História Clínica Significativa

Reconhecimento clínico, aplicação no Protocolo de Manchester e critérios de risco associados a comorbidades crônicas e condições clínicas complexas

O discriminador “História Clínica Significativa” é utilizado durante a triagem para indicar que o paciente possui condições de saúde pré-existentes relevantes, que podem interferir diretamente na evolução do quadro agudo apresentado, aumentar o risco de complicações ou requerer um nível mais alto de vigilância e cuidado.

Essas condições costumam exigir medicação contínua, monitoramento periódico, ou tratamentos especializados, e tornam o paciente mais vulnerável em situações agudas, como infecções, traumas, desidratação, crises metabólicas, entre outras.

No Protocolo de Manchester, esse discriminador atua como modificador de risco — ele não define a cor de prioridade isoladamente, mas agrava a classificação quando presente em combinação com outros sinais clínicos.


📌 Definição segundo o Protocolo de Manchester

História Clínica Significativa:
Qualquer condição clínica crônica ou pré-existente que:

  • Requeira medicação contínua (anticoagulantes, insulina, imunossupressores, etc.);

  • Seja relevante para o quadro atual (ex: cardiopatia em paciente com dor torácica);

  • Demande acompanhamento médico especializado ou cuidados frequentes;

  • Contribua para pior prognóstico em condições agudas.


🧠 Exemplos de condições que caracterizam “História Clínica Significativa”

✅ Doenças cardiovasculares:

  • Insuficiência cardíaca congestiva (ICC);

  • Infarto prévio;

  • Arritmias em uso de antiarrítmicos;

  • Hipertensão grave de difícil controle.

✅ Doenças metabólicas e endócrinas:

  • Diabetes mellitus insulinodependente;

  • Hipoglicemia de repetição;

  • Insuficiência adrenal ou hipotireoidismo grave.

✅ Doenças respiratórias:

  • Doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC);

  • Asma de difícil controle;

  • Apneia do sono grave.

✅ Doenças neurológicas:

  • Epilepsia ativa;

  • Acidente vascular cerebral (AVC) prévio com sequelas;

  • Doença de Parkinson;

  • Alzheimer ou demência.

✅ Doenças hematológicas ou autoimunes:

  • Anemia falciforme;

  • Lúpus eritematoso sistêmico (LES);

  • Artrite reumatoide com uso de imunossupressores.

✅ Pacientes imunossuprimidos:

  • HIV/Aids em tratamento;

  • Uso de quimioterapia ou corticoide crônico;

  • Transplantados em uso de imunossupressores.

✅ Outras condições:

  • Insuficiência renal crônica em hemodiálise;

  • Neoplasias malignas em tratamento ativo;

  • Pacientes em cuidados paliativos;

  • Uso contínuo de anticoagulantes orais ou injetáveis.


🔍 Como identificar esse discriminador na triagem?

Durante a triagem, o enfermeiro deve:

  1. Questionar sobre doenças pré-existentes e tratamentos contínuos:

    • “Você tem alguma doença crônica?”

    • “Toma algum medicamento de uso contínuo?”

    • “Faz algum acompanhamento regular com especialistas?”

  2. Observar o impacto dessas condições no quadro atual:

    • A comorbidade interfere ou piora os sintomas de hoje?

    • Há risco de descompensação da doença crônica?

  3. Verificar uso de medicamentos que implicam maior risco:

    • Anticoagulantes, imunossupressores, insulina, corticoides, psicotrópicos, etc.

  4. Analisar a associação com o motivo da queixa atual:

    • Exemplo: dor torácica + história de infarto = risco elevado.

    • Queda em paciente anticoagulado = alto risco de sangramento oculto.


🛠️ Aplicação nos fluxogramas do Protocolo de Manchester

Esse discriminador não define um fluxograma específico, mas deve ser considerado em qualquer um dos fluxogramas onde a condição clínica pré-existente possa agravar o quadro agudo, como:

  • Dor torácica em cardiopata

  • Febre em paciente imunossuprimido

  • Crise convulsiva em epiléptico com histórico recente de surtos

  • Dispneia em paciente com DPOC

  • Hipoglicemia em paciente com diabetes instável


🎯 Classificação de risco por cores

O discriminador modifica a cor para uma prioridade mais alta, dependendo da associação com outros sintomas. Exemplos:

🟠 Laranja – Atendimento em até 10 minutos

  • Quadro clínico moderado + comorbidade grave:

    • Febre em paciente com lúpus ou HIV;

    • Dor abdominal em diabético insulinodependente;

    • Queda em idoso anticoagulado com dor torácica.

🟡 Amarelo – Atendimento em até 60 minutos

  • Quadro leve + comorbidade importante:

    • Dor lombar em paciente oncológico;

    • Tosse leve em paciente com DPOC;

    • Náuseas em paciente em quimioterapia.

🟢 Verde – Atendimento em até 120 minutos

Não é recomendado para pacientes com quadro agudo e comorbidade relevante.
Pacientes com “História Clínica Significativa” devem sempre ser reavaliados cuidadosamente antes de se considerar uma prioridade baixa.


📋 Exemplos clínicos aplicados

Situação 1 – Classificação Laranja

Homem de 65 anos, com histórico de infarto e hipertensão grave, chega com dor torácica leve, PA 145/95 mmHg, sem alterações no ECG inicial.

➡️ Fluxograma: “Dor torácica em cardiopata”
➡️ Discriminador: “História Clínica Significativa”
➡️ Classificação: laranja – atendimento em até 10 minutos


Situação 2 – Classificação Amarela

Mulher de 42 anos, em tratamento de câncer de mama, relata náuseas leves e mal-estar. Está em uso de quimioterapia recente, sinais vitais normais.

➡️ Fluxograma: “Náuseas em paciente oncológico”
➡️ Discriminador: “História Clínica Significativa”
➡️ Classificação: amarelo – atendimento em até 60 minutos


👩‍⚕️ Conduta da enfermagem na triagem

  • Questionar e registrar detalhadamente:

    • Comorbidades, medicamentos de uso contínuo, alergias;

    • Especialidades médicas que acompanham o paciente;

    • Últimas internações ou episódios de descompensação;

  • Avaliar se a condição crônica aumenta o risco de evolução grave do quadro atual;

  • Encaminhar conforme o impacto clínico e a combinação de sintomas agudos + comorbidade;

  • Comunicar à equipe médica em caso de associação com risco iminente.


✅ O que aprendemos

O discriminador “História Clínica Significativa” funciona como agravante na priorização de risco, pois identifica pacientes com maior propensão a descompensações clínicas, complicações infecciosas, eventos adversos ou resposta reduzida ao tratamento.

É papel do enfermeiro classificador avaliar com profundidade o histórico de saúde do paciente, valorizar o uso contínuo de medicamentos e a presença de doenças crônicas, garantindo assim um atendimento seguro, humanizado e baseado em evidências, conforme os princípios do Protocolo de Manchester.


Última atualização: quinta-feira, 3 abr. 2025, 22:24