador “Hipotermia” é um sinal de urgência potencialmente fatal, especialmente em pacientes idosos, vulneráveis ou expostos a condições ambientais extremas. O reconhecimento precoce pelo enfermeiro classificador e a intervenção rápida com medidas de suporte e encaminhamento adequado são cruciais para prevenir disfunção multissistêmica e morte.

A correta aplicação do Protocolo de Manchester garante triagem segura, assertiva e eficiente em casos de distúrbio térmico.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 22:14